Além dos projetos em andamento, dos atlas linguísticos já concluídos e divulgados, dos inúmeros artigos e capítulos de livros publicados, no cenário nacional há, pelo menos, oito obras de referência que tratam especificamente da Geolinguística brasileira: Brandão (1991), Ferreira e Cardoso (1994), Aguilera (1998; 2005), Isquerdo (2008), Cardoso (2010), Aguilera e Romano (2016) e Razky, Oliveira e Lima (2017). Essas obras reúnem as principais pesquisas e, sobretudo, Cardoso (2010) constitui-se como um manual de pesquisa geolinguística, pois orienta os estudiosos no que concerne aos aspectos teóricos e metodológicos para a elaboração dos atlas linguísticos, seguindo as tendências atuais.
Há ainda o Projeto ALiB, em franco desenvolvimento, cujos dois primeiros volumes foram publicados em 2014 (CARDOSO et al., 2014a; CARDOSO et al., 2014b) e que caminha para a publicação dos volumes subsequentes. O ALiB possui um sem-número de publicações: livros, capítulos de livros, artigos e trabalhos monográficos. Os estudos feitos a partir do corpus do ALiB têm colaborado para a descrição e análise do português do Brasil de uma forma mais ampla em diferentes níveis de abordagem, a partir de uma recolha atualizada de dados em 250 municípios junto a 1100 informantes em todo o país12.
Ainda como desdobramento da Geolinguística brasileira, tem-se observado a formação de alguns centros de pesquisas em diferentes universidades, sobretudo naquelas a que pertencem os diretores científicos do Projeto ALiB, como se observa nos quadros 1 e 2. Essas universidades têm sido foco de irradiação e incentivo para o desenvolvimento de atlas de pequeno domínio.
Partiu dos pesquisadores brasileiros a iniciativa de organizar dois importantes congressos na área. O primeiro deles, um internacional, o CIDS – Congresso Internacional de Dialetologia e Sociolinguística, realizado bianualmente desde 2010 em diferentes países com o objetivo de congregar pesquisadores do Brasil e do exterior. A última edição do
12 Sobre a extensa produção do Projeto ALiB, confira Paim (2017) e o site: https:// alib.ufba.br.
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C ONTRIBUIÇ ÕES DE ES TUDOS GE OLINGUÍS TIC OS P ARA O POR TUGUÊS BRASILEIRO: UMA HOMENA GEM A SUZANA C ARDOSOCIDS ocorreu na Universidade Federal da Bahia (UFBA) – Salvador, em 2018 e a próxima está prevista para ocorrer na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, em Campo Grande, em 2021. Outro importante congresso é o SERGEL – Seminário de Geossociolinguística, que ocorre na Universidade Federal do Pará (UFPA), também bianualmente, e já se encontra na sua oitava edição. Inicialmente, o SERGEL surgiu como um seminário regional, mas que repercutiu nos últimos anos congregando pesquisadores de diferentes regiões com vistas a discutir os trabalhos específicos da geolinguística, modernamente denominada como Geossociolinguística (RAZKY, 1998), ou sociodialetologia (GUY, 2012), ou ainda, a nomenclatura mais difundida entre os estudiosos brasileiros, Dialetologia Pluridimensional e Relacional (THUN, 2000; 2005).
Quanto aos desafios, muito se tem avançado nos estudos geolinguísticos desde os seus primórdios no país, mas ainda há regiões que carecem de trabalhos de pequeno domínio, como os estados da Bahia e do Rio Grande do Sul, por exemplo, conforme se observa no rol de trabalhos apresentados nos quadros 1 e 2.
Outro aspecto a salientar dentre os desafios para os geolinguistas, além de ter que expandir com trabalhos de pequeno domínio em outros estados ainda não contemplados, é a questão do ensino de língua materna. Considerando o conjunto do material já documentado nos atlas, necessários se fazem investimentos para que eles cheguem de alguma forma aos materiais didáticos de língua portuguesa. Tais necessidades e reflexões já foram apontadas por Vieira (1999) Cardoso (2006), Razky, Lima e Oliveira (2006), Cardoso (2008), Paim (2016), entre outros, mas ainda há muito a ser feito nesse sentido, pois, talvez, quase nada exista em termos práticos nos níveis de mestrado e doutorado.
O espaço da variação linguística em sala de aula tem sido galgado pelos sociolinguistas e tem ganhado espaço entre os documentos oficiais que regulamentam a educação há mais de vinte anos, nos PCN (BRASIL, 1998), por exemplo. A chamada Sociolinguística Educacional, inaugurada por Bortoni-Ricardo (2004) e prosseguida por outros estudiosos – como, por exemplo, Martins, Vieira e Tavares (2014), Zilles e Faraco (2015), para citar apenas duas das muitas obras de referência recentes –, tem levantado questões importantes sobre a variação e o ensino de língua bem como sobre o modo como ela perpassa os materiais didáticos, Bagno (2007; 2013).
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DESDOBRAMENT OS , DESAFIOS E P ERSP E C TI V AS D A GE OLINGUÍS TIC A P LURIDIMENSIONAL NO BRASILNo que tange ao trabalho dos geolinguistas, há muito ainda a ser percorrido para que um dos objetivos apresentados por Cardoso (1999) se concretize, pois os atlas linguísticos, em especial o ALiB, devem:
Oferecer aos estudiosos da língua portuguesa (linguistas, lexicólogos, etimólogos, filólogos etc.), aos pesquisadores de áreas afins (história, antropologia, sociologia etc.) e aos pedagogos (gramáticos, autores de livros-texto para o 1º e 2º graus, professores) subsídios para o aprimoramento do ensino/aprendizagem e para uma melhor interpretação do caráter multidialetal do Brasil. (CARDOSO, 1999, p. 250)
Os atlas linguísticos apresentam um conjunto de dados que extrapolam o puramente linguístico e evidenciam aspectos de ordem sócio-histórica interessantes para o conhecimento do aluno-cidadão. É necessário, segundo Cardoso (2008), “mostrar que somos diversificados no uso da língua, que os direitos linguísticos do cidadão devem ser respeitados, que a escola não pode ignorar as diferenças, mas também que, por sobre tudo, somos usuários da língua portuguesa” (CARDOSO, 2008, p. 28).
A interface e a interdisciplinaridade, portanto, são o ponto de partida para a explicação sobre o modo como os indivíduos falam e compreendem a realidade que os circunda. Assim, se o conhecimento da realidade linguística comprovada empiricamente pelos atlas chegasse à escola, dois objetivos poderiam guiar o ensino, segundo Cardoso (2006): (i) um instrumento para reconhecer, identificar e definir a realidade de cada região e, consequentemente, permitir levantar a base linguística do estudante que vai à escola; e (ii) um meio de se estabelecerem as relações entre as diversas modalidades de uso da língua.
O desafio maior e talvez uma das perspectivas a serem seguidas pelos estudiosos brasileiros é transformar o grande volume de dados já documentados pelos atlas (o nacional, os estaduais e os de pequeno domínio) em materiais acessíveis ao público geral e, em especial, aos professores de língua, com as devidas adaptações das cartas linguísticas, para que a noção de variação diatópica saia do senso comum e o falante- estudante reconheça a legitimidade de sua norma regional e social.
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C ONTRIBUIÇ ÕES DE ES TUDOS GE OLINGUÍS TIC OS P ARA O POR TUGUÊS BRASILEIRO: UMA HOMENA GEM A SUZANA C ARDOSO CONSIDERAÇÕES FINAISEmbora a Geolinguística brasileira tenha nascido sob a perspectiva monodimensional nas décadas de 1960 e 1970 com os dois primeiros atlas inaugurais, o Atlas prévio dos falares baianos (ROSSI, 1963) e o
Esboço de um atlas linguístico de Minas Gerais (RIBEIRO et al., 1977),
observa-se que os trabalhos seguintes começaram a despontar com interesse em documentar, sistematicamente, na coleta e na cartografia dos dados outras dimensões da variação linguística, além da diatópica, conforme se observa na historiografia já traçada por Mota e Cardoso (2006) e por Romano (2013). A Geolinguística no Brasil, então, se desenvolveu e se desenvolve sob uma perspectiva pluridimensional, contatual e relacional (THUN, 2000).
Essa preocupação com variáveis de ordem social na elaboração dos trabalhos geolinguísticos acentuou-se ainda mais a partir de 1996, com o início das atividades do Projeto Atlas Linguístico do Brasil. Não apenas pela sua importância em documentar e descrever a realidade brasileira da língua portuguesa em diferentes níveis de análise, o Projeto ALiB tem contribuído para o desenvolvimento da Geolinguística no território nacional por meio da formação de recursos humanos em pesquisas na área e pelo incentivo direto dos integrantes do Comitê Nacional à elaboração de trabalhos que recobrem diferentes regiões.
Este texto apresentou um balanço desses trabalhos, que se convencionou denominar como atlas de pequeno domínio, e os seus desdobramentos que recobrem diferentes regiões. Para isso, observou- se um refinamento da metodologia geolinguística na coleta, no armazenamento e na cartografia dos dados. Contudo o desenvolvimento de trabalhos pluridimensionais apresenta-se aos estudiosos como um desafio, principalmente devido ao grande volume de dados levantados, o que suscita discussões sobre a coleta, a organização e a cartografia do material linguístico de forma racional e coerente com os objetivos de cada atlas.
As perspectivas da Geolinguística brasileira, que ao mesmo tempo são um grande desafio para os geolinguistas, consistem, além da necessidade de recobrir com trabalhos de pequeno domínio áreas ainda
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DESDOBRAMENT OS , DESAFIOS E P ERSP E C TI V AS D A GE OLINGUÍS TIC A P LURIDIMENSIONAL NO BRASILnão alcançadas, em dar passos mais concretos para uma dialetologia/ geolinguística articulada ao ensino de língua materna. Os atlas linguísticos já produzidos e disponíveis nas plataformas dos programas de pós-graduação são fontes seguras para a elaboração de materiais didáticos acerca da variação linguística empiricamente comprovada.
Transpor todo esse conhecimento acadêmico coletado com o rigor de uma metodologia refinada ao longo dos anos para os materiais didáticos é uma necessidade premente. Seria uma forma de trazer ao grande público, em especial aos estudantes e aos professores, o conhecimento real da língua portuguesa, considerando particularidades que identificam os diferentes grupos/áreas em seus aspectos que extrapolam o puramente linguístico, mas ganham dimensões sócio- histórico-culturais pela pronúncia, pelo léxico e pela estrutura morfossintática documentadas nas cartas linguísticas.
Não estaria na hora de a Geolinguística brasileira avançar no sentido da construção de uma Dialetologia Educacional? Esse questionamento-provocativo só será respondido ao longo dos anos e para isso necessitar-se-ia de um programa que envolvesse não apenas a formação de geolinguistas em nível de pós-graduação mas também pontos que passam, inclusive, pela formação do futuro professor de língua portuguesa e dos currículos dos cursos de Letras do país.
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