6 Escrever certo por linhas tortas: a escrita e a formação de professores o
6.1 Entre o desejo e a marca: escrita e psicanálise
Temos como indiscutível que a psicanálise é uma experiência da e com a palavra. E é. Não se trata mesmo de discutir, e nem mesmo de relativizar essa afirmação: a psicanálise é uma experiência da palavra, seja ela escrita ou falada. A escrita em si se constitui para a psicanálise como um nó central de pesquisa ao referir- se à inscrição e constituição do sujeito psíquico. Para Freud (1900/1974), é na forma de uma escrita criativa que o inconsciente se manifesta. Para o autor escrita e inconsciente encontram-se indissociáveis e, dessa forma, podemos pensar a crise da escrita sob esse prisma.
Formulemos enfim o que, propriamente falando, não seria uma hipótese, mas um ponto de encontro para um conjunto de questões: o sujeito contemporâneo manifesta uma crise em sua relação com a escrita, não uma crise da escrita, mas daquilo através do qual um sujeito pode constituir-se na escrita. Crise no sentido de ruptura, virada, começo. Não se poderia pensar que as novas tecnologias da escrita modificam o próprio ato da escrita, modificam, se assim posso dizer, a escrita em ato, ou seja, o gestual e o manejo do traço? Passar da pena ou da caneta para um teclado de
computador ou celular não é simplesmente substituir uma ferramenta por outra, é modificar sua própria relação com a marca, que responde por um novo estatuto. A marca digital não é igual a marca gráfica. Não seriam os escreventes também constituídos em um outro processo singular?
O que desaparece, sob o anonimato da letra digital, é a própria morfologia do escrito, sua personalização. A própria assinatura do sujeito nos parece ser uma ato de escrita essencial e contudo é ainda pouco estudado.
Mas a escrita não é apenas fundante através de uma assinatura. A própria psicanálise já nos alerta em seu desenvolvimento o quanto que ao escrever o sujeito não utiliza apenas das associações do seu discurso consciente, mas também recursos inconscientes, às vezes passíveis de censura. Freud, o pai da psicanálise, nos monta esse cenário, levando-os a compreender que “não há escrita que não se constitua uma proteção, em proteção contra si, contra a escrita segundo a qual o sujeito está ameaçado ao deixar-se escrever: ao expor-se” (DERRIDA, 1967, p. 218).
Desde Platão e Aristóteles não se tem deixado de ilustrar por meio de imagens gráficas as relações da razão e da experiência, da percepção e da memória. Mas sempre se manteve uma segurança confiante no sentido do termo conhecido e familiar, a saber, da escritura. O gesto esboçado por Freud ao explicitar a psicanálise destrói essa segurança e abre um novo tipo de questão sobre a metaforicidade, a escritura e o espaçamento em geral (DERRIDA, 1971, p.182).
Nesse intercurso de exposição e retraimento inconsciente, tanto a escrita como a leitura tornam-se cartografias de um desejo. São, obviamente, produções culturais e os conhecimentos psicanalíticos alertam para o caráter sublimador das produções culturais, entre elas a escrita. Nessa concepção o escrever constitui-se em ferramenta docente notável de aproximação com uma necessidade individual visando muito mais do que uma aproximação com o idioma. Distante de esperar que a escrita gere nos docentes comportamentos denominados terapêuticos, pode-se almejar que atue no sujeito por uma via que não a volitiva. Diz Felman(2000):
A psicanálise, assim como outras disciplinas que tratam do bem-estar mental do homem, procede recolhendo testemunhos de seus pacientes. Será que educadores poderiam ser, por sua vez, edificados pela prática do testemunho, enquanto buscam enriquece-lo e repensá-lo por meio de algumas impressionantes lições literárias? (...) Podem as implicações das lições psicanalíticas e as lições literárias sobre o testemunho, interagir na experiência pedagógica? (FELMAN, 2000, p. 14)
Mas como pensar essas interações se o corpo docente não foi formado, muitas vezes, levando em consideração como um corpo do docente, um corpo que escreve? A instituição escolar que nos forma e deforma adota um discurso recheado de termos como mente, cognição e afins. Corpo? Só se for sob o domínio da Educação Física, ou então, minuciosamente esquartejado, ungido e nomeado nas ilustrações dos livros de ciências. Na escola corpo geralmente é permeado por vigilância. Escrita e corpo andam juntas e nesse processo também se pode esquartejar uma escrita criativa. Os corpos, antes calados pela instituição escolar – que temem o acaso do qual não possa dar conta- sentam-se anos a fio nos bancos escolares para depois serem emudecidos pelos chavões da mídia e das modas intelectualóides que circula na academia e que primam por atribuir as desarmonias à fraqueza de caráter.
A instituição escolar cala a escrita do corpo de formas diversas, desde a padronização do vestuário até o método que restringe as produções textuais fora de uma metodologia denominada científica. Lembro do receio de escrever sempre percorria os corredores entre as classes das salas de aula que freqüentei. Quem não lembra, caro leitor, de cenas que ilustram esse percorrer? Qual aluno não presenciou a cena de, diante de uma atividade obrigatória, ver frequentemente alunos entregando suas produções de uma maneira oculta ao olhar do professor, escondendo suas produções entre a pilha de outros trabalhos ou dirigindo-o com a parte escrita voltada para baixo? Mais do que uma sonegação de saber ao Outro... um temor pelo o que se escreveu ou deixou de escrever.
Escrever é, muitas vezes, ultrapassar um limite perigoso. Não é de surpreender que haja tamanha resistência, por parte de alguns sujeitos, em aproximar-se de uma introspecção e que o corpo se veja convocado a cavar trincheiras contra ela. Se para alguns escrever é doloroso, encontramos sujeitos para os quais escrever é uma das poucas formas de contornar essa introspecção inevitável. Não podem evadir-se da escrita e essa se configura num modo seguro de aproximação ao desejo.
Escrever é uma atividade em que aquele que escreve apenas escreve para saber o que quer dizer (para dialogar com as idéias do seu corpo), para perder a sua consciência no ilimitado da significância. (BARTHES, 1992, p.12)
As dificuldades e agitação que cercam o cotidiano de professores de pós- graduação não são desconhecidas por quem habita a academia, por isso é sedutor tentar questionar o porquê de escolhê-la, em suma, por que ser professor. Percebo com
freqüência que diante dessa pergunta (já clássica nas aulas inaugurais e entrevistas iniciais) as respostas sustentam-se em um discurso estável, inserido no discurso das ciências da educação e também dos métodos pedagógicos que sustentam essas ciências.
Muito se pensa em de que formato, relevância e em que demanda se tem que produzir, mas pouco se constitui nas perspectivas constitutivas inerentes ao processo de escrever. O próprio Freud (1925/1974) descreve que essa escrita que fazemos com o lápis, essa que registra sobre a folha de papel com o intuito de produzir a retenção de um traço capaz de ser revisitado após o transcurso do tempo. De saída relaciona a escrita à memória, sendo essa um objeto suplementar e garantidor daquela. “nesse caso, a superfície sobre a qual essa nota é preservada, a caderneta ou folha de papel, é como se fosse uma parte materializada de meu aparelho mnêmico, que, sob outros aspectos, levo invisível dentro de mim” (FREUD, 1925/1974, p. 285). Assim, situa a escrita como uma técnica que os neuróticos, tão afeitos ao esquecimento, podem dispor para garantir a recuperação de um traço. A escrita, definida como ferramenta auxiliar da memória, vai paulatinamente se tornando, ela mesma, o meio pelo qual é possível conceber a memória: seus conteúdos enquanto inscrições psíquicas, seu aparato enquanto marcações subjetivas. O mesmo lápis que marca o papel, marca o sujeito. A escrita inscreve-se na subjetividade e se constitui como processo e não mais como produto.
O próprio Freud em um texto de 1908, intitulado “escritores criativos e devaneios” disserta sobre o inominável da escrita, ressaltando o eco que a produção escrita movimenta em nossos corpos. Ele afirma:
Nós, leigos, sempre sentimos uma intensa curiosidade (...) em saber de que fontes esse estranho ser, o escritor criativo, retira seu material e como consegue impressionar-nos com o mesmo e despertar-nos emoções das quais talvez nem nos julgássemos capazes. Nosso interesse intensifica-se ainda mais pelo fato de que, ao ser interpolado, o escritor não nos oferece uma explicação, ou pelo menos nenhuma satisfatória; e de forma alguma ele é enfraquecido por sabermos que nem a mais clara compreensão interna dos determinantes de sua escolha de material e de natureza da arte de criação imaginativa em nada irá contribuir para nos tornar escritores criativos. (FREUD, 1908/1996, p.135)
Então, a psicanálise parece nos apontar o escrever como um processo que não tolera fórmulas. Para ela, seria inadmissível a proliferação de alguns cursos
universitários para “formação de escritores e agentes literários”. Existiriam passos, receitas para se fazer um escritor? Não. Um escritor não necessita de fórmulas, nem diplomas e sim consentimentos e permissões. E por isso, lancei-me em capturar como que os docentes de pós-graduação lidam com o desafio de permitir-se e daqui parto para realizar essa pesquisa.