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3.4 SUBLIMAÇÃO E REALIDADE PARA HANS W. LOEWALD

3.4.1 Desdobramentos teóricos a partir de Freud

O modo como o autor compreende a pulsão em relação à sublimação envolve inúmeros aspectos de sua teoria, tais como a meta pulsional, a relação entre id e ego, e as transformações em jogo no processo sublimatório. Todos estes aspectos são articulados por Loewald de modo original em sua concepção de sublimação.

A meta pulsional, não mais pensada de forma geral como a redução ou eliminação da tensão, é o estabelecimento de ligações quando tratamos da pulsão de vida. Ela visa formar e manter unidades – e isto não significa diminuição de tensão no aparelho psíquico: “Se há algo como um instinto de vida, seu ‘objetivo’ seria satisfação através da obtenção de unidades superiores e mais diferenciadas, em que a tensão não é eliminada, mas ‘ligada’ – uma satisfação de um tipo diferente.”15 Anteriormente, havia a suposição de que a descarga pulsional (embora originalmente voltada a causar prazer) ameaça com desprazer, pois o que é prazer para um sistema, o id, é desprazer para outro, o ego. A própria pulsão pode ser considerada como perigosa para o ego. Para Loewald (conforme vimos no item 3.2), id e ego não são instâncias que estão em relação de oposição, mas diferem quanto ao nível de organização da pulsão. A pulsão com o objetivo de ligar será inibida, nos processos defensivos, mas a sublimação, não sendo um processo defensivo, pode ser agora pensada como responsável por uma transformação diferente da inicialmente formulada por Freud. A sublimação é responsável pela transformação da libido objetal em libido narcísica: “Eu sugiro que a distinção entre impulsos ‘afetuosos’ e ‘sexuais’ é semelhante às distinções entre identificação e catexia objetal, entre libido narcísica e libido objetal e entre self e mundo

15

LOEWALD, H.W. Theoretical Advances. Sublimation: Inquiries into Theoretical Psychoanalysis. New Haven and London. Yale University Press. 1988, p.27

objetal.”16. Desse modo, a pulsão ainda visa o estabelecimento de ligações, mas agora no âmbito da constituição do ego:

Sublimação, nesta visão, envolve um retorno interno re-criativo rumo àquela matriz, uma reconciliação dos elementos polarizados produzidos pela individuação e, pode-se suspeitar, pela diferenciação sexual. A sublimação, deste modo, reúne o que havia se separado.17

A sublimação envolve a transformação da libido objetal em libido narcísica, constituindo o psiquismo, e não da pulsão sexual em uma expressão de outra natureza, mas. Aqui está presente a idéia de que não há uma seqüência temporal entre estes estados da libido, a narcísica e a objetal, tal como Freud teria postulado, e nem a suposição de que a libido narcísica envolva somente o indivíduo e a objetal, o indivíduo e o mundo. Embora o autor não o explicite, de acordo com a idéia dos níveis de integração ego-realidade, supõe-se que a libido narcísica está presente tanto na relação self-mundo inicial e narcísica, quanto nas relações posteriores nas quais há maior diferenciação. Da mesma forma, a libido objetal está presente em ambas as relações self-mundo. Esses estados da libido diferem porque participam de processos diferentes de construção e relação do self ou do mundo. A libido narcísica está em jogo na constituição do self, mas esta não significa um processo à parte do mundo objetal. Ao contrário, envolve este mundo através de processos de identificação. Ademais, os impulsos afetuosos, que o autor relaciona à libido narcísica, envolve claramente a relação com o mundo. Por sua vez, a libido objetal está em jogo na constituição da realidade externa, mas esta também não exclui a presença do self e suas forças internas pulsionais.

A transformação de libido objetal em libido narcísica na sublimação, desse modo, promove a constituição do self. Como integrar estas postulações do autor com o fato de que, para ele, a sublimação também corresponde à criação da realidade? Parece que a resposta está

16

LOEWALD, H.W. Theoretical Advances. Sublimation: Inquiries into Theoretical Psychoanalysis. New Haven and London. Yale University Press. 1988, p.25

17

LOEWALD, H.W. The Traditional Theory of Sublimation and Defense. In: Sublimation: Inquiries into

no fato de que, talvez, para o autor, não haja uma relação inversamente proporcional entre libido narcísica e objetal. Há transformação da libido objetal para a narcísica, mas nesta transformação a primeira não sai totalmente de cena. O que ocorre nesta transformação é que

níveis maiores de diferenciação self-mundo são atingidos, mas ambos os estados da libido

estão presentes na vida do self neste mundo. Nesta constituição do self, ao transformar-se libido objetal em narcísica, a dimensão original narcísica é recuperada em sua relação de fluidez entre self e mundo, para se atingir, a partir disso, um nível maior de integração ego-realidade. A constituição do self envolve um resgate da relação eu-mundo na qual não há diferenciação, mas fluidez e continuidade, para posterior diferenciação, resultando em um self enriquecido com elementos do mundo. O resultado, no entanto, deste processo, não é apenas um self superior integrado, mas também um mundo modificado, renovadamente construído. O mundo tem mais do self, e o self tem mais do mundo agora, mas estes novos níveis de integração ego-realidade supõem que haja também maior diferenciação entre eles. Também devemos considerar o papel da realidade externa no processo sublimatório. Isto abordaremos em seguida. Ao adentrarmos este tema através do conceito de hipercatexia (processo em jogo na sublimação), veremos que não se trata de uma criação da realidade, mas de um reencontro. A sublimação joga um papel decisivo no domínio da realidade, “domínio concebido não como dominação, mas como o chegar a um acordo – na medida em que traz a realidade material e externa no compasso da realidade psíquica, e a realidade psíquica no ritmo da realidade externa.”18. Podemos, então, perceber de que forma o conceito de sublimação, para

o autor, está relacionado ao conceito de realidade. O resgate da unicidade original da matriz traz à cena uma outra relação com a realidade que é característica dos níveis primordiais de integração ego-realidade: “A sublimação é um tipo de reconciliação da dicotomia

18

LOEWALD, H.W. Theoretical Advances. Sublimation: Inquiries into Theoretical Psychoanalysis. New Haven and London. Yale University Press. 1988, p.22

objeto – uma reparação [atonement] daquela polarização (a palavra atone deriva de at one) e um estreitamento do abismo entre libido objetal e narcísica, entre mundo objetal e self.”19

Loewald está chamando a atenção para o fato de que os processos de constituição do psiquismo – ego e superego – envolvem a sublimação, pois esta implica transformação de libido objetal-sexual em libido narcísica, com objetivos e objetos alterados. A sublimação implica, então, internalização e, como vimos, envolve uma suavização da dicotomia entre mundo objetal e self. Resgatando as formulações de Freud sobre a constituição do superego, Loewald afirma: “O caminho universal para a sublimação é, portanto, a internalização.”20

Após uma discussão detalhada acerca da meta da pulsão e do que significa o ‘prazer’ na obra freudiana a partir de 1920, Loewald faz outra leitura do que seria o princípio de realidade como uma modificação do princípio de prazer ‘revisado’. O princípio de realidade está a serviço de uma alteração qualitativa de carga de estímulo. Nas palavras de Figueiredo, para Loewald, o bom contato com a realidade garante ao sujeito “formas melhores de organização psíquica, estimulação qualitativamente mais rica e ‘nutritiva’.”21

Loewald considera que o mundo externo pode ser um fator na criação das características qualitativas da carga de estímulo. A realidade não é o que se opõe à pulsão, mas pode oferecer possibilidades, apoiar, alimentar, suprir e enriquecer o psiquismo, tal como Figueiredo nos diz, trazendo como exemplo um artista que precisa ter um conhecimento mais ‘realista’ das tintas, pincéis e suportes para sua criação. A realidade material “tem um lugar de

19

LOEWALD, H.W. Theoretical Advances. Sublimation: Inquiries into Theoretical Psychoanalysis. New Haven and London. Yale University Press. 1988, p.20. Thomas Ogden, em seu Sujeitos da Psicanálise, aborda o debate em torno da questão de se a criança no início da vida é uma entidade da qual a mãe faz arte (‘at one’) ou se ela é capaz de reconhecer sua diferença com o outro. Ele defende que se deve considerar não uma idéia ou outra, mas a experiência infantil inicial como “um processo dialético que envolve múltiplas formas de consciência (cada uma coexistindo com as outras) [...]” p.168. Ou seja, Ogden propõe também um deslocamento da compreensão a partir de elementos dicotômicos criança-mãe para uma compreensão que supere esta dicotomia considerando a simultaneidade de experiências de estar-em-um e estar separado.

20

LOEWALD, H.W. Theoretical Advances. Sublimation: Inquiries into Theoretical Psychoanalysis. New Haven and London. Yale University Press. 1988, p.19

21

FIGUEIREDO, L. C. Sobre a sublimação. [Aula ministrada no Programa de Pós Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP, com material escrito. São Paulo, 2006, p.14]

relevo na constituição psíquica do adulto, fornecendo-lhe as condições, os meios e recursos para os processos sublimatórios.”22

Aqui, o conceito de hipercatexia tem importância. Em um artigo de 1978, Primary Process, Secondary Process, and Language, Loewald afirma que “[...] o ato de hipercatexia, a ligação das representações-coisa e representações-palavra, causa uma representação que difere de uma e de outra, por ser um ato psíquico original e organizado de modo mais complexo.”23 Primordialmente, na experiência do bebê, havia um estado em que as palavras faziam parte da experiência, estavam ‘embutidas’ nela de forma indiscriminada. A hipercatexia, em termos sucintos, é uma “ligação entre representação-coisa e representações-palavra no processo secundário [que] é uma reunião em um diferente nível, por meio de uma repetição criativa, de elementos que tinham sido um; trata-se de uma reconciliação.”24

No processo sublimatório, então, a realidade comparece com o fornecimento também de palavras que possibilitarão o resgate de uma unicidade original, num patamar diferente de organização. Aqui chegamos à questão da simbolização, que merecerá um capítulo em seu livro. Mas vai-se tornando claro que as ligações dizem respeito também a esta hipercatexia, ampliando novas possibilidades de sentido.

Loewald aproxima sua concepção de sublimação das idéias de D.W Winnicott a respeito dos fenômenos transicionais.25 No entanto, ao contrário deste autor, que enfatiza o caráter não pulsional destes fenômenos, Loewald resgata a importância desta dimensão no processo sublimatório, conforme vimos acima. Winnicott teria ficado preso à concepção freudiana inicial de pulsão vinculada ao princípio de constância e, por isso, teria deliberadamente excluído a dimensão pulsional dos fenômenos que desejava descrever.

22

FIGUEIREDO, L. C. Sobre a sublimação. [Aula ministrada no Programa de Pós Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP, com material escrito. São Paulo, 2006, p.14].

23

LOEWALD, H.W. (1951) Primary Process, Secondary Process, and Language. In: Papers on Psychoanalysis. New Haven and London: Yale University Press, 1980, p.182

24

Ibidem, p.188

25

WINNICOTT, D.W. Objetos Transicionais e Fenômenos Transicionais. In: O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro. Imago, 1975.

Loewald, ao contrário, teria tomado as novas formulações freudianas sobre a pulsão de vida, o que possibilitou a inclusão da dimensão pulsional em sua teoria da sublimação.

Fiqueiredo26 resume este aspecto da concepção de sublimação do autor em sua relação com a concepção de realidade:

A pulsionalidade nesta área é exercida em termos de criação e sustentação de tensões vitais pela via da ampliação das ligações (intersubjetivas e intrapsíquicas) e não em termos de busca de descargas, redução ou ausência de estimulação. [...] o mundo da vida é re-encantado sem que o contato com a ‘realidade’ seja perdido. Ao contrário, uma certa reconciliação de fantasia e ‘realidade’, subjetivo e objetivo, garante uma renovada possibilidade de vida real.27