Empurrados constante e indefinidamente para longe dos serviços de primeira necessidade: saúde, educação, transporte e saneamento básico, os pobres, criaram alternativas diversas de convivência para os seus territórios. Assim, na ausência ou mesmo escassez de parques, praças e clubes para diversão, eles, inspiradamente recorrem às tradições de seus antepassados e resgatam a idéia sociabilizadora dos “terreiros de samba”, “casas de bailes” e, numa perspectiva de renovação e ampliação
desses princípios integradores, organizam “galpões” e “barracões”57 para compartilhar as experiências comuns das comunidades periféricas.
Na ausência e com as elevadas dificuldades de acesso ao entretenimento oferecido pela cultura de massa58, cinema e TV a cabo principalmente, eles adotam a tática subversiva de burlar o “sistema” e criam mecanismos paralelos de participação. Um exemplo notório é o que eles convencionaram chamar de “TV a gato” 59 .
Para além de ameaçadoras da ordem, a lógica dessas estratégias aparece sempre como necessária e justificável para os moradores da periferia.
Esses espaços de integração são necessários e têm muita importância para os jovens das quebradas. Aqui tem pouca oportunidade de cultura, de lazer, ou de desenvolvimento do conhecimento para os moradores. Onde tá o teatro? Onde tá o cinema? Biblioteca ... não existe; - percebe como é um abandono geral? O importante é que do nada a gente faz tudo e, o pouco que tem, a gente divide. A vida dos pobres sempre foi assim, tristeza, sofrimento e abandono. Demorou, mas hoje estamos unidos e empenhados em fazer cultura e com ela transformar nossa realidade. Nossa união é nossa força”! (Herculano, depoimento colhido em dezembro de 2006).
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Ver na relação de anexos fotos ilustrativas do galpão, onde todas as quartas-feiras, desde 2002 os membros e simpatizantes do Cooperifa reúnem-se em Sarau Literário. Ver também fotos do barracão dos Bambas.
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Considerando a complexidade que envolve o termo - “cultura de massas” - é conveniente destacar que o uso que fazemos desse termo em nossas reflexões é no sentido que lhe foi atribuído por Félix Guattari; ou seja: um “elemento fundamental da 'produção de subjetividade capitalista'” responsável, por uma complexa rede de “sistemas hierárquicos, sistemas de valores” e, – o que ainda é mais admirável – “um sistema de submissão” imperceptível, mas capaz de envolver a tudo e a todos na ordem capitalista. Apesar desses efeitos asfixiantes, Guattari enxerga um campo de possibilidades abertas para o desenvolvimento de “subjetivações singulares” no interior do “sistema de subjetivação capitalista”. Essas novas subjetivações estão permanentemente prontas e dispostas a experimentarem outros “modos de sensibilidade, de relação com o outro”, de criatividade, resistência, enfim, contra “os tipos de sociedade e os tipos de valores que não são nossos”. Mais detalhes, ver: Guattari (1999: 16-17).
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Expediente amplamente utilizado na periferia para desviar os sinais da TV a cabo criando, conseqüentemente com essa interferência uma rede clandestina de sinais batizada ironicamente de TV a gato.
Em outro depoimento, recolhido em outro território, um membro da “república dos manos” manifesta acentuada preocupação com a escassez de espaços para a diversão e o lazer nas regiões periféricas de São Paulo. Em seguida, revela uma renovada disposição de pôr toda a sua criatividade e imaginação em prática e com elas usufruir, ainda que de maneira parcial, os benefícios oferecidos pela indústria do entretenimento, direcionando-as aos moradores da periferia.
Ficar em casa nem rola, é o maior tédio. Quer dizer, agora até que é possível. Aí, se liga [com um gesto sutil indica a fiação do poste], agora a gente tem TV a gato. Agora, quando fico em casa, posso assistir uns filme louco, irado mesmo! No esporte tem até - “Vale Tudo”- e outras paradas loucas. Por isso se não rola os encontros lá nos “Bambas”, se não tem nenhum baile pra gente se reunir, dançar e ver a galera, aí, então, fico em casa com meu gatinho, mas isso é em último caso, porque casa..., você sabe, é tédio. (Ricardinho, depoimento colhido em fevereiro de 2007).
O depoimento de Ricardinho aponta para uma relação de desapego, quase que generalizado, dos moradores da periferia com suas casas. Uma explicação possível para esse fenômeno passa necessariamente pela compreensão da arquitetura, quase sempre, prejudicada dessas casas, ou seja, os seus espaços comprimidos e em geral insalubres constituem uma fonte de permanente incentivo para os moradores da periferia privilegiarem a convivência “livre” e “descompromissada” da rua em prejuízo das relações hierarquizadas das casas. Por isso, estar na rua é sempre mais agradável, como indica o depoimento.
Essa situação, isto é, a precariedade nos modos de morar e viver persegue os pobres secularmente. No cenário contemporâneo, com o auxilio da cultura hip hop, essas dificuldades começaram a ser inventariadas de maneira sistemática e detalhada pelos moradores da periferia. Assim, ao criticar o abandono da periferia em suas crônicas musicais, o movimento rap contribui ato continuum, para a emergência de uma “espécie de historicismo popular, que estimulou um fascínio especial pela história e o significado de sua recuperação por aqueles que têm sido expulsos dos dramas oficiais da civilização” (GILROY, 2001: 176, grifos nossos).
Pode-se dizer, então, que, na busca persistente que fazem das referências de seus antepassados; no esforço preservacionista das tradições e dos costumes e, na preocupação recorrente que manifestam com a memória cultural de seus semelhantes – independentemente da sua localização geográfica – o movimento rap tem se constituído, assim como outrora foi o blues, o jazz, o funk e o samba, em mais um legítimo representante do “Atlântico Negro”60, principalmente por encarnar uma, “linguagem inevitavelmente política da cidadania, justiça racial e igualdade”. (GILROY, 2001: 175). Tematizadas com riqueza de detalhes as estórias relatadas nas crônicas de rap não estão circunscritas aos seus locais de origem, pois como já relatou os Racionais MC’s em uma de suas crônicas musicais, “periferia é periferia em qualquer lugar” (Racionais MC's, do álbum “Sobrevivendo no Inferno”, de 1998). Essa compreensão de que estão vinculados pelos mesmos tipos de dificuldades e problemas,
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A respeito do legado cultural do Atlântico Negro ver Gilroy (2001). A respeito da herança cultural entre samba e hip hop, ver: Guimarães, 1998.
independentemente de sua localização geográfica, deixa entrever que, além de local, a linguagem e as reivindicações desses jovens são também universais.
A crise da moradia, do emprego e o avanço da criminalidade, entre outros problemas agudos da periferia de São Paulo, são extensivos – na perspectiva e também na lógica de que a – “periferia é periferia em qualquer lugar” – para outros territórios do Brasil; de sorte que os jovens envolvidos com o movimento rap nos grandes centros urbanos insistem em criar uma vinculação e um compromisso entre os jovens de outras cidades. Para tanto, redimensionam as suas referências locais e, com espantosa habilidade, demonstram familiaridade e conhecimento das dificuldades que os seus pares estão vivendo em outras cidades. “Eu sei... para os jovens da Baixada Fluminense e Cinelândia a vida não é como a Disneylândia” (Racionais Mc's, do álbum “Sobrevivendo no Inferno”, de 1998).
É importante ressaltar, uma vez mais, que esses jovens que hoje estão levantando a voz com determinação e coragem para denunciar em suas letras musicais o preconceito e outras formas de discriminação, são os filhos das famílias de migrantes brancos, pretos e pardos que no passado sofreram de cabeça baixa todo tipo de humilhação e desrespeito por serem pobres. Em São Paulo a maior parte desses migrantes se estabeleceu, a partir de 1960 e no decorrer dos anos 70, em sua periferia Zonas Sul e Leste61 principalmente.
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Como não receberam apoio suficiente do poder público para o desenvolvimento de suas regiões, enfrentaram e enfrentam, ainda hoje, muitas dificuldades para se estabelecer dignamente nessas localidades.
Uma dessas dificuldades, matriz, talvez, de todas as outras está diretamente associada às condições precárias das moradias construídas nas regiões periféricas. Ou seja, por ser tratar de casas auto-construídas62, os seus espaços quase nunca são adequados para um convívio familiar harmonioso. Por isso, ainda que orgulhosamente insistam em divulgar as características de seu lugar de origem – “Sou o príncipe do gueto só quem é desce e sobe a ladeira/ sou o príncipe do gueto meu castelo é de madeira” (A Família) – os rappers têm muitas dificuldades de tributar beleza ou enxergar algo positivo no espaço interno de suas casas, como demonstra a seqüência da mesma música: “barraco de madeira quando chove é só goteira o clima é tenso úmido, úmido”. Em seguida, denotando não vislumbrar nenhuma perspectiva otimista para suas vidas, concluem com ceticismo e resignação: “aqui é treta todo dia o dia inteiro; só falta construir o banheiro” (A Família, do álbum “Cantando com a alma”, de 2006).
Essa realidade empurra os jovens da periferia inapelavelmente para os braços permissivos da rua. Longe do espaço hierarquizado da casa e de suas leis impostas draconicamente pelo soberano (pai), os jovens esforçam-se para construir uma relação de respeito e reconhecimento com seus amigos no espaço “democratizado” das ruas. Ocorre que, para granjear reconhecimento e respeito na esfera pública, é preciso –
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além da simpatia e do desprendimento peculiar dessa fase da vida –, saber fazer acordos, formar alianças e, no limite aceitar e conviver com as diferenças. O fato é que, como saíram de um ambiente pouco afeito ao diálogo, onde a palavra do pai é sempre a última, a decisiva, a indicativa, enfim, dos caminhos a serem seguidos, os jovens da periferia tendem a transferir para a rua um pouco dessa visão centralizadora.