2.5 Caracterização da Lagoa Piçarreira do Cabrinha
2.5.1 Descrição e estudo do Programa Lagoas do Norte
Neste item apresentamos um estudo documental, por meio dos relatórios disponibilizados pela PMT, referente à implantação do Programa Lagoas do Norte, no ano de 2011, em Teresina, o qual foi iniciado com a inauguração da Lagoa Piçarreira do Cabrinha (figuras 4 e 5). O exemplo desta é simbólico para demonstrar a diversidade visual e funcional do espaço urbano com a valorização do consumo, como atividades de lazer e de turismo, pequenas vendas se somam às atrações do lugar para os moradores.
Figuras 4 e 5 - Vista panorâmica da área da Lagoa Piçarreira do Cabrinha
Fonte: Blog Arquiurbanes/ Foursquare, 2013
A área de intervenção do Programa Lagoas do Norte - PLN, idealizado pela Prefeitura de Teresina, compreende os espelhos d'água das Lagoas localizadas em treze bairros da zona norte da capital do Piauí (Acarape, Matadouro, Alvorada, São Joaquim, Nova Brasília, Mafrense, Olarias, Poty Velho, Itaperu, Aeroporto, São Francisco e Mocambinho), suas margens e seu entorno, conforme apresenta a figura 6. O principal objetivo do programa é melhorar as condições de vida e promover o desenvolvimento sócioeconômico, e ambiental da região das Lagoas.
Figura 6 - Mapa da Área de intervenção do Programa Lagoas do Norte
Inicialmente as informações aqui descritas, foram disponibilizadas, a partir de um encontro com uma técnica responsável diretamente pela execução, acompanhamento e avaliação do referido programa, ou seja, uma profissional da UPS e da própria realização da entrevista a qual aconteceu na instalação da sede da ação de operacionalização desse programa, além, é claro, das entrevistas com os moradores do entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha.
Essa reunião possibilitou que apresentássemos a pesquisa à técnica ali presente e colhêssemos informações dessa profissional que revelou dados interessantes que só através desse contato pessoal poderia constatar, pois no programa escrito, ou nos relatórios parciais e finais da Prefeitura Municipal de Teresina - PMT, só destacavam de forma parcial e não manifestavam a carga emocional nem repassavam as informações.
Com o propósito de evitar a reocupação das margens destas Lagoas e dotar a região norte de uma área turística e de lazer integrada à preservação ambiental, o PLN sugeriu a implantação do Parque Linear, próximo às Lagoas e aos canais de interligação, contemplando área de convívio com conjunto de mesas, pistas de skate, anfiteatro, calçadão, quiosques e passarelas, tendo em vista propiciar seu uso pleno e seguro para o lazer em suas formas de contemplação, de esporte e de cultura, bem como a garantia de conservação da área.
De acordo com o previsto pelo PLN, o referido Parque está contemplado em quatro partes; cada uma apresenta características específicas, objetivando um melhor delineamento que propicie melhor entendimento do conjunto. A parte 1 compreende a Lagoa Piçarreira do Cabrinha e seu entorno, incluindo a Rua José Nati e Rua Tucunã, com suas quadras adjacentes, e o trecho do canal, sendo limitada ao norte pela Rua Mineral, a leste por uma Rua sem denominação, ao sul pela Rua São Félix e a oeste pela avenida Boa Esperança, ocupando uma área total de 75.923,50 m².
Antes da requalificação da área da Lagoa em estudo, a visibilidade parcial do espelho d'água e o acesso descontínuo e limitado a ela dificultavam a sua inserção no imaginário do lugar, área com potencial paisagístico e ambiental permanecia descuidada e subutilizada pelos moradores do bairro. Outro aspecto que deve ser salientado é a ocupação irregular que se estendeu ao longo dos anos em direção ao espelho d'água e da vegetação marginal.
Conforme relatórios da execução do PLN, podemos perceber, claramente, a falta de infraestrutura urbana dessa área. Esgoto a "céu aberto", lixos acumulados, iluminação precária, segurança, educação, saúde, transporte e lazer, entre muitos outros problemas, são alguns dos exemplos dos serviços contemplados sem qualidade que se configuram para a comunidade do bairro. Essas constatações apontam na direção de que o direito à cidade não é assegurado para todos, assim não o são as políticas públicas.
O que temos observado e não faltam no Plano Diretor Urbano - PDU, instrumento obrigatório da cidade de Teresina, ao longo dos anos, são as diretrizes para execução de planejamento orçamentário participativo. No entanto, na maioria das vezes, os governantes urbanos parecem não acatar as medidas apontadas pela participação popular com ideias para a política urbana, deixando de lado os avanços tão almejados pela sociedade civil, conforme previsto na Constituição Federal de 1988.
A intensificação do crescimento urbano desordenado, no entorno de reservatórios de águas naturais e artificiais na região Norte de Teresina, propiciou a exploração de alguns, por meio da edificação de moradias irregulares, considerando-se que estas são áreas propícias à extração de materiais para construção civil, como, por exemplo, areia, massará dentre outros. Esse processo, que não respeita as legislações ambientais, provocou o aterramento de alguns desses reservatórios (Lagoas) nessa região para a edificação dos conjuntos habitacionais populares, tais como: Acarape, Vila Santo Afonso e Cíntia Portela, nas proximidades da área objeto de estudo, entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha, zona Norte da cidade de Teresina.
Com a implantação do PLN, constatamos nas leituras realizadas que a ocupação e o uso do solo nas proximidades das Lagoas desta região cresceram em ritmo acelerado, com ocupações, edificações mal projetadas e construídas nessas áreas fragilizadas, tendo em vista sua configuração de planície flúvio-lacustre com extensa área inundável, solos arenosos permeáveis e grandes corpos d’água rasos, que sofreram alterações ao longo dos anos, haja vista a construção de diques e de sistema de interligação das Lagoas.
A apropriação dos terrenos do entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha, considerada imprópria para habitação, por se tratar que boa parte da região constituía a planície de inundação dos rios Parnaíba e Poti, bastante plana e solo
aluvial argiloso (PMT, 2006), sujeito aos riscos naturais nos períodos de chuva. Porém, desconsiderando tais condições físico-naturais e as normas e regras do Poder Público, a ocupação foi efetivada contrariando, por um lado o Poder Público e satisfazendo, por outro, os novos moradores.
Muitas ocupações em Teresina foram marcadas pela falta de planejamento, mudando consideravelmente a paisagem da cidade. A ocupação e permanência até a atualidade do bairro Matadouro foi o resultado de uma busca em grupo por espaços vazios na cidade, por famílias desesperadas por moradias, conforme relato da senhora Teresinha “a única forma para quem não podia pagar aluguel, e vendo um grande espaço de terra sem ninguém foi me juntar com aquelas pessoas que viviam na mesma condição que a minha e partir para a invasão".
Segundo depoimento de moradores, aconteceram diversas reuniões entre as famílias mobilizadas antes de se concretizar a "invasão", à noite do dia 22 de julho de 1989. Após essa data, a apropriação dos terrenos estava realizada e, em meio às notícias dos meios de comunicação, havia "um enorme acampamento onde os invasores permaneceram por mais de vinte e cinco dias, sob intensa pressão do Poder Público Municipal", que fracassou em todas as tentativas de desarticular a apropriação e rever a área.
Ressaltamos ainda no depoimento de Teresinha a felicidade dos invasores ao anunciar a grande resistência, por parte dos moradores, cuja maioria portava arma branca (facão). Acrescentou também que muita gente foi presa e quem ajudou nesse tempo foi a "Trindade, o Sena Brasil e o Dr. Ursulino, aí foi em setembro que o prefeito Wall Ferraz recebeu os invasores, eu ainda não morava aqui, muita gente fez logo a "chupaninha" de palha e veio para debaixo". A referida senhora resume a conquista dos moradores de forma simples: "nós vencemos pelo cansaço".
Após um período de cerca de cinquenta dias residindo em acampamento, as famílias inciaram a abertura dos lotes na área adjacente ao bairro Matadouro e em direção a Lagoa Piçarreira do Cabrinha e imediatamente foram surgindo as primeiras construções. A essa altura, com os meios de comunicação locais, classificando essa apropriação como uma das maiores "invasões" já ocorridas no espaço urbano da zona norte de Teresina, o fato se tornou notícia também na imprensa do Estado e o preconceito contra os novos moradores se generalizou. A imagem passada pelo Poder Público Municipal e pelos meios de comunicação de uma "invasão" violenta e comandada por pessoas perigosas, deixou os moradores
de bairros vizinhos assustados, que passaram a temer pela segurança de suas próprias moradias.
O que caracteriza o espaço público é a posse mediatizada por parte do cidadão, ou seja, é no espaço público que o cidadão estabelece relação de convívio com outras pessoas. O equilíbrio necessário ao bom funcionamento desses espaços é facilmente quebrado por fenômenos diversos: falta de manutenção dos espaços, violência urbana, má administração, leis inadequadas, desigualdade social, má educação coletiva, etc, isto pode implicar o seu abandono e degradação.
É perceptível nesses locais a falta de tratamento dos espaços públicos, onde o desenho urbano não prioriza questões ambientais, como os aspectos do microclima. Isso tudo acaba acarretando a descaracterização do ambiente local, contribuindo para uma redução da qualidade de vida e uma melhor perspectiva de boas condições para as gerações futuras.
Na época, um coronel, proprietário do terreno, que tinha como responsável pelo local o professor Moacir, reivindicou o direito de reintegração de posse da área, mas não teve êxito, confirmando o pensamento de Corrêa (2005) de que o espaço urbano é produzido também, por grupos sociais excluídos, e reproduzidos de acordo com as condições de diferentes necessidades. A partir de então, a PMT comprou a área particular e distribuiu os lotes para os invasores.
Conforme Carlos (1994, p.15) "o espaço não (re) produz sem conflitos e sem contradições [...]. É na vida cotidiana, como um todo, que essas contradições se manifestam; [...] nas diferenciações entre os modos de morar [...], o acesso à infra- estrutura, ao lazer". De modo que, favelas e loteamentos clandestinos da área de estudo só conseguiram se estruturar adequadamente, quando houve muita mobilização com pressão por parte dos grupos sociais que excluídos dos serviços de educação, saúde, moradia e segurança de qualidade, se apropriaram dos terrenos ilegais.
De maneira geral, moradores que ocupam terrenos ilegais enfrentam problemas de documentação, não podendo legalizar seus lotes. Como os padrões urbanísticos exigidos pelo Poder Público Municipal são considerados elevados, o que acontece, geralmente, nas ocupações e construção de casas com modelo próprio, sem considerar as problemáticas sociais, ambientais e culturais, a exemplo do próprio bairro Matadouro que foi localizado no entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha e caracterizado pelo PDU como área de risco.
As figuras 7 e 8 disponibilizadas pela Secretaria Municipal de Planejamento e Coordenação - SEMPLAN, mostram algumas residências construídas no entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha, após ter passado pelo processo de aterramento. A localização da área visualiza a vulnerabilidade das casas construídas no mesmo nível da Lagoa, sujeitas, portanto, às consequências dos períodos de chuvas, tais como, alagamento, deslizamento, surtos de doenças e da proliferação de insetos.
Figuras 7 e 8: Residências construídas no entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha antes do projeto de requalificação da área.
Fonte: SEMPLAN, 2005
Vale ressaltar que hoje as residências localizadas distantes da Lagoa correspondem à maior área do bairro e, por estarem em nível altimétrico mais elevado, estão insentas de tais alagamentos, como evidenciam as figuras 9 e 10 a seguir. Mas de maneira geral, a ocupação e a posterior construção sem planejamento do bairro Matadouro influenciaram as condições naturais da Lagoa. A
quantidade enorme de resíduos, líquidos e sólidos, gerados pelos moradores em suas residências modificou significativamente o sistema hídrico local.
Figuras 9 e 10: Residências localizadas em nível altimétrico mais elevado da Lagoa e retirada do lixo gerado por essas residências.
Fonte: SEMPLAN, 2005
Com a Constituição Federal de 1988, o planejamento da cidade tornou-se uma função constitucional pelo Poder Público Municipal. A partir de então, é função do gestor do município a execução de programas de requalificação nas cidades brasileiras, considerar a descentralização, a democracia e a participação popular. Hoje, verificamos ainda, que os programas de requalificação continuam sendo implantados, em sua grande maioria, de "cima para baixo", sem levar em conta esses três aspectos. Salientando que, o reconhecimento público de que o déficit de habitação com a população carente é um dos principais fatores da ocupação nas áreas de risco, o Município tem procurado elaborar e implantar programas de requalificação em diversos espaços públicos para resolver o problema.
Em Teresina, o déficit de habitação, de espaços públicos de lazer e as respectivas segregações socioespaciais são facilmente percebidos nos seus entornos, onde se constatam várias formas de "ocupação" em áreas degradadas
e/ou consideradas de risco. No bairro Matadouro, especificamente, essa segregação está explicitada nas construções e/ou subconstruções, na ausência dos equipamentos públicos, e na vulnerabilidade do conjunto do espaço urbano.
Diante da necessidade de se aplicar políticas públicas para a recuperação das Lagoas da zona norte da cidade, a PMT elaborou e executou o Programa Lagoas do Norte em Teresina, Piauí, com o objetivo de melhorar a qualidade socioambiental da população. O planejamento e a coordenação das ações do programa, sob a responsabilidade da SEMPLAN, têm propiciado executá-las em etapas, de forma integrada às obras de dragagem das Lagoas, drenagem de áreas de águas pluviais, esgotamento sanitário, abastecimento de água potável, proteção contra enchentes, adequação do sistema viário, urbanismo, paisagismo, recreação e lazer e reassentamento de famílias. A SEMPLAN tornou o programa de conhecimento público, pelos meios de comunicação, e convocou a população da Área 1, da qual faz parte a Lagoa Piçarreira do Cabrinha, para reuniões, não para discutir, mas para explicitar os objetivos do programa.
No programa de requalificação do bairro Matadouro, apresentados pelos técnicos da UPS, pelos técnicos da SEMPLAM e da PMT, na Lagoa em estudo e suas margens, dentre outras obras, já mencionadas, destacamos a construção de um canal, limitado ao Norte; pela Rua Mineral; a Leste, por rua sem denominação; ao Sul, pela Rua São Félix e a Oeste pela Avenida Boa Esperança, ocupando uma área total de 75.923,50 m². Junto à Avenida Boa Esperança ficará localizado um dos portais de acesso ao Parque das Lagoas. Além disso, também foi apresentado o Programa Arquitetônico da Lagoa, o qual incluiu a construção de pistas para ciclismo e para pedestres, quadras poliesportivas, parques de diversão, dentre outros espaços destinados ao lúdico e ao lazer.
Vale ressaltar que os técnicos contratados fizeram um levantamento das residências a ser removidas e o cadastramento das famílias num total de 337, para as novas residências construídas e entregues, entre janeiro e fevereiro de 2010, no residencial Zilda Arns, localizado no bairro Nova Brasília, também na zona norte da cidade, a cerca de um quilômetro de distância da Lagoa.
Cumprida essa etapa, iniciou-se a pavimentação asfáltica em todo o circuito da Lagoa para a circulação de veículos, ciclistas e pedestres. Paralelamente, iniciou- se no bairro próximo a obra da construção de um canal de drenagem para escoamento dos fluxos d'água que fluem do Acarape para a Lagoa. Desse modo, a
Lagoa que é considerada apenas como um reservatório de decantação de efluentes passou a surpreender e a atrair um considerável fluxo de pessoas para o lazer típico do início e do fim do dia e dos finais de semana, conforme as figuras 11 e 12.
Figuras 11 e 12: Pessoas utilizando o entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha após a requalificação da área
Fonte: Cidadeverde.com/ 2014
Dentre essas infraestruturas voltadas para o lazer, foram sendo implementadas novas construções, tais como parque infantil, quiosques (Figuras 13 e 14), quadras poliesportivas, entre outras. Reconhecemos que o espaço além do político é produto da história dotado de um conteúdo social. Assim, a escolha do entorno da Lagoa Piçarreira do Cabrinha para a execução de um programa de requalificação, numa área que vizualiza seu conteúdo histórico, de acordo com sua forma de ocupação, ocorreu também por fatores políticos. Portanto, a requalificação de áreas degradadas e o ordenamento de áreas públicas têm conteúdo político e estratégico, com base nos argumentos de Lefebvre (2008).
Fonte: SEMPLAN, 2005.
Segundo informações disponibilizadas pela SEPLAN da PMT, o Programa Lagoas do Norte, como proposição do poder público municipal, para minimizar o processo de degradação em que se encontram as áreas das Lagoas na zona norte de Teresina, no seu termo de referência, contempla as ações, a seguir, a ser desenvolvidas e em desenvolvimento: drenagem e saneamento da área e educação/preservação ambiental, estudos topográficos, caracterizações hidráulicas, sanitárias e indicadores sociais.
Prevendo essas ações de melhoria da infraestrutura física, de desenvolvimento social, da economia local, da preservação e da valorização do meio ambiente da região, o Programa previu a aplicação de mais de cem milhões de reais, com recursos oriundos de acordo de empréstimo entre a PMT e o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento - BIRD, o Banco Mundial, e por meio do convênio com o Governo Federal (SEMPLAN, 2005).
Inserida na atual concepção do poder público municipal e da comunidade, para manter e preservar esses recursos hídricos, a Lagoa Piçarreira do Cabrinha é tomada como referência nesta pesquisa, pois sua condição de patrimônio natural e cultural do município de Teresina, em processo de implementação de ações do Programa Lagoas do Norte, por mais de dois anos, faz com que o estudo de seus impactos ambientais possa tornar-se uma alternativa viável às políticas públicas de preservação e conservação desses patrimônios, por meio da compreensão, da percepção dos moradores resultante de sua experiência no seu entorno, como diagnóstico, pautada nas vertentes espaço geográfico e impactos ambientais.
2.5.2 Os investimentos em infraestrutura urbana no bairro Matadouro no entorno da