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Desdobramentos do tema de pesquisa: delimitando o objeto a ser

No documento 2019CamilaCominBortolini (páginas 53-59)

Argumentar equivale a enunciar algumas proposições que escolhemos compor entre si. Reciprocamente, enunciar equivale a argumentar pelo simples fato de que escolhemos dizer e avançar determinados sentidos em vez de outros.

(PLATIN, 2008 p. 42)

35Russel (1997, p.4), com base em Engeström (1987, 1993), Cole e Engeström (1993) e Leont'ev (1981), define

um sistema de atividade como “An activity system is any ongoing, object-directed, historically-conditioned, dialectically-structured, tool-mediated human interaction: a family, a religious organization, an advocacy group, a political movement, a course of study, a school, a discipline, a research laboratory, a profession, and so on. These activity systems are mutually (re)constructed by participants using certain tools and not others (including discursive tools such as speech sounds and inscriptions). The activity system is the basic unit of analysis for both groups' and individuals' behavior, in that it analyzes the way concrete tools are used to mediate the motive (direction, trajectory) and the object (the ‘problem space’ or focus) of behavior and changes in it. (See Figure 1 below.)” (RUSSEL, 1997, p.4). “Qualquer interação humana continuada dirigida a um objeto, historicamente condicionada, dialeticamente estruturada e mediada por ferramentas”. Como exemplo de sistema de atividade, cita uma família, uma organização religiosa, uma banca de advogados, uma manifestação política, um curso, uma escola, uma disciplina. Por meio da análise dos sistemas de atividade em que os seres humanos estão inseridos, é possível, segundo o autor, analisar a maneira como as ferramentas concretas são usadas para mediar os motivos (direção, trajetória) e o objeto (o foco) de um comportamento ou de uma mudança em um comportamento. (Tradução nossa.)

No Brasil, os estudos referentes à argumentação vêm emergindo de territórios como a Filosofia, a área jurídica e a Linguística, descentralizando a premissa segundo a qual se trata de tema restrito à Retórica, Lógica ou Dialética. Um número significativo de pesquisas, essencialmente, localiza-se no âmbito da Psicologia, campo no qual se observa o intuito de compreender os processos de aquisição, funcionamento e mediação da argumentação na construção do conhecimento, ou seja, a dimensão epistêmica da argumentação, considerando- a um dos recursos racionais mais importantes para a construção de conhecimentos.

Logo, no intuito de localizar sob a luz dessa temática o problema de pesquisa, bem como tomada pelo desafio de desenredar os movimentos peculiares, complexos e histórico-culturais que significam e constituem o desenvolvimento intelectual das crianças, o processo de ensinar e aprender, volto-me para as pesquisas36 desenvolvidas no Brasil sobre a argumentação e a sua

relação com a construção do conhecimento, especificamente, as que referenciam contextos escolares e que se voltam para a argumentação como elemento fundamental no processo de ensino/instrução e de aprendizagem, como conteúdo a ser ensinado e como estratégia didática. Entre 2000 e 2016, identificamos um total de 34 trabalhos distribuídos entre as áreas da Psicologia (10), Educação (8) e Linguística (16), oriundos de diferentes instituições de ensino. Observamos que, na Universidade Federal de Pernambuco e na área da Psicologia, concentra-se a maior parte dos trabalhos que envolvem a temática da nossa pesquisa.

36 Bases de dados consultadas: Banco de Teses e Dissertações da Capes e Biblioteca Digital Brasileira de Teses e

Dissertações. Foram usados os seguintes descritores: argumentação / argumentação e aprendizagem. Também foi realizada uma busca no diretório da Capes referente aos grupos de pesquisas instituídos no Brasil que se voltam para a temática Argumentação.

Imagem 2 - Local de origem dos trabalhos.

Fonte: Sistematização da pesquisadora.

Imagem 3 - Área do Conhecimento dos trabalhos.

Fonte: Sistematização da pesquisadora.

2 4 3 0 2 3 1 1 1 1 1 0 8 2 1 0 1 1 2 0 2 4 6 8 10 12 14

Arg. conteúdo. Arg. elemento fund. const. conhec.

0 2 4 6 8 10 12 14 16

Educação Psicologia Linguística

Arg. Const. Conhec. 4 6 5

Boa parte das pesquisas apresentada pelas teses e dissertações envolveu sujeitos entre a faixa etária de 6 (seis) a 15 anos, centrando-se nas etapas I e II do Ensino Fundamental. São dez trabalhos que tomaram a argumentação como o elemento fundamental para a construção do conhecimento e, desses 10, somente três abordam também a argumentação como conteúdo do ensino da língua (escrita e leitura). Tais trabalhos situam-se na área da Linguística, dois deles ancorados na Teoria da Argumentação na Língua37 e o terceiro estruturado com base no viés

epistêmico da argumentação, envolvendo, especificamente, a segunda etapa do Ensino Fundamental (9º ano).

Imagem 4 - Abrangência dos trabalhos conforme etapas de ensino.

Fonte: Sistematização da pesquisadora.

37 “En términos generales, puede afirmarse que la TADL es uma aplicación del estruturalismo saussuriano a la

semántica linguística em la medida em que, para Saussure, el significado de uma expresión reside em las relaciones de esa expresión com otras expresiones de la lengua” (CAREL; DUCROT, 2005, p. 11).

0 2 4 6 8 10 12

Ed. Inf. Ens. Fund. I Ens. Fund. II Ens. Médio Superior Ens. Fund. I e II Ens. Fund. I, II, M. 1 6 6 4 1 0 1 2 5 4 1 2 1 0

Imagem 5 - Abrangência dos trabalhos conforme disciplina.

Fonte: Sistematização da pesquisadora.

Tais dados revelaram-nos a necessidade da intensificação e aprofundamento de pesquisas na dimensão epistêmica, a qual, segundo Leitão e Ferreira (2006), remete ao potencial transformador da argumentação, já que permite o confronto de posições opostas, o que possibilita a emergência do “novo”, ademais, de pesquisas acerca da argumentação como princípio epistêmico, vinculada ao ensino da língua, sistematizado por meio de uma modalidade didática que assegure a efetivação de atividades discursivas. Também observamos o aspecto lacunar de proposta investigativa centrada nos anos iniciais do Ensino Fundamental e que tenha um caráter longitudinal inexistem entre os trabalhos identificados em nossa busca. Conforme Leitão (2013), a maioria das pesquisas teórica e metodologicamente ainda circula em território não tão arraigado como o desejado.

Levando em consideração o conjunto de produções que advém da UFPE, buscamos identificar as inquietações que mobilizam o cotidiano desses pesquisadores. Podemos afirmar que os estudos nessa área são relativamente recentes, sendo que um trabalho sistemático sobre o tema coincide com a instalação do programa de Pós-Graduação em Psicologia Cognitiva/UFPE ocorrido em 1994, bem como com a criação do grupo de pesquisa denominado NupArg. A atividade acadêmica do NupArg insere, portanto, uma nova área de investigação no panorama da pesquisa em Psicologia no Brasil e projeta para espaços acadêmicos, dentro e fora

0 0,5 1 1,5 2 2,5 3 3,5 4 4,5 5

Ens. Fund. I Ens. Fund. II Ens. Fund. I e II

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4 2

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do país, o trabalho ali realizado. Selma Leitão (2013), coordenadora do Núcleo, busca, em seus estudos, capturar o processo de construção do conhecimento que opera na argumentação; a sua tese central é que a dimensão epistêmica da argumentação vincula-se diretamente às propriedades semiótico-discursivas.

Nesse contexto, Leitão (2013, p 259) sumariza os principais pontos de observação: a investigação de mecanismos de aprendizagem que operam no discurso requer que se considerem as propriedades semiótico-discursivas; o que caracteriza a argumentação de outras atividades discursivas é que ao argumentar os sujeitos justificam o seu ponto de vista, respondem a posições contrárias; o confronto com a oposição desencadeia nos sujeitos um processo de revisão de suas concepções; o principal efeito do confronto com a oposição é que ela compele os participantes da argumentação a “abrirem” os seus pontos de vista à revisão, conceituada por Leitão como um “mecanismo dialógico-discursivo de aprendizagem”.

A autora também destaca, em seus estudos, que, para a argumentação servir à construção do conhecimento em ambientes de ensino-aprendizagem, “os temas curriculares precisam ser construídos como temas debatíveis (...). Ou seja, temas em relação aos quais diferentes perspectivas coexistam (entre especialistas, entre aprendizes e especialistas) e podem vir a ser transformadas via argumentação.” (2013, p. 248). Consideramos à luz dessas ponderações que os conteúdos da área do conhecimento da linguagem podem constituir-se como “temas debatíveis” e foco da atividade discursiva.

Dessa forma, ao explorar os resultados das teses e dissertações, percebemos que, no campo educacional, ainda não foi foco de investigação: a argumentação como princípio epistêmico (ações epistêmicas), vinculada à capacidade de linguagem a ser ensinada

(argumentação como conteúdo) numa dinâmica de intervenção pedagógica constituída de

atividades discursivas (argumentação como agenciador didático), em situações reais de comunicação nos anos iniciais do Ensino Fundamental, especificamente do 3º (terceiro) ao 5º (quinto) ano, no intuito de promover elaboração do conhecimento científico.

De acordo com o que vimos e como exposto por Leitão (2013), a impressão que se tem, ao examinar a literatura da área, é que a existência de um estreito vínculo entre argumentar e aprender é uma afirmação inquestionável assumida pelos pesquisadores do tema. No entanto, não se observou, nessa literatura, nem no plano teórico nem no metodológico, um esforço sistemático, longitudinal e denso, que viesse legitimar ou gerar uma teorização acerca das elaborações conceituais produzidas pelos sujeitos e responder à questão: considerando a

conhecimento, que dimensões a argumentação assume no processo pedagógico cuja intencionalidade é a elaboração de conceitos científicos?

No documento 2019CamilaCominBortolini (páginas 53-59)