2. Descontos
2.1 Tipos de Descontos
2.1.1. Descontos condicionais e descontos não condicionais
Em relação aos descontos condicionais, estes são concedidos aos clientes para de alguma forma os “recompensar por um comportamento de compra específico”3. Como refere RICARDO BORDALO JUNQUEIRO4, “estes descontos são atribuídos em função do comportamento de compras da entidade beneficiária, procurando recompensá-la pela concentração das mesmas junto da empresa que os concede”.
Este tipo de descontos é usado pelos fornecedores para aumento de vendas, criar publicidade, entre outros. Normalmente, mediante certas condições, os retalhistas oferecem maior quantidade de produto, por um preço mais baixo, ou fazem promoções num determinado produto. Através destes descontos, as empresas procuram beneficiar os consumidores e ao mesmo tempo estimular a compra dos seus produtos.
Os segundos caraterizam-se por serem concedidos a alguns clientes, e normalmente são concedidos, a esses clientes, independentemente do que compram, da quantidade, da frequência, isto é, independentemente do seu comportamento como compradores5 Um exemplo dado pela Comissão, que caracteriza este género de descontos, será o de descontos concedidos apenas a um grupo de clientes que está sediado numa região de fronteira, uma vez que estes poderão deslocar-se e comprar a fornecedores
3 Comunicação da Comissão — Orientação sobre as prioridades da Comissão na aplicação do artigo 82.o do Tratado CE a comportamentos de exclusão abusivos por parte de empresas em posição dominante – p. 7 -
https://institutoeuropeu.eu/images/stories/Comunicacao_da_CE__Aplicacao_Art_102_TFUE.pdf
4 Ver JUNQUEIRO, Ricardo Bordalo, Abusos de Posição Dominante, Almedina, Coimbra, 2012, p. 380 e ss.
5 DG Competition discussion paper on the application of the Article 82 of Treaty to exclusionary abuses – Brussels, December 2005 – p.39 e ss http://ec.europa.eu/competition/antitrust/art82/discpaper2005.pdf
14 situados noutro país, por forma a comprar a quem lhes dê mais benefícios. Estes descontos são-lhes atribuídos para não “abandonarem” um determinado fornecedor.
Os descontos condicionais são mais suscetíveis de levar ao encerramento do mercado a outros concorrentes, merecendo, por isso, maior atenção por parte da Comissão Europeia.
Ainda dentro dos descontos condicionais estes podem subdividir-se em descontos retroativos e descontos progressivos.
No que aos descontos retroativos diz respeito, estes serão concedidos ao cliente cujas compras efetuadas durante um período previamente definido, por exemplo um ano, ultrapassem um determinado limiar, sendo o desconto concedido sobre a totalidade das compras.
Um exemplo que ilustra esta situação será aquele em que o fornecedor estabelece que o cliente tem de comprar, no limite, 100 unidades de um determinado produto.
Quando chega às 100 unidades, o desconto é aplicável a todas elas, desde a primeira à centésima.
Por oposição a estes, existem os descontos progressivos que serão concedidos
“sempre que o limite imposto é ultrapassado – ou seja, o desconto vale sobre os produtos comprados acima do limiar”6.
O desconto aqui, utilizando o exemplo supramencionado, valeria para todos os produtos acima das 100 unidades.
Os descontos condicionais preocupam a Comissão, em especial quando retroativos, uma vez que poderão existir efeitos negativos, tais como, o encerramento do mercado a fornecedores concorrentes e fornecedores potenciais, o que faz com que a empresa em posição dominante mantenha ou reforce a sua posição, dificultando a manutenção ou o crescimento de competitividade residual ou potencial.
Clarificando, como refere a Comissão nas prioridades relacionadas com o artigo 102.º do TFUE, “os concorrentes não podem competir em condições de igualdade para a totalidade da procura de cada cliente. Um desconto condicional pode permitir-lhe a
6 MEIRELES, Marta Lameiras, Os descontos no âmbito do Direito da Concorrência: A problemática dos descontos de fidelidade, UCP Escola de Direito – Porto, maio 2016 – p. 9.
15 utilização da parte «não contestável» da procura de cada cliente (isto é, a quantidade que o cliente compraria, de qualquer maneira, à empresa dominante) como uma alavanca para diminuir o preço pago pela parte «contestável» da procura (isto é, a quantidade para a qual o cliente pode preferir e pode encontrar produtos substitutos”7.
Outro efeito negativo, poderá ser a discriminação de preços entre os diferentes compradores. A Comissão encontrou vários casos de discriminação que resultam do sistema de descontos aplicados, em particular entres concorrentes do mercado a jusante.
Estar-se-á então perante abusos de exploração.8
Além disso, sempre terá de se ter presente que, à partida, uma empresa em posição dominante terá uma maior facilidade de produzir a um preço mais baixo do que o limiar, sendo que as outras concorrentes, muitas vezes, não terão a mesma possibilidade. O que faz com que os concorrentes não possam concorrer com a empresa dominante. Em relação ao cliente, este será atraído por esse desconto, preferindo então abastecer-se junto de quem lhes concede tal desconto, efeito que é potenciado pela existência de uma quota vinculada, correspondente à quantidade que teria de adquirir junto da empresa dominante (por ser, por exemplo, um fornecedor de produtos que não pode deixar de ter à sua disposição ou de vender aos respetivos clientes). Uma vez que esse desconto apenas vigorará por um determinado período, se os clientes fizerem grandes encomendas, influenciados por este, não irão procurar outras empresas concorrentes.
Ou seja, preços mais baixos para alguns clientes poderão induzir outros clientes a comprar àquele fornecedor.
Estes descontos têm como objetivo incentivar o comprador a adquirir, junto da empresa que concede os descontos, grande parte das suas necessidades, bem como o maior número de produtos possível.
7 Comunicação da Comissão – p. 7, disponível em
https://institutoeuropeu.eu/images/stories/Comunicacao_da_CE_-_Aplicacao_Art_102_TFUE.pdf
8 MOURA E SILVA, Miguel, O abuso de posição dominante na nova economia, Almedina, Coimbra,
2010, p. 425.
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