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Descobertas científicas e histórico do tabagismo

No documento ISBN: (páginas 142-144)

A PRODUÇÃO DE CONHECIMENTO ACERCA DO TABAGISMO E SEUS IMPACTOS NAS MÍDIAS SOCIAIS

2.1. Descobertas científicas e histórico do tabagismo

O tabaco advém de plantas nicotianas, ou seja, seu ativo é a nicotina, um opioide que possui função narcótica e relaxante. As espécies mais comuns são: Nicotiana tabacum e Nicotiana rustica (ARAÚJO, 2015). O cultivo dessas plantas em solos americanos, especificamente na região andina, é feito desde 5000-3000 a.C. Especula-se que o uso no mundo oriental já era feito desde tempos imemoriais. Nesse sentido, o tabaco foi usado de diferentes maneiras, entre as quais se podem citar: recreação (cheirado, mastigado, entre outros), medida terapêutica (antisséptico, por exemplo), parte de rituais (oferecido para deuses) e auxílio na agricultura (inseticida) (MUSK; DE CLERK, 2003, p. 286).

A dispersão do consumo do tabaco pelo mundo ocidental ocorreu a partir da descoberta da América, séculos XV e XVI, por Colombo. O contato dos europeus com a droga se concretizou quando os colonizadores levaram-na para o Velho Mundo e o uso foi adotado pelas cortes. A Igreja Católica Apostólica Romana, inicialmente, repeliu sua utilização. Entretanto, desde essa época, o aspecto econômico atuou para a perpetuação do consumo do tabaco, que gerava lucro para os colonizadores, os quais controlavam o cultivo e comercialização da planta em troca de escravos (ARAÚJO, 2015).

O lucro da comercialização do tabaco contribuiu inclusive para que acontecesse a Revolução Industrial inglesa, no século XVIII. Assim, o cigarro manufaturado surgiu na década de 1850. A popularização da forma de utilização do tabaco como cigarro decorreu de sua forma compacta, que facilitou o uso por combatentes na Primeira Guerra Mundial. Outras formas de uso eram o cachimbo, charuto e rapé, por exemplo (MUSK; DE CLERK, 2003). Ademais, o denominado “paradoxo do progresso” citado por ARAÚJO (2015) designa a disseminação do hábito de fumar associado ao uso do álcool como maneira de aliviar o estresse experimentado pelas classes sociais mais baixas devido à árdua rotina nas fábricas.

O uso da planta nicotiana também era feito para desempenhar funções medicinais. A rainha Catarina de Médici, por exemplo, utilizava o tabaco para amenizar suas enxaquecas. Era senso comum para os médicos do século XVI que o tabaco era benéfico para a saúde.

Prova disso é o livro “De hierba Panacea” de Dr. Nicholas Monartes, no qual se atribuía à droga nicotiana a cura de 36 enfermidades (ARAÚJO, 2015).

Desse modo, a introdução do marketing à venda do cigarro contribuiu ainda mais para ampliar seu uso. Na segunda metade do século XIX, surgiu o protótipo das caixas de maço de cigarro (ARAÚJO, 2015). Já no século XX, iniciou a propaganda em massa (rádio e televisão), em que médicos, personalidades do esporte e artistas famosos eram pagos para aparecer fumando e, assim, influenciar o público. Ademais, os produtos derivados das plantas nicotianas eram importantes fontes de taxas de impostos para os governos (PROCTOR, 2004, p.373). Na década de 1940, algumas publicidades se utilizaram de médicos e de dentistas para promover marcas de cigarro, prometendo que o uso do produto combatia a tosse, o mau hálito e a dor de garganta (ARAÚJO, 2015).

Desde o século XVIII, doenças como câncer na área dos lábios, na boca e na garganta eram relacionados ao uso do tabaco. Entretanto, a patologia pulmonar ainda não era recorrente e o diagnóstico muitas vezes, errado, correlacionando os sinais e sintomas da malignidade com outras enfermidades, como tuberculose. Nesse ínterim, foi a partir da década de 1950 que estudos demonstraram forte evidência da relação do uso do tabaco com o câncer de pulmão. Todavia, os estudos eram ridicularizados pela indústria do tabaco, que alegava não haver indícios suficientes para asseverar que o uso da droga causava danos (PROCTOR, 2004, p. 373). As indústrias fumageiras, diante desse cenário, convocaram seus próprios estudos sobre o tabaco. Esses levantamentos eram enviesados. Além de refutar as pesquisas que acusavam os danos do uso da droga, ainda divulgavam seus benefícios, como o manejo do estresse e controle do peso corporal (ARAÚJO, 2015).

Assim, os lucros gerados pelo tabaco foram motivo de seus malefícios permanecerem durante anos como apenas hipóteses. Conforme MILOV (2019) citada por PROCTOR (2020), os fabricantes de cigarro influenciavam até mesmo a política, apoiando financeiramente, por exemplo, os candidatos que os favoreciam, a fim de proteger seus negócios. Ademais, o fortalecimento da televisão como um meio de propagação de informações em massa propiciou um veículo ideal para influenciar os hábitos dos indivíduos. Dessa maneira, a indústria do tabaco patrocinava eventos, como corridas de fórmula 1 e festivais (ARAÚJO, 2015).

Diante do aumento das taxas de mortalidade, diversas famílias recorreram à justiça a fim de denunciar as indústrias tabagistas. Desse modo, ocorreu uma obrigação judicial para

divulgação de documentos secretos, que demonstraram o conhecimento por parte da indústria acerca dos malefícios do uso do tabaco (ARAÚJO, 2015). Assim, medidas foram elaboradas ao longo dos anos subsequentes para diminuir o uso da droga e, consequentemente, os efeitos danosos decorrentes da utilização.

O uso do tabaco não é uma questão apenas de saúde, mas também ambiental, social e sanitária (BOEIRA; JOHNS, 2007). Nesse sentido, dentre as várias ações articuladas para conter o avanço tabagista, destaca-se a Convenção-Quadro de Controle do Tabaco (CQCT) da Organização Mundial da Saúde (OMS), ratificada no Brasil em 2005. Em suma, os países membros recebem prescrições que auxiliam a impedir a produção de tabaco a partir do controle de sua oferta e demanda. Assim, entre as medidas adotadas podem-se citar: aumento de preços e impostos sobre os produtos derivados de plantas nicotianas (artigo 6°); mecanismos de proteção à exposição da fumaça do tabaco (artigo 8°); educação, comunicação, treinamento e conscientização do público (artigo 12°); promoção da cessação do tabagismo (artigo 14°); combate ao comércio ilícito de produtos derivados do tabaco (artigo 15°) e proibição da venda para menores de idade (artigo 16°). Destaca-se ainda o controle do marketing nos artigos 11° (regulamentação de embalagem e etiquetagem) e 13° (proibição total da publicidade, da promoção e do patrocínio) (BRASIL, 2006).

Portanto, diante do histórico do tabagismo, verifica-se que a perpetuação de seu uso durante a história teve importante contribuição de interesses econômicos e do uso das mídias para propagandear a utilização como um bom hábito e influenciar os indivíduos ao consumo. Todavia, diante da irrefutabilidade dos estudos científicos que comprovam os danos à saúde, ao meio ambiente e à sociedade, medidas foram necessárias para controlar a demanda e oferta do produto. Assim, o papel da Organização Mundial da Saúde foi imprescindível para liderar as atividades mundiais antitabagismo, sob denominação de Convenção-Quadro de Controle do Tabaco.

No documento ISBN: (páginas 142-144)