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Descoberta pela Linguagem – Livro-Leitura

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A obra afirma-se imperiosamente como objeto; o sensível manifesta -se em sua plenitude, animado por uma necessidade interna e é nele que o sentido se manifesta; a obra não é um amontoado de signos, ela faz signo.

Mikel Dufrenne

Tuahir e Muidinga caminham pela estrada morta de horrores, quando encontram um corpo de um homem morto a tiros. Junto dele estava uma mala, fechada e intacta.

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Tuahir tenta abrir o achado, não é capaz. Convoca a ajuda de Muidinga: - Abre, vamos ver o que está dentro.

Forçam o fecho apressados. No interior da mala estão roupas, uma caixa com comidas. Por cima de tudo estão espalhados cadernos escolares, gatafunhados com letras incertas. O velho carrega a caixa com mantimentos. Muidinga inspeciona os papeis. (COUTO, 2007, p.12).

O jovem retira os caderninhos e os guarda. Não parece pretender sacrificar aqueles papéis para iniciar o fogo. O velho pede-lhe para acender uma fogueira lá fora.

O miúdo se levanta e escolhe entre os papéis, receando rasgar uma folha escrita. Para fazer o fogo arranca a capa de um dos cadernos. Depois se senta ao lado da fogueira abre os cadernos, sorri com a satisfação de uma conquista:

- Que estás a fazer, rapaz? - Estou a ler.

- É verdade, já esquecia. Você era capaz de ler. Então leia em voz alta que é para me dormecer.

O miúdo lê em voz alta. Seus olhos se abrem mais que a voz que, lenta e cuidadosa, vai decifrando as letras. Ler era coisa que ele apenas agora se recordava saber. (COUTO, 2007, p. 13-14).

O velho não tinha a faculdade da leitura, mas estava ansioso para ouvir, saber o que estava por detrás daqueles escritos. Já o menino queria decifrar, letra por letra, todo o enigma de uma história que ele ainda não sabia: a sua própria e a de seu povo.

A desreificação do ser em Terra Sonâmbula inicia-se com leitura dos cadernos de Kindzu. Ela desperta Muidinga e Tuahir, pelos vários episódios e personagens introduzidos por seus diários, para uma nova perspectiva de suas vidas e suas ações.

O ser está ligado à sua capacidade de ser agente do discurso e da história, tanto a sua quanto a da humanidade: a linguagem é recurso fundamental da vida. É pela linguagem que é possível ao homem conhecer o mundo e a si mesmo, representar seu pensamento, ter ciência de sua condição e da sua finitude. Ela é o único meio disponível para se chegar a certo conhecimento do homem, enquanto sujeito, e do mundo, enquanto fenômeno. Sem ela todo o acesso ao mundo estaria fadado à incomunicabilidade do universo fechado e desconhecido.

As palavras falam porque as coisas nos falam, e é no mesmo movimento que elas nos falam e que elas se nomeiam. Originalmente, quando a coisa faz signo, o signo que a nomeia é motivado. Não é o homem falante, para o qual a linguagem sempre já está aí, quem cria o signo. (DUFRENNE, 1972, p. 147).

È ela que permite ao homem a ordenação e a representação do pensamento. È impossível falar do homem sem falar antes da linguagem, pois a linguagem antecede o homem.

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Linguagem e pensamento tendem a se identificar num movimento convergente onde o pensamento se torna linguagem e a linguagem pensamento; as palavras apagam-se no uso que delas eu faço, a ferramenta cumpre sua função ao se abolir; mas também ela só se abole ao cumprir sua função, a ponto de abolir o pensamento como pensamento anterior à fala, como “processo interior”, segundo a expressão de Wittgenstein: o pensamento é inteiramente linguagem. Destarte, eu sou investido pela linguagem: mais do que familiar, ela me é congênita. (DUFRENNE, 1972, p. 133).

Para Hanna Arenth (1987, p.192) “no discurso, os homens mostram quem são, revelam ativamente suas identidades pessoais e singulares e assim apresentam-se ao mundo humano, enquanto suas identidades físicas são reveladas, sem qualquer atividade própria, na conformação singular do corpo e no som singular na voz. Esta revelação de “quem” em contraposição a “o que” alguém é, está implícita em tudo o que se diz ou faz”.

Thuair, pelo contato que tem com os diários de Kindzu, através das leituras que lhe faz Muidinga, também parece aos poucos se transformar. Enquanto ensina Muidinga pela prática, também aprende com os diários. Podemos visualizar sua mudança de percepção no capítulo “O Fazedor de Rios” quando, contra a vontade de Muidinga, decide ajudar Nhamataca que, supostamente, estava cavando a terra para “fazer” um rio.

Ele e o velho tinham outras intenções, não se podiam desviar por irrealidades. Tuahir negou. Ele acha que devem juntar braços com o fazedor de rios. Tuahirtinha argumento de uma vantagem: quem sabe pudessem aproveitar o nascente rio? A viagem deles se tornaria curta, menos custosa.

- Em vez de esperarmos na estrada, fazemos o nosso caminho. [...]

Muidinga volta a mudar de idéias sobre o empreendimento. Fala com Tuahir, à parte. Lhe faz ver a loucura de Nhamataca. Mas seu companheiro se nega a dar audição.

- Desculpa, Muidinga. Nhamataca não está maluco, não. O homem é como a casa: deve ser visto por dentro! (COUTO, 2007, p.88).

Tuahir deseja passar um ensinamento a Muidinga, o de que cada ser deve construir o seu próprio destino, agir ao invés de ficar esperando que outro o faça e, apenas o interior de cada ser deve ser visto, não suas atitudes, por mais estranhas que estas pareçam. Mantendo a sua tradição, Tuahir aos poucos vai se transformando, tanto pelo contato com Muidinga quanto pelo que recebe das leituras dos cadernos de Kindzu. Na verdade, o “rio” em construção por Nhamataca pode ser entendido como o caminho mais curto para alcançar um objetivo, abreviar a viagem rumo ao entendimento, ao encontro da consciência.

Pode-se observar que Muidinga também reflete sobre a morte de Nhamataca, observando-a sob outro prisma. “Muidinga olha a paisagem e pensa. Morreu um homem que sonhava, a terra está triste como uma viúva” (COUTO, 2007, p. 89). É uma clara referência ao

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indivíduo que tenta realizar os sonhos, diferentemente do que acontece com Kindzu, conforme demonstra sua linguagem, nos diários que Muidinga lê. O mundo é linguagem, e, como tal, ele e o homem vão se tornando sujeitos, por meio e a partir dela, numa profunda metamorfose do ser.

3.3 Sedução à Expansão da Leitura – O Efeito Estético e a Recepção – Processo de

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