4.1. Uma senhora que conduz o poeta à dança e à musica
4.1.1. A descriptio puellae: forma e caráter da mulher medieval
Observe-se, agora, como se constrói a dualidade dessa “senhora” que é “d’honores amiga”, mas, concomitantemente, “d’amores immiga”. Aqui o poeta usa o recurso da annominatio: dentro de immiga está amiga; esta figura, a par de mostrar a identidade no nível do significante, permite a formação da antítese: a paronomásia aqui tem o intuito de mostrar a ambigüidade de sua dama. Essa dama tão cheia de atributos virtuosos não o ama, pois é “d’amores immiga”. Todos os adjetivos com que o “eu- lírico” recheia seu poema, à exceção de “immiga”, são atributos positivos de sua dama. Referem-se à sua beleza, candura e bondade; contudo, o único a trazer o mal ao amante é aquele de sentido negativo – “immiga” –, aquele que faz com que sua dama não o ame, assim como ele a serve. Se seu objeto de amor é perfeito, ao mesmo tempo é cruel, pois não corresponde ao sentimento do servidor.
Juntamente com os atributos morais e de atitude, os poetas medievais costumavam exaltar a beleza física de sua dama, atribuindo ao seu corpo a imagem da compleição perfeita. Ao longo da História, as proporções do corpo humano foram estudadas por filósofos, artistas, teóricos e arquitetos. O arquiteto romano Marco Vitrúvio Pollio (séc. I a.C.), por exemplo, em De architectura, comparava a perfeição de um edifício à perfeição humana. Se os edifícios são construídos para pessoas, deverão, dessa forma, ser reproduções daqueles que aí habitarão e vice-versa. Para o
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“Um dos traços fundamentais da imaginação lírica é a tendência para o exagero. A poesia precisa ser exorbitante.” (HUIZINGA, op. cit., 1993, p. 158).
homem da Idade Média e o da Renascença, “os laços entre a aparência percebida como uma construção e o sentimento do belo (forma-formosus) foram um dos temas recorrentes da reflexão escolástica sobre a criação, e, depois, da especulação sobre os números dos geômetras e dos artistas da Renascença”177. Para Fernão da Silveira, a dama do final do medievo é retrato dessa formosura plena. O poeta faz, neste poemeto, uma analogia entre o templo e a beleza de sua amante – principalmente seus atributos interiores. A imagem que dela constrói, usando todos os expedientes do léxico próprio do amor cortês, é aquela da transformação pela qual passava toda a Europa: harmonizar a cultura clássica junto ao novo. O que vale observar nessa sua composição, quanto a essa analogia, é que o Coudel-mor procurou transformar o modo como reproduziu o ideário da época, qual seja, através do labirinto.
Johan Huizinga afirma que, na Idade Média, os contemporâneos admiravam mais os poetas do que os pintores, mesmo que aqueles, no parecer hodierno, fossem superficiais, monótonos e enfadonhos, por repetirem ad nauseam os mesmos temas e imagens. Explica que isso se dava porque as palavras e as imagens têm uma função estética diferente da pintura.
O contemporâneo vibrará com as palavras do poeta porque o pensamento que ele exprime faz parte integrante da sua vida e parecer-lhe-á tanto mais interessante quanto mais brilhante for a forma. (...) Mas se esse pensamento estiver já gasto e não corresponder às preocupações da alma, nenhum valor se lhe atribuirá excepto o da forma. E essa tem, indubitavelmente, extrema importância178.
É na forma, portanto, que os poetas palacianos, nas palavras do próprio estudioso alemão, encontrarão um meio de exaltação do belo179. E é com esse artifício formal, ao exprimir uma simples imagem ou cena, ou ainda um sentimento ingênuo, que eles revelarão seu vigor. É nos pequenos poemas que a beleza se mostrará, a exemplo dos rondós e baladas, pois “a graça depende da sonoridade, do ritmo e da imagem; com
177
BRAUNSTEIN, Philippe. Abordagens da intimidade nos séculos XIV-XV. In: História da Vida
Privada. Da Europa feudal à Renascença. São Paulo: Companhia das Letras, 1990. Vol. 2, p. 550-551.
Para uma relação entre a Escolástica e o estilo gótico, consulte-se PANOFSKY, Erwin. Architecture
Gothique et Pensée Escolastique. [Paris]: Les éditions de Minuit, [1967].
178
HUIZINGA, op. cit., [1985], p. 284-285. 179
efeito, quanto mais a canção artística da época se aproximava da canção popular maior encanto revelava”180. Essas afirmações de Huizinga cabem bem no labirinto do Coudel- mor. No pequeno poema que compôs, além da sonoridade e do ritmo, constrói o “eu- lírico” a imagem de sua dama idealizada.
Ainda com relação à beleza, Pierre Le Gentil pontua que “au Portugal, on insistait moins sur les qualités physiques que sur les qualités morales; le plus souvent, un seul mot suffisait à la description; on se contentait de dire que la dame était fremosa ou de bom parecer. Au XIVe. et au XVe.siècles (...) on tente de trouver mieux et l’on emploie un certain nombre de comparaisons181.” Assim, além da forma poética para expressar o belo – uma das características da produção literária do final do Quatrocentos –, os poetas portugueses primam pela descrição das virtudes da dama e pelas comparações, como se vê nesse labirinto do Coudel-mor. Quanto a isso, Maria Isabel Morán Cabanas182 registra: “o corpo fala e informa largamente das problemáticas do indivíduo face ao colectivo: ele torna-se um modo de apreensão do mundo, tanto através da valorização da beleza como da rejeição da fealdade e dos propósitos de maceração”. Contudo, para a estudiosa, mesmo que a “Senhora, graciosa, discreta, eicelente” venha ornamentada de virtudes, como indica a exagerada adjetivação, no plano formal “estes exercícios de agudeza apresentam um uso muito reduzido nos poemas do Cancioneiro português e, quando se registam, carecem em geral de qualquer dose de originalidade, seguindo a linha da tradição peninsular183”. Há de se assinalar, entretanto, que esses mesmos exercícios, e por seguirem a tradição, (re)floresceram com intensidade no Barroco e, séculos depois, na arte concretista e experimentalista, conforme
180
Idem, ibidem, p. 305. 181
LE GENTIL, Pierre. La poésie lyrique espagnole et portugaise à la fin du Moyen âge: les thèmes, les genres et les formes. Vol. I. Rennes: Plihon, 1949, p. 105.
182
MORÁN CABANAS, op. cit., 2001b, p. 269. 183
depoimentos de críticos e estudiosos184.
Nesses comentários, o que se quis registrar é como um tema tão antigo – a beleza da mulher servida – pôde ser relido e reconstruído através de uma forma que permitisse uma nova visão do tradicional. Essa beleza e as qualidades da dama amada puderam ser exploradas de forma distinta no labirinto do Coudel-mor. Mas esse pequeno poema permite, ainda, algumas outras considerações, nomeadamente quanto ao modo de produção desse labirinto. Isso pode-se notar nos opostos “artificialidade” versus “naturalidade” na criação poética, o que proponho fazer em seguida.
4.1.2. A artificialidade na “poesia natural” de Fernão da Silveira. Olhar. Cantar.