2 AFETIVIDADE EM SENTIDO ANTROPOLÓGICO E AFETIVIDADE EM SENTIDO
2.1 Sentido antropológico de afeto
2.1.1 Desejos e impulsos
Para entender o conceito de desejos e impulsos, é necessário esclarecer o que é uma tendência, pois os desejos e impulsos são uma espécie de tendência.
A tendência é uma inclinação. Uma pedra tende a cair ao solo pela gravidade, uma lagarta tende a se transformar em borboleta, uma semente tende a se transformar em planta – a inclinação ou tendência do ser vivo é a perfeição. A tendência também pode ser chamada de apetite.
Existe um apetite natural, intrínseco, que não necessita de conhecimento prévio para realizar-se. “Todos los seres naturales están inclinados a lo que les conviene, pues hay en ellos cierto principio de inclinación por el que su inclinación es natural.”124 É próprio da inclinação de um ser, homem ou animal, estar inclinado a buscar comida para se alimentar.
Também existe o apetite elícito, a inclinação a um bem conhecido previamente. Ele “es aquel que se desencadena a partir del conocimiento, en virtud de la conexión que la estimativa125 o la cogitativa estabelecen entre realidad percibida y apetito, para cada tipo de apetito ( deseo, impulso, voluntad) hay una gama de afectos.”126
Como o conhecimento pode ser sensível ou intelectual, as inclinações/ tendências também podem ser sensíveis ou intelectuais. A tendência para um bem sensível é realizada por meio da estimativa, enquanto a inclinação para o bem intelectualmente capturado é realizada por meio da razão e vontade práticas.127
A tendência sensível também pode ser denominada de instinto. O instinto está presente nos animais e nos homens e faz com que eles dirijam suas ações em busca de satisfazer suas necessidades básicas de conservação e reprodução. Os instintos são “la mediación cognoscitiva e impulsivo-motora de las funciones vegetativas.”128 Isso significa que o instinto possui um aspecto cognoscitivo e outro que move a ação concreta. Quando um homem ou animal se encontra em uma situação de perigo, desencadeia-se uma resposta para
124 AQUINO apud CUADRADO, 2011, p. 65.
125 Estimativa é a capacidade de valorar a realidade exterior em relação a própria subjetividade. É uma certa
antecipação do futuro, rege o comportamento a partir do objeto valorado. Uma ovelha diante de um lobo sabe reagir, pois é capaz de valorar diante do perigo da realidade externa.
126 CHOZA, Jacinto. Manual de Antropología Filosófica. Sevilla: Thémata, 2016. p. 286.
127 CUADRADO, José Ángel García. Antropologia filosófica: Una introducción a la Filosofía del Hombre.
5.ed. Pamplona: Ediciones Universidad de Navarra, 2010, p. 66.
escapar do meio justamente para evitar aquilo que pode lhes prejudicar. A diferença entre os homens e os animais é a possibilidade do homem eleger suas escolhas para satisfazer suas necessidades: ele pode se dedicar ao preparo de um prato sofisticado ou alimentar-se de uma fruta, enquanto que os animais estão a serviço de sua vida biológica, dependentes daquilo que podem encontrar ou reunir para seu consumo. O homem pode livremente se dirigir para a realização de suas escolhas.
A tendência sensível pode ser de dois tipos: desejos e impulsos.
O desejo é a inclinação para o bem, se refere à captação de valores no presente. Também pode ser chamado de apetite concupiscível em que leva a inclinação para possuir um bem e faz referência ao presente. Já o impulso é a inclinação de vencer ou afastar os obstáculos que permitem possuir um bem, faz referência à captação de valores em relação ao passado e em relação ao futuro. Também pode ser chamado de apetite irascível.
À inclinação do desejo para possuir o bem, pode-se chamar de amor, e à inclinação para rechaçar o mal, ódio. O amor pode ser do bem futuro, e se chama desejo apenas, ou do bem presente, e se chama prazer. O ódio pode ser uma aversão a um mal futuro; provoca a inclinação de fugir; ou aversão a um mal presente, e se chama dor ou tristeza. A inclinação ou impulso de afastar ou vencer os obstáculos que se interpõem no caminho para alcançar o bem pode ser positiva ou negativa. Quando este apetite se move em direção a um bem difícil ou árduo, mas alcançável, se chama esperança; mas quando se inclina em direção a um bem que se torna inatingível, se chama desespero. Quando se depara com um mal que se torna inevitável, se chama temor; mas quando se acredita que o mal é evitável, poderíamos falar de audácia ou temeridade. Finalmente, se este apetite se enfrenta com um mal presente e o rejeita ( em vez de se deter na tristeza ou na dor) se chama ira.129
Os desejos do sujeito se dirigem a um bem presente e sua satisfação tem caráter prazeroso porque implica na posse de um bem apetecido. Por exemplo, comer um alimento quando se tem fome. Já os impulsos se dirigem a um bem difícil, o que exige superar obstáculos que se interpõem entre o sujeito e o bem almejado.130
Pode-se dizer que o impulso nasce do desejo, mas é superior a ele - o esforço por alcançar esse bem culmina com o prazer extraído dele. O bem mais árduo é mais difícil, mas é mais desejado pois implica em um bem mais valoroso. Enquanto que a conquista de um desejo se acaba no mesmo instante em que é conquistado.
129 YEPES STORK, Ricardo; ARANGUREN ECHEVARRÍA, Javier. Fundamentos de antropologia: um ideal
de excelência humana. Tradução de Patrícia Carol Dwyer. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência “Raimundo Lúlio” (Ramon Llull), 2005. p. 48.
130 CUADRADO, José Ángel García. Antropologia filosófica: Una introducción a la Filosofía del Hombre.