OS TRÊS CAPADOCIANOS
O DESEN VO LVIM EN TO DO CONCEITO DE IG R EJA
Como já vimos, a teologia em geral adquiriu forma no conflito com pontos de vista heréticos ou divergentes. Assim também aconteceu com o conceito de igreja; desenvolveu-se, em parte ao menos, como resultado da oposição do gnosticismo e outras escolas de pensamento estranhas.
O desenvolvimento que teve lugar nesta área, durante o primeiro pe ríodo da história da igreja, resultou no surgimento de um padrão mais ní tido de organização eclesiástica e também na elaboração de idéias desti nadas a justificar e apoiar essa consolidação externa da vida congregacio- nal. Ao mesmo tempo, diferentes conceitos sobre a essência da igreja, sua santidade e sua relação com a organização externa estavam rivalizando uns com os outros.
Inácio, que foi executado pelos romanos no início do segundo século, salientou a importância do cargo do bispo como vital à defesa da igreja. Os gnósticos, com suas doutrinas falsas, ameaçavam destruir a fé e a uni dade da igreja. Portanto, os fiéis eram convocados para cerrar fileiras em torno dos bispos, que sucederam os apóstolos como dirigentes das con gregações. Os bispos assumiram e ssa posição porque representavam a tradição apostólica e, dessa maneira, garantiam a pureza da doutrina em conexão ininterrupta com os apóstolos. É por ordem divina que cada con gregação se une em torno de um cabeça comum, assim como os apóstolos se uniram em torno dé Cristo. A igreja é uma, santa e universal porque preserva a verdadeira tradição apostólica. E esta unidade se expressa nos bispos. Outra idéia atribuída a Inácio é que a unidade da igreja se explica pelo fato de se r ela o único administrador dos meios da graça. O s sacra mentos constituem a igreja tão bem como a Palavra, a doutrina pura, e e s tes obrigam os fiéis a se manterem unidos em torno do ofício episcopal. Outros teólogos expressaram estas mesmas idéias, que representam a an tiga tradição oriental (por exemplo: Irineu).
O conceito romano de igreja, por sua vez, foi desenvolvido mais tar de e especialmente em solo ocidental. A questão da igreja adquiriu impor tância extraordinária também no Ocidente, mas por outro motivo que no
Oriente. O desenvolvimento do conceito de igreja no Ocidente foi condi cionado por vários problemas relativos tanto à teoria como à praxe ecle siástica. O conceito romano tomou forma como resultado de prolongadas discussões em torno de problemas tais como penitência, a santidade da igreja e a validez do batismo de hereges.
Os aspectos básicos da teoria e praxe da penitência que caracteri zaram a igreja antiga reapareceram nos escritos de Tertuliano. Deve-se salientar que esse conceito de penitência é diferente do mantido pelos pro testantes. A tradição protestante mais antiga descrevia a penitência como
obra de lei e evangelho, pela qual o homem é aterrorizado pela lei e re nascido pelo evangelho. A penitência era assim definida em termos de con trição e fé. Como Tertuliano a concebia, a penitência era o caminho pelo qual o homem reconquista a paz com Deus. Deus se ira contra o pecador, e pune o pecado segundo sua norma de justiça. Mas em sua graça tornou possível ao homem receber perdão e viver novamente em relação correta com Deus. Essa «escapatória» era a ação da penitência, que era conside rada, até certo grau, como obra de mérito, que aplacava a ira de Deus. Compõe-se de contrição, confissão e satisfação. A primeira penitência a s socia-se ao batismo, que é uma confirmação do perdão do pecado. Depois de serem batizados os cristãos devem evitar pecados evidentes. Mas, caso acontecer que pequem, podem ser restaurados em virtude de segunda ação de penitência. Acreditava-se que podia haver apenas uma ação de penitên cia após o batismo. Originalmente Tertuliano sustentava que uma segunda penitência poderia ser possível, até mesmo para pecados mortais, mas ao ficar montanista insistiu que os que cometeram pecado mortal após o ba tismo não podiam realizar ação de penitência. Realmente, foi a posição indulgente da igreja, neste problema, que levou Tertuliano a unir-se aos montanistas.
O problema mais delicado relativo à praxe da penitência dizia respei to à possibilidade da segunda ação de penitência. Alguns comparavam a penitência a uma prancha na água à qual os cristãos se agarravam depois do naufrágio de sua fé. Mas outros adotaram o ponto de vista mais rigo roso de Tertuliano, e sustentavam que para pecados mortais como idolatria, assassinato e adultério, a penitência estava fora de questão.
Foi neste contexto que o bispo Calixto de Roma (217-22) promulgou uma ordem permitindo uma segunda penitência, mesmo em casos de peca dos mortais. Em vista do fato que Cristo tivera misericórdia da adúltera, julgou que o clero podia prosseguir dando a absolvição a pecados graves (embora não a assassinato e idolatria). Calixto reivindicou para os bispos o direito de assum ir a responsabilidade pela praxe da penitência e de to mar as decisões necessárias relacionadas com o caso. A penitência che gou a se r considerada, pois, como algo sobre o que a igreja tinha jurisdi ção, a qual foi colocada nas mãos dos bispos.
Mas Calixto sofreu a oposição de Tertuliano e Hipólito, os quais exi giam interpretação mais rígida. Diziam que apenas Deus pode perdoar pe cados, e rejeitavam a opinião que os bispos (como sucessores de Pedro) tinham tal poder. A tradição original, mais antiga, se reflete nesta crítica daqueles que se opuseram às tendências hierárquicas, e procuraram ao mes mo tempo manter um conceito mais rigoroso de penitência.