2. O AUTOR
2.1 DESCENTRAMENTOS DA AUTORIA DA MODERNIDADE
Stuart Hall (2011) apresenta alguns descentramentos do sujeito moderno. O primeiro seria a partir do pensamento de Marx, desenvolvido por Althusser em seu “anti-humanismo teórico”, o qual pregava que o sujeito pode se construir a partir das condições que o ambiente lhe proporciona, bem como “ao colocar as relações sociais e não a noção abstrata de homem no centro de seu sistema teó-
rico”, Marx, “deslocou duas proposições-chave da filosofia moderna: que há uma essência universal de homem; e, que essa essência é o atributo de ‘cada indiví- duo singular’, o qual é seu sujeito real” (HALL, 2011, p. 35).
O segundo descentramento ocorrera a partir da descoberta do inconsciente de Freud, e principalmente do que dela provém, a fragmentação do sujeito carte- siano, edificado sobre a Razão (clássica) e que, agora, deve ser pensado perante uma “lógica” que prevê a formação de identidade do sujeito moderno a partir de “processos psíquicos e simbólicos do inconsciente” (p. 36). O estádio do espelho lacaniano representa essa ruptura com o sujeito cartesiano, uma vez que
[...] a imagem do eu como inteiro e unificado é algo que a criança aprende apenas gradualmente, parcialmente, e com grande difi- culdade. Ela não se desenvolve naturalmente a partir do interior do núcleo do ser da criança, mas é formada em relação com os outros; especialmente nas complexas negociações psíquicas in- conscientes, na primeira infância, entre a criança e as poderosas fantasias que ela tem de suas figuras paternas e maternas. Naqui- lo que Lacan chama de "fase do espelho", a criança que não está ainda coordenada e não possui qualquer auto-imagem como uma pessoa "inteira", se vê ou se "imagina" a si própria refletida — seja literalmente, no espelho, seja figurativamente, no "espelho" do olhar do outro — como uma "pessoa inteira" (HALL, 2011, p. 37)
É com Saussure que podemos perceber o terceiro descentramento, quan- do o teórico afirma que:
[...] nós não somos, em nenhum sentido, os "autores" das afirma- ções que fazemos ou dos significados que expressamos na lín- gua. Nós podemos utilizar a língua para produzir significados ape- nas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sis- temas de significado de nossa cultura. A língua é um sistema so- cial e não um sistema individual. Ela preexiste a nós. Não pode- mos, em qualquer sentido simples, ser seus autores. Falar uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa língua e em nossos sistemas culturais. (HALL, 2011, p. 40)
Saussure corrobora a tese de que a assinatura, como um meio de atribuir legalmente e socialmente um texto a alguém, é fundamentada ainda na visão de um sujeito centralizado e uno, o qual já não tem mais espaço na modernidade do século XX, por exemplo. Na visão de Saussure, um autor não pode ser original,
nem individual, uma vez que a língua não é individual, mas social, e seus signifi- cados estão predispostos a uma lógica de semelhança e diferença.
Outro descentramento apontado por Hall é o pensamento de Foucault, no que tange ao poder disciplinar. Para Hall (2011),
O poder disciplinar está preocupado, em primeiro lugar, com a re- gulação, a vigilância é o governo da espécie humana ou de popu- lações inteiras e, em segundo lugar, do indivíduo e do corpo. Seus locais são aquelas novas instituições que se desenvolveram ao longo do século XIX e que "policiam" e disciplinam as populações modernas — oficinas, quartéis, escolas, prisões, hospitais, clínicas e assim por diante (veja, por exemplo, História da loucura, O nas-
cimento da clínica e Vigiar e punir).O que é particularmente inte-
ressante, do ponto de vista da história do sujeito moderno, é que, embora o poder disciplinar de Foucault seja o produto das novas instituições coletivas e de grande escala da modernidade tardia, suas técnicas envolvem uma aplicação do poder e do saber que "individualiza" ainda mais o sujeito e envolve mais intensamente seu corpo. (HALL, 2011, p. 42)
O sujeito que Foucault apresenta é um sujeito que deve ter um corpo dócil, docilizado, como uma fera que é domesticada. Desta forma, “quanto mais coletiva e organizada a natureza das instituições da modernidade tardia” se apresenta, “maior o isolamento, a vigilância e a individualização do sujeito individual” (HALL, 2011, p. 42).
Como foi apontado acima, a autoria do Classicismo era fundamentada na homenagem aos mestres, a partir da noção de mimesis, e da apropriação de tex- tos clássicos, a fim de glorificar a obra, e não a autoria. A partir desse pressupos- to se pode pensar, também, em alguns descentramentos na autoria. O primeiro descentramento acontece no Romantismo, uma vez que o autor romântico busca- va a originalidade e a individualidade ao contrapor-se ao diferente, ao outro. O autor romântico rompe com o clássico ao criar sua obra de forma singular, ele- vando o eu acima do outro, a partir de uma unidade com a natureza.
Há um segundo descentramento quando o Romantismo apresenta-se co- mo uma tentativa de individualização do homem, principalmente pela representa- ção da “cor local” e pela ufania. Para Rosenfeld (2002), o sujeito ao se deparar com a subjetividade vê-se cingido em dois, pontanto,
Se a expressão da dissociação universal que caracteriza o ser humano, particularmente em nossa civilização, há de ser o signo da arte verdadeiramente inspirada, compreende-se que a simbo- logia romântica esteja povoada de figuras desse esfacelamento e fragmentação: sósias, duplos, homens-espelhos, homens- máscaras, personagens duplicadas em contrafações e alienadas em sua humanidade. Todos eles são outras tantas concreções que realçam o caráter contraditório e cindido do espírito artístico que as gerou. Na verdade, o romântico, enquanto batia o espaço e o tempo empós a unidade e a inocência, era perseguido por sua própria sombra desdobrada, pela consciência de ser um homem dividido, estranhado, social e culturalmente. Reencontrar a inteire- za é a meta da dialética de sua fuga. (ROSENFELD, 2002, p. 274)
Em Edgar Allan Poe, por exemplo, é possível perceber que o homem foi cingido, está fragmentado, o sujeito não é mais uno, mas sim duplo. O sujeito é múltiplo, perturbador. Ele se conhece a partir do extraordinário, do insólito, do hor- ror. O sujeito de Poe apresenta uma face para o mundo e uma face para si pró- prio. Desse horror proporcionado por uma realidade idealizada e um inevitável confronto com a realidade traumática, o sujeito em Baudelaire (As flores do Mal- 1857), mostra-se corrompido, dando espaço para a linguagem acima da própria realidade.
Portanto, com o distanciamento da realidade, e, consequentemente, o aprofundamento na própria linguagem, o último descentramento do clássico é a obra de Mallarmé, que abre caminho para todo o modernismo do século XX. Em seu poema Um lance de dados (1897), ele abre mão da mimesis, negando-a, pa- ra abraçar inteiramente a linguagem e só a ela. Uma linguagem que é desautoma- tizada. Desta forma, pode-se perceber que o descentramento do sujeito acompa- nha o descentramento da autoria quanto ao pensamento clássico.
O autor se constrói a partir do outro e com o outro. Podemos perceber que a autoria passou de um ato de homenagem aos mestres para um ato de sublimi- dade de um sujeito especial e único. Mais tarde essa sublimidade dá lugar a um autor que é um performer, ou seja, um manipulador que produz seu texto a partir de outros textos de outros autores. O foco está no processo e não no sujeito. O autor morre logo após o ponto final.
Depois de se ter discutido a problemática do autor, trabalhar-se-á com a fi- gura do duplo, desde suas representações na antiguidade até os exemplos no Romantismo alemão, na forma de Döppelganger (duplo). Sumariamente, foi traba-
lhado o conceito de literatura para chegar ao conceito de intertextualidade que, por sua vez, tem uma ligação importante com o processo de autoria, principal- mente, no que tange ao nosso trabalho. No limiar entre autoria e duplo instalar-se- á a discussão sobre a obra de King e o cabedal teórico levantado.
3 O DUPLO
O tema do duplo sempre esteve presente na cultura Ocidental e Oriental. De acordo com Gonçalves Neto (2011), as primeiras representações estariam ligadas a Gilgamesh, epopeia babilônica encontrada em achados arqueológicos por volta de 1872, composta por doze tabuinhas e mais de três mil linhas. No po- ema, o rei de Uruk, Gilgamesh, recebe um inimigo enviado pelos deuses chama- do Enkidu, a fim de derrotá-lo. Mas, após domesticá-lo, Gilgamesh se torna amigo de Enkidu. Como opostos que se completam, correm o mundo em aventuras, nas quais aparecem seres mitológicos como Humbaba, Ishtur e Utnapishtim (o único sobrevivente do dilúvio). Quando por conluio dos deuses Enkidu morre, Gilga- mesh, a fim de ressuscitá-lo procura Utnapishtim, que indica uma planta, a qual fornece a juventude eterna. Mesmo não conseguindo ressuscitar seu amigo, Gil- gamesh volta para Uruk e é aclamado por seus convivas. Segungo Golçalves Ne- to (2011),
Apesar de talhado para combater Gilgamesh, Enkidu acaba por tornar-se o parceiro do herói, já que os dois, ao invés de duelarem um contra o outro, combatem, em parceria. [...] Um é rei, homem, forte e urbanizado; o outro é animal, ser- viçal, de grande percepção e rural. Os dois são complemen- tares, ou seja, duplos, com o mesmo sangue [filhos da mesma mãe, Anu], mas com origens e qualificações diferen- tes. (GONÇALVES NETO, 2011, p.16-17)
Gilgamesh apresenta uma das características básicas do duplo, a alterida- de como unicidade. Ao mesmo tempo que são diferentes e rivais, ambos se com- plementam. Essa narrativa influenciou algumas histórias bíblicas, como o dilúvio e a arca de Noé. Na Bíblia, aponta Gonçalves Neto (2011), é possível encontrar algumas histórias com a presença do duplo, como Esaú e Jacó e Caim e Abel. Ambas narrativas que mostram como irmãos de sangue se confrontam a partir da alteridade de seus atos e personalidades. Caim assassina seu irmão Abel, logo após deus não reconhecer seu sacrifício/oferenda, mas reconhecer a do seu ir- mão. Caim é amaldiçoado para sempre. Concomitantemente, Esaú é enganado