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3.1 OS JUÍZES VISTOS PELOS JUÍZES

3.1.2 Desembargadores e Estruturas Organizacionais

Na “câmara criminal A” Pedro é o mais antigo na função completando 38 anos na carreira de magistrado, seguido por Patrícia com 31 anos de função, Danilo com 29 e Heloísa com 25 anos de magistratura. Todos passaram por experiências variadas até a chegada ao tribunal de justiça atuando preliminarmente em comarcas do interior do Estado e em áreas jurídicas diferentes. Na “câmara criminal B” Afonso é o mais antigo no cargo, seguido por João, Claudio e Adriana. Nas mesmas condições os desembargadores deste colegiado percorreram longo caminho até atingir o segundo grau de jurisdição na área criminal.

Para que o juiz de direito de 1° grau ascenda profissionalmente aos tribunais de 2° grau serão analisados seu desempenho profissional, bem como critérios de antiguidade, produtividade e presteza no exercício da jurisdição. As promoções por merecimento serão realizadas em sessão pública, em votação nominal aberta. Diante destes critérios e considerando o tema deste trabalho cabe perguntar: O desempenho profissional para ascensão ao cargo de desembargador é avaliado por sua resignação funcional? Neste modelo as decisões judiciais podem sofrer influências dos critérios estabelecidos para ascensão?

Chama a atenção as limitações que estes critérios podem trazer a criatividade do juiz em sua função. Assim, compreende-se que os agentes da organização burocrática judiciária, tendem responder a este modelo organizacional através de influências diretas da estrutura do campo jurídico criminal. Em outras palavras, existem na estrutura da carreira profissional jurídica critérios subjetivos para ascensão. A estrutura organizacional por um lado possibilita espaços de autonomia e independência e por outro lado coloca limites ao poder de criação do juiz. Os critérios de produtividade e presteza permitiriam espaço ao juiz rebelde? Para

ascender ao cargo de desembargador o juiz de primeiro grau deve abrir mão de sua criatividade?

O juiz de 1° grau para atingir o posto de desembargador, passa pela análise de seu desempenho profissional e produtividade, avaliados por seus colegas magistrados. Não é difícil perceber as conseqüências deste processo. Pode-se constatar que estes critérios de avaliação são examinados por desembargadores o que estimula procedimentos informais e formação de grupos, bem como decisões adequadas ao pensamento da maioria. As relações informais entre juízes de direito e desembargadores, são estimuladas por este modelo de organização.

Para chegar até o segundo grau de jurisdição os magistrados que estruturam o campo criminal tem de possuir larga experiência e domínio completo das leis escritas e não escritas do espaço judicial. Os desembargadores assim conhecem como poucos a estrutura do poder judiciário desde o primeiro grau até o tribunal de justiça. Ao narrar sua trajetória, João destaca o conhecimento amplo adquirido na atuação em outras instâncias judiciais:“Quando cheguei ao Estado e ingressei na Magistratura passei por Itaqui, Espumoso, São Jerônimo. Entretanto, só tive contato com a matéria criminal quando fui juiz de direito e julgava diversas matérias, fui juiz do júri, juiz de execuções penais. Conhecer a realidade do sistema carcerário foi muito importante.”

O mesmo desembargador recorda que o atual contexto enaltece juízes de primeiro grau com posturas rígidas relacionadas à aplicação da lei penal. A tendência de ascensão profissional de magistrados vinculados a concepções rígidas podem ser observadas em duas dimensões.

Em primeiro plano se considera a hegemonia do pólo conservador como observa Cláudio. Segundo ele a tendência é da ascensão de juízes com este pensamento, ou seja, os critérios de produtividade e presteza permitiriam a perpetuação da maioria. Nesta perspectiva, o modelo organizacional da justiça criminal estabelecido através destes critérios de ascensão poderá exercer influência no posicionamento daqueles que possuem ambição profissional.

Outro aspecto crítico quanto a seleção dos magistrados no Brasil foi levantado pelo desembargador Afonso. O processo seletivo para magistratura se da através de Concurso Público, do qual apenas podem participar bacharéis em Direito. Após preencher requisitos que autorizam o candidato a concorrer ao cargo de magistrado, este passa por extensas provas objetiva, dissertativa, de sentença, oral

e curso de ingresso. Neste percurso as condições dos juízes que farão parte da organização judiciária são avaliadas.

A postura crítica do desembargador abrange a elaboração e construção do processo seletivo para a magistratura. A primeira etapa consiste em aplicação de prova objetiva contendo 100 (cem) questões elaboradas no intuito de testar a capacidade e os conhecimentos técnicos dos candidatos. Trata-se de um teste de memória. Aqueles que possuem capacidade mnemônica de gravar extensa carga de leis e artigos passam pelo concurso.

Nesta análise do desembargador, configura-se a imagem de um juiz especialista, com amplo conhecimento de leis, doutrinas e jurisprudências, o que para ele coloca questões acerca das conseqüências deste modelo de escolha: Estará o juiz especialista apto a exercer suas complexas funções? O conhecimento técnico pode dar conta das constantes transformações contemporâneas?

Segundo Afonso este processo contribui para formação de criaturas conservadoras. Quando este magistrado aponta a tendência do domínio dos conservadores no campo jurídico criminal exemplifica com os métodos de escolha dos novos juízes: “Os cursos de preparação da magistratura são um grande problema. São criadores de criaturas conservadoras, pois despejam e refletem o pensamento dos tribunais, se não for aquilo não passa no concurso e os juízes se comprometem com estas teses e levam para a jurisdição. Hoje nossos juízes são muitos conservadores, não estudam mais, ficam presos ao texto legal, a esta doutrina posta, principalmente aqueles que defenderam a jurisprudência da época da ditadura”.

O mesmo desembargador aponta para processos burocráticos de aplicação de normas e tendências de homogeneizar a forma de interpretação na área criminal: “O juiz se prepara para esse tipo de concurso e depois não tem mais tempo para estudar, se já não estudava antes a alternativa sociológica, filosófica, psicológica que são ramos que tem que impregnar o direito, se já não estudavam antes não vão estudar depois. Vão lá pegar o Damásio e ver o que tem de jurisprudência e vão aplicar. Vamos ver lá: Segundo Damásio, o mestre Damásio, aliás, mestre, não sei de quem. Vou te contar uma coisa, é uma coisa terrível. É claro que tem que se destacar que ele é um cidadão que selecionou muita bem a jurisprudência, claro que selecionou no interesse da linha mais conservadora ligada ao movimento da lei e da ordem, que é um movimento do pensamento fascista, que pensa que se prende o

individuo em favor do interesse social, como se o individuo não fosse ele a soma deles”.

As colocações do desembargador trazem ao presente estudo as influências e conseqüências dos processos de seleção dos novos juizes. Isso permite refletir a relação existente entre estrutura e agência neste contexto. Giddens (1989) contribui abordando a teoria da estruturação através do conceito de reflexividade que amplia o debate acerca da ação dos agentes. Segundo o autor os indivíduos possuem a capacidade de entender o que fazem, pensam e refletem sobre o que fazem, mesmo com a influência da estrutura. O momento da produção da ação é também o momento de reprodução nos contextos do desempenho do cotidiano, podendo a agência transformar o contexto ou reproduzir a estrutura.

A ação dos agentes ocorre assim em estruturas pré-determinadas que são sustentadas e alteradas pela ação humana. Ao promover a relação entre estrutura e ação social, Giddens se opõe tanto à visão estruturalista, quanto a versões que tendem a considerar a sociedade a criação plástica de sujeitos humanos. (GIDDENS, 1989, p.31).

Nesta perspectiva, enquanto alguns desembargadores buscam alterar o campo e para isso utilizam estratégias distintas, outros agentes buscam a manutenção das estruturas.

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