Desenho + Projeto + Ecologia
4.2 Desenho, Desenho Industrial e Planejamento de Produto
O Desenho, “agente revolucionador de idéias” (Rui Barbosa, 1882), precisa ser percebido como “a intervenção concreta na realidade para se criar, de- senvolver e produzir algo” (Gomes, 1996, p. 97); e o Desenho Industrial, conforme Bonsiepe, apud Gomes (1996, p.94), “um instrumento de transfe- rência da dependência tecnológica em interdependência tecnológica, dentro de uma nova concepção da economia internacional”. É necessário levar em conta três aspectos ao se estudar questões relativas ao Desenho Industrial; (i) o educacional, (ii) o cultural e (iii) o profissional.
Sob o ponto de vista Educacional recorre-se à Louis Bruce Archer que publicou o ensaio intitulado “Tempo para uma revolução na educação da arte e do desenho”. Baseado neste texto e no discurso deste professor, defende- se “que todo o saber humano transmitido através da Educação Formal está dividido em três grandes áreas, as Ciências, as Humanidades e os Dese- nhos, com “D” maiúsculo e no plural, pois desta área fazem parte mais que o desenho industrial”.
Sob o ponto de vista da Cultura, o Desenho ocupa um lugar de desta- que, pois “é o responsável pelas atualizações, evoluções e modernizações, com verdadeiras mudanças para a sociedade”. Está dividida em três pontos; (i) Cultura Ideacional, (ii) Comportamental e (iii) Material.
Relacionado à prática Profissional, a área dos Desenhos está dividida entre o Desenho (i) Espontâneo, presente em todos os indivíduos, indepen- dente de ensino; (ii) Expressional, amplo campo de estudo e aprendizagem relacionado aos pontos básicos da expressão gráfica humana; e (iii) Industri- al, o desenho de projeto que revela as habilidades mentais e manuais do desenhador ao idealizar e materializar produtos voltados para a produção industrial; servirá de base para a produção industrial de produtos de capital, consumo e serviços; realizado em sociedades onde a economia está alicer- çada na indústria; através do trabalho e do capital, promove a transformação de matérias-primas em bens industriais.
O Desenho Industrial é formado por duas categorias distintas, o (i) De- senho Operacional: possui como objetivo “a representação, a comunicação
fabricação”, onde tem-se desenho-de-imitação, desenho-de-definição e de- senho-de-convenção”; e o (ii) Desenho Projetual: objetiva a “concepção, a projetação das características formais, informacionais, e, dependendo do produto, até funcionais de um produto”, divididos em desenho-de-ambiente, desenho-de-artefato e desenho-de-comunicação” (Gomes, 2001).
Joaquim Redig, há mais de vinte e cinco anos, formulou a definição para Desenho Industrial agregando elementos e fundamentando o fazer do dese- nho-industrial na atividade que tem por fim transformar uma necessidade em produto industrial, reunindo atributos lógico-informacionais, técnico-funcionais e estético-formais (Matté, 2002).
A disciplina de Planejamento de Produto do PPGEP/UFSM, definiu as- pectos de ordem doutrinária, na condução das atividades mentais e manuais que propiciaram o desenvolvimento deste trabalho. Para isso foi fundamental o modelo de planejamento de produtos industriais proposto. O Planejamento Industrial permite fundamentar a base de crescimento de uma empresa. Tratando-se de uma atividade multidisciplinar, vários profissionais, de várias áreas, estão envolvidos em atividades como, (i) identificar problemas existen- tes na empresa ou no Mercado de Trabalho; (ii) pesquisar soluções para estes problemas; e (iii) antecipar e propor negócios e produtos, ampliando o Campo de Atuação.
O Planejamento de Produto é a disciplina mais próxima ao Desenho In- dustrial em termos de interesses e competências, pois, de acordo com Me- deiros & Gomes (2003, p. 82), diz respeito à: “organização de equipes; à seleção de produtos para desenvolvimento; ao desenho de projetos; à de- marcação dos processos produtivos mais adequados; e à caracterização do ciclo de vida do produto no mercado”. Ele se dá durante todo o processo e de acordo com Ireland & Cleland (2002), os fatores que contribuem para o su- cesso de um projeto são: acompanhamento adequado, planejamento efetivo, desenho organizacional apropriado, cronograma, compromisso no projeto, autoridade e responsabilidade delegadas.
Conforme pôde ser constatado no Capítulo III, embalagens de comercia- lização acessórias apresentam um ciclo de vida curto. Assim, identifica-se a necessidade de interferência em seu planejamento, visando uma permanên-
cia maior no mercado; e uma nova oportunidade de trabalho, representando a preocupação ecológica do desenhador.
É função do Desenho Industrial, no estudo do ciclo de vida, coordenar as fases pelas quais o produto passa com ações de projeto, de acordo com Archer, apud Medeiros & Gomes (2003, p. 83), “haverá ações de projeto adequadas ao lançamento, ao refinamento, ao melhoramento, à diversifica- ção e ao relançamento do produto”. Archer, em seu livro “Design Awareness and Planned Creativity in Industriy” (Fig.40) apresenta as fases do ciclo de vida dos produtos industriais, dividida em: Desenvolvimento, Introdução, Refinamento, Melhoramento e Diversificação e ressalta o papel dos dese- nhadores na equipe de projeto e seus objetivos em cada uma destas fases.
Em 1998, Gomes & Medeiros, redesenham o gráfico do ciclo de vida de produtos industriais (Fig.41), enfatizando o papel de desenhadores industriais e engenheiros de produção nas fases e etapas deste ciclo. É composto, então, pelas Fases – Pré-Natal, Natal, Pós-Natal – e Etapas – Concepção, Gestação, Nascimento, Infância, Adolescência, Maturidade, Velhice, Senili- dade – em uma associação real com os períodos de vida de um ser vivo. Esta proposta possui como doutrina que, produtos bem sucedidos são aque- les que possuem uma bem fundamentada etapa de Concepção e, principal- mente, uma Gestação tranqüila e saudável.
As três fases apresentam-se da seguinte ordem, (i) Pré-Natal, etapas de Concepção e Gestação, deve-se pensar o produto através da qualidade e organização da equipe de planejamento do projeto e desenho do projeto; (ii)
produto, promoção da mercadoria, estratégias de lançamento, controle de qualidade e pesquisa comportamental do mercado; e (iii) Pós-Natal, etapas de Adolescência, Maturidade, Velhice e Senilidade, otimiza-se e ajusta-se a produção, aprimorando o desenho do produto, controlando a qualidade da produção e do produto e também promovendo a marca.
A obsolescência é uma etapa prevista no Ciclo, mas, muitas vezes, não é incluída como parte do projeto, fato comprovado a partir do grande número de embalagens com descarte imediato e posterior, coletadas na pesquisa e apresentada no Capítulo de Dados.
A consideração consciente e eficaz das fases de obsolescência e descarte dos pro- dutos industriais é a primeira posição que o Desenho Industrial deve tomar na mu- dança de paradigmas no planejamento de produtos: é um necessário ajuste ao novo momento social, econômico e técnico. (...) Considerar o Desenho Industrial como disciplina transversal no planejamento de produtos é a segunda mudança necessária de paradigma. (...) O terceiro ponto de quebra de paradigma: a educação para o desenho-projetual (Medeiros & Gomes, 2003, p. 83-86).