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O desempenho dos grupos controle e experimental em relação ao uso das

CAPÍTULO 3. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

3.5 Procedimentos de análise

4.2.3.3 O desempenho dos grupos controle e experimental em relação ao uso das

Ao verificarmos as modalizações presentes nos textos dos alunos dos grupos controle e experimental, constatamos que em ambos os grupos há uma tendência ao maior uso da modalidade deôntica. Entretanto, aparecem outras manifestações de modalização, parte das quais discutidas anteriormente, que não prevíamos encontrar no gênero carta de reclamação. Sintetizamos os dados das duas turmas, PI e PF, na tabela a seguir.

Tabela 35 - Modalizações presentes nas PI e PF do 3º e 4ª blocos dos grupos controle e experimental.

Modalização

Turma Lógicas Deônticas Apreciativas Pragmáticas

Asseverativos Quase-asseverativos Delimitadores

PI3E 1 3 - 14 6 - PF3E 2 3 - 18 4 - PI4E - 11 2 19 4 - PF4E - 3 3 21 2 - PI3C - 5 - 11 2 3 PF3C - 4 - 07 7 3 PI4C - 4 - 10 1 - PF4C - 3 - 10 1 -

Conforme a tabela 35, vemos que:

i) os alunos, em todas as turmas, usam mais a modalização deôntica;

ii) comparando os textos da PI e da PF, em ambas as turmas do grupo experimental, constatamos aumento no uso da modalização deôntica; ao passo que no 4C aparece o mesmo número de ocorrências, e no 3C há um decréscimo em tal uso;

iii) a modalização pragmática manifesta-se somente nas turmas do grupo controle; ao passo que a modalização lógica asseverativa e delimitadora só aparecem nas produções do grupo experimental;

iv) os modalizadores apreciativos aparecem em todas as turmas, sendo que nas turmas do grupo experimental o uso é maior do que nas turmas do grupo controle.

Lançaremos, neste item, um olhar para os dois grupos, com o objetivo de verificarmos em que aspectos as atividades propostas durante a sequência didática propiciaram o uso das modalizações.

É perceptível a diferença nos números de ocorrências de modalizadores observada nos textos dos dois grupos. Analisando cada categoria em particular, vemos que há uma diferença em relação aos modalizadores lógicos quase-asseverativos: enquanto no grupo controle foram detectadas 16 ocorrências. No grupo experimental, houve 21 marcações de quase- asseverativos; sendo que nas PF do grupo experimental houve um decréscimo no uso da modalização quase-asseverativas, notadamente na PF3E. Diferentemente dos asseverativos, os quase-asseverativos podem denotar uma baixa adesão do sujeito com o seu discurso, uma vez que, o que está em jogo não é a certeza dos fatos, mas a possibilidade, a probabilidade. Já em relação às outras duas categorias das modalizações lógicas – asseverativas e delimitadoras, no grupo experimental apareceram 08 ocorrências; ao passo que no grupo controle não houve nenhuma marcação dessas categorias.

Conforme percebemos no decorrer de toda esta seção, há uma relação entre a modalidade deôntica e lógica nos textos produzidos pelos alunos. Podemos compreender que alguns elementos representantes da necessidade expressa na modalização lógica apresentam, de certa forma, uma obrigação para o interlocutor, deixam flexíveis os limites entre as noções deônticas e lógica. Concordamos com Corbari (2008) quando a autora defende que, em alguns

contextos, pode haver uma relação lógico-deôntica, ou seja, o produtor apresenta uma certeza e, a partir dela, tenta compelir o seu leitor a aderir à mensagem expressa.

A categoria modalidade tem merecido reflexões de cunho teórico aprofundadas, que buscam, não a determinação de limites conceituais precisos entre um tipo e outro, mas a qualificação das indeterminações de fronteira e da ambiguidade que se manifesta no uso efetivo da língua. Nossos dados evidenciam que, como outros processos engendrados na constituição da argumentação, a modalização também se encontra condicionada pelos propósitos socialmente reconhecidos dos falantes em diferentes esferas de atuação social e pela condução didática que é dada ao ensino dos gêneros textuais.

As análises indicam uma diferença entre os textos produzidos pelos alunos dos dois grupos que compõem nosso corpus. Os textos produzidos pelos alunos do grupo controle, tanto na PI quanto na PF, evidenciam que há o uso das marcas de modalização, nas quatro categorias (lógica, deôntica, apreciativa e pragmática). Apesar de algumas inadequações, há ocorrências da principal marca de modalização que tínhamos expectativa de encontrar no gênero textual em estudo: a modalização deôntica. Acreditamos que este fenômeno poderá encontrar alguma explicação ao discutirmos, na próxima seção, a influência que os eventos de letramento podem ter para a apropriação dos gêneros textuais.

Já os textos produzidos pelos alunos do grupo experimental, principalmente, no contexto da PF, trazem um uso das modalizações em que se sobressaem a modalização deôntica. Verificamos, ainda, que os alunos conseguiram perceber que as modalizações podem ser usadas a serviço da argumentação para que seja alcançado o propósito comunicativo.

Diante do exposto, vemos a importância do estudo das modalizações para percepção do funcionamento da linguagem dentro de um determinado gênero textual. As pistas que o texto nos deixa, associadas à análise da situação de produção, nos permitem uma forma de compreensão que pode e deve ser considerada nas estratégias didáticas em salas de aula.

4.3 A influência dos eventos de letramento na apropriação do gênero carta de reclamação

Conforme ficou evidenciado nas seções 4.1 e 4.2, alguns alunos do grupo controle demonstraram já ter se apropriado das categorias estruturais e discursivo-argumentativas do gênero textual carta de reclamação, ou seja, apesar de não terem passado por situações

didáticas que levassem a tal apropriação, os textos produzidos tanto na PI quanto na PF se destacavam, por sua qualidade, dos textos produzidos pelos demais alunos.

Estudos como o desenvolvido por Pereira (1997) evidenciam que a participação em eventos de letramento pode levar à apropriação do que a pesquisadora denomina de ‘oralidade letrada’, ou seja, a maior participação em eventos de letramento revela apropriação de uma prática discursiva fortemente marcada pelas convenções da escrita.

Conforme Kleiman (2001), quando há algum projeto concreto de interesse dos alunos, é possível planejar atividades que envolvam escrever um texto com uma finalidade específica, que funcionará numa prática também específica, em vez de começar um trabalho focalizando uma forma textual e acabar focalizando somente a mesma forma. A autora continua sua reflexão atribuindo, ao professor e à escola o papel de construir funções sociais para escrever, mediante a inserção das atividades de produção de texto em práticas significativas. Contextos tais como o bairro, a família, o governo municipal, devem ser trazidos para a sala de aula, por meio de projetos de letramento, sendo as práticas sociais um marco natural para trabalhar as dificuldades inerentes à aprendizagem de novas formas de interagir por meio da escrita.

Assim, fundamentados em Pereira (1997) e Kleiman (2001), buscamos, nesta tese, desenvolver nas turmas do grupo experimental atividades estruturadas como um projeto de letramento e planejadas na perspectiva de sequências didáticas, objetivando verificar a influência do contexto didático na produção de texto, ou seja, em que medida as estratégias didáticas interferem na constituição/apropriação do gênero textual carta de reclamação e em que medida a participação em variados eventos de letramento extra-escolar pode influenciar na apropriação da escrita. O primeiro aspecto foi discutido nos itens 4.1 e 4.2 desta pesquisa, já o segundo aspecto será discutido nesta seção.

Assim, por meio de questionários aplicados juntos aos alunos, identificamos os principais eventos de letramento de que os alunos dos grupos controle e experimental participavam e relacionamos a participação nestes eventos de letramento com o desempenho dos sujeitos nos textos produzidos nas atividades de produção de textos desenvolvidas em sala de aula.

A tabela 36 mostra, por bloco e em ambos os grupos, o tipo de material escrito com o qual os alunos interagem e as esferas de comunicação em que ocorre a interação.

Tabela 36 – Eventos de letramento nas diversas esferas de comunicação

TRABALHO FAMÍLIA LAZER RELIGIÃO

Esferas Comunica tivas Material Escrito 3C 3E 4C 4E 3C 3E 4C 4E 3C 3E 4C 4E 3C 3E 4C 4E LIVROS DIDATICOS 12,5% 14% - - 50% 71% 82% 73% 50% - 54% - - - - - DICIONARIO - - - - 50% 57% 45% 91% 12,5% - 9% - - - - - BOLETOS BANCARIOS 37,5% 28% 18% - 37,5% 28% 45% 54% 12,5% - - - - HIPER-TEXTOS 25% - 9% - 14% 14% 36% 9% 50% 14% 54% - - 14% - 36% LETRAS DE MUSICA 12,5% - - - 28% 28% 27% 36% 62,5% 28% 82% 36% 50% 14% 9% 27% NORMAS SEG. TRAB. - 43% 9% - - - - ROMANCES - 14% - - 37,5% 14% 27% 27% 75% 14% 64% 36% 12,5% - 18% - BIBLIA 12,5% 28% 9% - 50% 57% 27% 64% - 14% 45% - 100% 54% 36% 91% BILHETE 12,5% 28% 18% - 50% 28% 27% 45% 50% - 45% 18% 37,5% 28% 18% - BULAS - 28% 18% - 87,5% 86% 64% 82% - - - - CALENDARIO 62,5% 57% 45% 27% 37,5% 86% 54% 91% 37,5% 14% 36% 9% - 43% - 18% CARDAPIO 12,5% 14% - - 14% 14% 27% 9% 50 57% 82% 27% - - 18% - CARTA 37,5% - 9% - 87,5% 28% 27% 64% 12,5% 14% 27% - 12,5% - - - CARTAZES 12,5% 57% 9% 9% 62,5% 14% 27% 18% 12,5% 14% 18% 27% 37,5% 43% 18% 27% HQS - - - - 62,5% 57% 36% 45% 50% 14% 45% 27% - - - - JORNAL 37,5% 28% 9% - 50% 57% 45% 64% 25% 14% 54% 9% - 14% - - LETREIROS DE ONIBUS 37,5% 28% 18% 18% 12,5% 14% 18% 9% 37,5% 57% 36% 54% - 14% - 9% TAREFAS ESCOLARES 12,5% - 9% - 75% 86% 27% 82% 12,5% - 9% - - - - - LISTAS DE COMPRAS 25% 28% 27% - 62,5% 43% 73% 82% 12,5% - 9% - 25% - - 9% LITURGIA DE MISSA - 14% - - 12,5% 28% - 9% 12,5% - 9% - 87,5% 57% 73% 91% POEMAS - - - - 37,5% 43% 18% 45% 37,5% 14% 54% - - - - - NOMES DE RUAS 25% 28% 27% 27% 25% 28% - 27% 50% 14% 18% 27% 37,5% 14% 9% 9% NOTAS FISCAIS 37,5% 43% 18% 9% 50% 28% 27% 36% 12,5% - - - 37,5% 14% - - OUTDOORS/ ANUN. PUBL. 37,5% 14% 18% 18% 25% 28% 54% 27% 62,5% 14% 36% 18% 37,5% 14% - 9% RECEITAS CULINARIAS 12,5% - 18% - 62,5% 28% 27% 54% 12,5% 14% 18% 9% - - - - RECEITAS MEDICAS - 14% 18% - 100% 86% 54% - - - - 91% - - - - REVISTAS 37,5% 28% - 9% 37,5% 71% 73% 73% 50% 28% 73% 27% 12,5% - - - ROTULOS 37,5% 28% 18% - 75% 43% 9% 64% 25% - 9% 18% - - - - TABELA DE PREÇOS 25% 28% 18% 9% 12,5% 28% 9% 27% - 14% 9% 18% - - - -

Os dados apresentados na tabela 36 nos mostram que:

i) todas as turmas participam de eventos de letramento presentes nas quatro esferas, sendo que a esfera onde há uma menor presença dos eventos é a religiosa e aquela em que há maior participação é a familiar;

ii) o 3º bloco do grupo controle é a turma que apresenta um maior número de participação em eventos de letramento;

iii) o 4º bloco do grupo experimental é a que tem um menor número de participação em eventos de letramento.

A discussão da relação entre a participação em eventos de letramento e a proficiência na produção textual tornou-se ainda mais importante ao detectarmos, nos itens 4.1 e 4.2, a qualidade de alguns textos produzidos pelos alunos do grupo controle, sendo que os alunos do grupo controle não tiveram um ensino sistemático do gênero textual no contexto das aulas de produção de texto.