I. Enquadramento teórico
1.6. Desemprego e bem-estar
Ainda que nos dias atuais as relações de trabalho tenham passado por profundas transformações, que trouxeram novas formas de se pensar a atividade laboral e a progressão de carreira (Ferreira, Freitas, Costa, & Santos, 2010), é inegável a importância do trabalho enquanto categoria social e o papel profissional como parte da identidade do indivíduo (Antunes, 2013; Blustein, 2008). Quando se perde esse papel fundamental, há dois tipos de implicações económicas, a saber, as dificuldades económicas e a pressão económica (Conger & Conger, 2002). Segundo os autores, o primeiro conceito estaria relacionado a problemas externos que interferem na família (e.g., diminuição da renda familiar decorrente da perda de emprego de um dos cônjuges) e o segundo com a vivência de tais dificuldades e que se refletem diretamente num aumento de stress (e.g., medo de perder a casa por não conseguir pagar a renda, pressão sobre o outro cônjuge para manter-se no emprego, preocupação com o bem- estar dos filhos etc.), impactando negativamente no individuo e no seu cônjuge.
Deste modo, considerando os vários subsistemas na família (conforme referido anteriormente), o desemprego enquanto stressor externo terá um efeito no desempenho e na satisfação em cada um desses subsistemas, nomeadamente o individual (satisfação com a vida), conjugal (satisfação com a relação) e parental (satisfação parental). De seguida, são revistos estudos que
37 demonstram como a situação de desemprego poderá afetar cada uma dessas dimensões de satisfação para o próprio elemento do casal e para o seu cônjuge.
1.6.1. Desemprego e satisfação com a vida
Na literatura, estudiosos têm evidenciado que pessoas em situação de desemprego apresentam menor satisfação com a vida do que pessoas empregadas (Kassenboehmer & Haisken-DeNew, 2009; Luhmann, Lucas, Eid, & Diener, 2012; Oesch & Lipps, 2013). Para além disso, em casais, esse decréscimo de satisfação com a vida pode ser observado não só na própria pessoa em desemprego, mas também no seu cônjuge (Knabe et al, 2015; Mendolia, 2014), havendo evidências de que esse efeito secundário estaria mais presente nas mulheres relativamente à situação profissional de seus maridos (Haid & Seiffge-Krenke, 2013).
Em um estudo conduzido por Luhmann, Weiss, Hosoya, e Eid (2014), observou-se que “ter filhos” gerava um maior impacto negativo sobre a satisfação com a vida dos homens do que sobre a das mulheres em desemprego. Esse prejuízo maior para os homens pode ser interpretado à luz das questões de género discutidas anteriormente. De fato, se o papel tradicional do homem implica a provisão da família, quando ele se encontra em desemprego o seu contributo para a família estará comprometido. Se existirem filhos, não só este contributo se torna mais relevante, do ponto de vista prático e económico, como também seria fundamental do ponto de vista do exercício do papel parental. Estudos mostram que, após o nascimento dos filhos, o investimento profissional dos pais tende a aumentar, enquanto as mães aumentam o seu investimento familiar no desempenho de tarefas domésticas e de cuidado aos filhos (Kaufman & Uhlenberg, 2000). Deste modo, homens em situação de desemprego – e em particular aqueles com filhos – poderão percecionar menor satisfação com a vida. No entanto, há outros aspetos (como características individuais e de traços de personalidade) que poderão alterar o efeito do desemprego na satisfação com a vida, atenuando ou exacerbando este impacto.
38 A perda do emprego pode ter efeitos negativos sobre a satisfação conjugal, dado que a pressão exercida sobre o cônjuge empregado afeta a sua capacidade de oferecer apoio ao cônjuge em desemprego, resultando num aumento da tensão conjugal (Conger & Conger, 2002). Ao analisar casais em situação de desemprego, Vinokur, Price e Caplan (1996) verificaram que o aumento da pressão económica gera, em ambos os parceiros, um aumento de sintomas depressivos. Devido a isso, a capacidade individual de oferecer apoio um ao outro é afetada, prejudicando assim a satisfação conjugal e potenciando o surgimento de sintomas depressivos no cônjuge em desemprego. Numa revisão sistemática de literatura, Fonseca, Cunha, Crespo, e Relvas, (2016) observaram que o aumento da tensão conjugal causada pelo desemprego gera efeitos na comunicação entre os membros do casal, evidenciado em comportamentos mais hostis e falta de suporte oferecido ao cônjuge. O aumento das discussões entre o casal diante da pressão económica resultante da situação de desemprego (Kinnunen & Feldt, 2004) é particularmente relevante, dado que este tipo de discussões são as mais problemáticas e de difícil solução entre os cônjuges (Papp, Cummings, & Goeke-Morey, 2009). Assim, o desemprego estaria associado a uma diminuição da satisfação conjugal e ao aumento da probabilidade de divórcio do casal (Amato & Beattie, 2011; Hansen, 2005; Roy, 2011). No entanto, esse aumento da probabilidade de separação do casal parece ser maior nos casos em que o cônjuge em desemprego é o homem (Jensen & Smith, 1990; Kippen, Chapman, Yu, & Lounkaew, 2013). Alguns fatores parecem ainda potencializar o efeito do desemprego masculino sobre a probabilidade de divórcio, como o tempo de desemprego, baixo rendimento familiar e baixo nível de escolaridade dos cônjuges (Doiron & Mendolia, 2012; Nilsson, 2008).
Com base no exposto, parece que o desemprego dos homens acarreta maior impacto negativo sobre a satisfação conjugal. Contudo, dimensões individuais e conjugais poderão contribuir para explicar esta associação entre o desemprego e a satisfação conjugal, como a capacidade de dar e receber apoio ou a coesão da própria família. Estas dimensões serão exploradas mais à frente.
39 No seio da família, o desemprego ameaça aquele que talvez seja um dos principais papéis dos pais, que é o de prover meios necessários para o desenvolvimento dos filhos (Voydanof, 1990). Numa revisão recente, Fonseca et al., (2016) verificaram que a tensão económica experienciada na situação de