CAPÍTULO III O CORPO HÍBRIDO: EM CHOQUE / EM XEQUE
3.1 Matthew Barney
3.1.1 Desdobramentos do corpo no trabalho de Matthew Barney
Em decorrência da amplitude do seu trabalho, entendemos o corpo em Barney como um corpo imaginado, pois, em sua prática, a idealização e a qualificação de um corpo vislumbrado o acompanham e conferem traços recorrentes à sua obra. Sabemos que essa não se faz uma prática exclusiva ou inovadora do artista, pois que existe em vários outros artistas, como Carolee Schneemann, que é conhecida por seus discursos sobre o corpo, a sexualidade e o gênero, com um trabalho fortemente pautado na investigação sobre as tradições visuais, os tabus e o corpo do indivíduo, em relação aos órgãos sociais; o Grupo Gutai, em 1950, também conhecido como Gutai Bijutsu Kyokai, que praticou a primeira manifestação artística radical no Japão no pós- guerra e ainda mantém relações estreitas com a obra de Bruce Naumam e Vito Acconci, entre outros artistas. Todavia podemos dizer que Barney, assim como esses artistas que já teorizaram ou praticaram ações, manifestações sobre o corpo em qualidades além do seu limite, demonstra, desde Drawing Restraint (Limitação ao Desenho), ao infligir ao corpo condições adversas para a criação da obra, institui e desencadeia um processo criativo no artista que o move para um discurso inovador em relação às praticas convencionais dos artistas.
A obra de Barney, além de refletir sobre assuntos contemporâneos e emergenciais, como o homem orgânico e pós-orgânico, como greenman da obra De Lama Lâmina, as fadas musculosas, os transexuais, os sátiros, as questões ambientais, entre outras situações e personagens pautados também na obra Cremaster, visa apresentar ao espectador outras formas de manifestação corporal e artística. Em Barney, existe um diálogo de retroalimentação entre forma e conteúdo, entre teoria e prática, em busca de novos sentidos e caminhos para a arte e para o corpo na contemporaneidade, pois, Barney, por meio dessas apropriações discutidas, viabiliza, ao corpo, novas modalidades e possibilidades de se reinventar outro. E essa(s) possibilidade(s) interfere(m) em sua imagem, práticas e comportamentos, que se fazem avessos a esses corpos cultuados e exercidos cotidianamente. A ideia da narrativa atrofiada é de uma narrativa muda, esvaziada de sentido, que não promove o que aqui nos remete a Barney, que é um discurso de resistência sobre
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o discurso atrofiado – de um corpo e comportamento, clichê reiterado muitas vezes pela mídia, traçado pela cultura contemporânea de um corpo e conduta delimitada ao padrão dominante de representação, imprimindo, muitas vezes na arte, valores e (res)significações em inscrições corporais.
Essa referida tríade – pensamento, técnica e linguagem – nos auxilia a refletir e fazer arte, hoje, frente a novas situações comunicativas.156 Nesse contexto, o ato de produzir ações, intervenções, performances pelo artista deve ser pensado e atrelado a processos criativos que, por sua vez, estão relacionados, de forma significativa, às complexidades tecnológicas inerentes também ao desenvolvimento dos meios eletrônicos; prática esta que é bastante recorrente na obra de Matthew Barney. Isso não significa que devemos esquecer as manifestações produzidas em suportes tradicionais, mas que devemos, também, pensar em novas poéticas criativas.
A expressão ―processo criativo‖ engloba dois aspectos que merecem ser explicitados: criatividade e criação. A criatividade, segundo Plaza e Tavares, é uma faculdade da inteligência, ―uma aptidão que possibilita ao que inventa organizar um campo de percepção projetando sensações em um plano de referência, modificado e combinado segundo a cultura que é inerente ao criador‖.157
Se a criatividade constitui-se como um potencial fundado em atividades cognitivas
de um sujeito criador, a criação configura-se como a passagem daquilo que é potência para uma ação concreta, provida de originalidade. O corpo imaginado de Barney abre-se para essa relação entre a criatividade e a criação, que se configura nos universos paralelos de seus filmes e nos seus personagens híbridos.
Quando Olga Gambari afirma que, em Barney, ―o corpo humano é a escultura perfeita‖, podemos refletir sobre algumas questões referentes ao seu trabalho corporal: para Barney, o corpo humano se coloca tanto como sistema reprodutor, quanto como um instrumento esculturável.
Com base nos filmes e nas performances de Barney, percebemos um corpo, reiterando, aqui, o corpo imaginado, que rompe, sucessivamente, com o padrão dominante de representação de corpo, tanto feminino, como masculino, calcado e reiterado no contexto contemporâneo pela mídia e também via discursos da estética e da saúde. Barney (trans)(des)figura o corpo em sucessivas inscrições cirúrgicas, estéticas, mitológicas... Na obra de Barney, entrevemos o corpo
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PLAZA, J.; TAVARES, M. Processo criativo com os meios eletrônicos: poéticas digitais. São Paulo: Hucitec, 1997.
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em reconstrução e escultura constante, que é infinita, de modo similar ao que ocorre no trabalho da artista performática Orlan:
A artista Orlan insiste nesta possibilidade quase demiúrgica em suas cirurgias: reconstruir o próprio corpo transformando-o em território de espetaculares explorações e inusitadas metamorfoses; testá-lo, colocá-lo à prova, expô-lo de diversas maneiras diante das câmeras e dos próprios olhos.158
Os personagens do ―fabuloso‖ mundo de Barney fazem uma rigorosa crítica aos corpos belos e esculturais que regem o mundo hodierno, pois sabemos o quanto o corpo se encontra confinado por discursos hegemônicos, distribuídos, em geral, pelos meios de comunicação de massa, que oferecem, aos sujeitos, um leque de recursos simbólicos, entre os quais um ―modelo‖ corporal, que interfere de forma processual na constituição identitária desses sujeitos.159 O corpo pensado, hoje, como construção social, é amplamente constituído pelas representações que provêm dos meios de comunicação de massa. Assim, o corpo, parte integrante dos nossos processos de subjetivação (já que faz a mediação da nossa relação com o mundo), também tem sido construído de forma padronizada e homogeneizada pelos agenciamentos da mídia. Ou seja: a representação do corpo promove uma interface direta com os processos de subjetivação. Os processos midiáticos contemporâneos, ao produzirem uma subjetividade descrita por Guattari como ―capitalística‖,160
nos oferecem um padrão dominante do que seria o corpo.
Como já salientado por outros teóricos, críticos e historiadores, essa multiplicidade artística do artista – vídeo, fotografia, filme, escultura, performance – dificulta um pouco alocar o seu trabalho em categorias ou, até mesmo, qualificá-lo. Barney, a partir das experiências calcadas na sua trajetória biográfica e nas referências artísticas precedentes da arte e de artistas afins, conforme analisado, imprime, em seu trabalho, diálogos entre a cultura maçônica, religiões, como o candomblé e o protestantismo, e ainda questões sobre a mitologia grega entre outros assuntos, todos tangenciando questões acerca do corpo. Acreditamos que essa ―mitologia para o novo
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Ibid., p. 65.
159 Os meios de comunicação de massa constroem um discurso sobre o corpo, que deve ser jovem, ideal, belo, saudável, e produzem uma espécie de ―padrão dominante de representação corporal‖, que passa a ser almejado e seguido.
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Rolnik e Guattari (1998), acrescentam o sufixo ―ístico‖ a ―capitalista‖, como forma de não priorizar somente o primeiro mundo, mas, também, o capitalismo periférico, e salientar que a produção de subjetividade atua de forma analógica nessas sociedades.
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milênio‖ caracteriza a ruptura que Barney estabelece com os padrões dominantes de representação. Ele atravessa as barreiras da ditadura do corpo e promove um debate outro em intervenções nem sempre amenas ao olhar do espectador: ―por vezes, as intervenções no corpo não evocam a sua ruína. E noutras, o radicalismo das metamorfoses repete um antigo medo: a impossibilidade de tornar o corpo, cognoscível, legível, eloquente sobre si mesmo, humanizado.‖161
Entendemos que a obra de Barney pretende ―invalidar‖ qualquer analogia com esse corpo presente (padrão dominante) e estabelecer outro novo discurso ao corpo. Um corpo imaginado, idealizado, criado aos moldes de uma nova inscrição corporal; inscrição esta que só se faz possível por meio do exercício incessante, do (sobre-) esforço imposto e da disciplina para executar a ação.