CAPÍTULO 5 CONSIDERAÇÕES METODOLÓGICAS
5.3 Desenho do estudo
A abordagem aqui utilizada procurou identificar os diferentes tipos de situações nas quais acontecem os homicídios de mulheres, comparando-as com as situações nas quais os homens são assassinados. Buscou-se identificar os contextos da produção de homicídios em Pernambuco, com o intuito de descrever e compreender os processos sociais presentes nas situações de violência letal.
Tratou-se de estudo de corte exclusivamente quantitativo, no qual foram trabalhadas informações de todos os municípios de Pernambuco, a partir das bases de
dados do Sistema de Informações Policiais da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (INFOPOL-SDS)47, do Sistema de Informações de Mortalidade do DATASUS (SIM-DATASUS) e da base de indicadores do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal, do IBGE (IDHM-IBGE)48.
De maneira esquemática, o processo de produção das informações está descrito no quadro 11:
Quadro 11 – Processos de produção de informação
Processos Fontes de informação
Descrição e análise comparativa da ocorrência de homicídios, de acordo com
sexo da vítima e outras variáveis SIM-DATASUS Infopol-SDS Identificação das configurações de homicídios, de acordo com sexo da vítima e
regiões do estado Infopol-SDS
Identificação dos fatores associados à ocorrência de homicídios, de acordo com
sexo da vítima Infopol-SDS IDHM-IBGE
Fonte: Elaboração própria.
O trabalho apoiou-se exclusivamente em estatísticas oficiais, um tipo de informação que vem se mantendo no centro dos debates metodológicos sobre criminalidade e violência. A opção por utilizar estatísticas oficiais não pode desconsiderar os problemas trazidos por esse debate que, evidentemente, coloca limites à análise. CAMPOS COELHO (2004), por exemplo, acredita que o processo seletivo na produção de informações oficiais é de tal monta que impossibilitaria o uso dessas estatísticas para testar hipóteses que procurem associar variáveis sociais à criminalidade. Corretamente, o seu argumento enfatiza a preocupação com as definições sociais de crimes e criminosos, que encobrem um conjunto importante de delitos, cometidos por pessoas que detém certas imunidades institucionais diante da polícia e do sistema de justiça, constituindo o que se denomina cifra oculta, ou seja, um número significativo de crimes que não chega ao conhecimento do sistema de segurança e justiça ou, quando chega, não é solucionado ou punido, beneficiando certos atores em detrimento de outros (PORTELLA et al, 2011).
47 A SDS-PE autorizou formalmente ao Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Criminalidade, Violência e Políticas Públicas de Segurança-NEPS/UFPE, do qual faço parte, a utilização de todos os bancos de dados.
Mas a avaliação da qualidade de dados oficiais tem sido tratada por diversos autores (KAHN, 2012; FBSP, 2013; WILLIAMS, 2004; MAGUIRE, 2002, entre outros), revelando a melhoria ocorrida nos últimos anos, o que possibilita seu uso com segurança. CERQUEIRA (2013), por exemplo, avalia especificamente os dados produzidos pelo sistema de saúde para os óbitos por causas externas, mas os parâmetros que utiliza para isso podem ser estendidos para os dados oriundos do sistema de segurança e justiça. São eles:
“i) abrangência e cobertura do registro de óbitos; ii) classificação correta da causa do óbito, quando definida; iii) inexistência de óbitos com causa indeterminada; e iv) preenchimento das informações relacionadas à vítima e ao incidente.” (CERQUEIRA, 2013: 13-14)
No nível mais básico da cobertura do registro e da quantificação geral dos casos, o fato de trabalhar com homicídios oferece uma margem de segurança um pouco mais robusta do que se o foco estivesse em outros tipos de crime, que podem ser mais facilmente omitidos ou ignorados pela Justiça. No caso dos homicídios, as margens de incerteza flutuam, por um lado, entre a determinação da causa do óbito como acidente, suicídio ou homicídio propriamente dito e, nesse último caso, entre as interpretações que designam suas diferentes qualificações penais. A natureza trágica das mortes violentas, associada às iniciativas de maior controle das informações sobre mortalidade no país pelo Ministério da Saúde e das informações sobre o crime violento por parte de da Secretaria Nacional de Segurança Pública e de alguns governos estaduais, tem reduzido substancialmente o sub-registro. Assim como para outros registros da área de saúde, há variações regionais quanto à qualidade da cobertura e, ainda, situações próprias a alguns contextos violentos – como cemitérios clandestinos ou desaparecimento de corpos – que respondem por parte dos casos não notificados. Mas, em alguns estados brasileiros – e Pernambuco é um deles -, é possível afirmar que as bases de dados que reúnem os casos de morte violenta chegam muito próximo do universo total de casos acontecidos na última década (PORTELLA et al, 2011).
O Fórum Brasileiro de Segurança Pública49, por sua vez, avalia a qualidade dos dados estaduais a partir da convergência entre as informações oriundas do sistema de saúde e das secretarias de segurança pública, em termos da magnitude e da tendência dos homicídios, e a partir de critérios relacionados à produção e controle das
informações no âmbito exclusivo da segurança pública. Fazem parte desse segundo critério
“Dimensões relacionadas à qualidade da informação, como estrutura do órgão de estatística, transparência dos dados, procedimentos de controle, cobertura e forma de coleta, definições e usos das estatísticas dentro e fora das instituições policiais.” (KAHN, 2012: 117)50.
Os estados brasileiros foram analisados e classificados de acordo com a aproximação ao modelo definido pelo FBSP, a partir da utilização de três métodos distintos (ranking simples, análise fatorial e agrupamento em dois estágios). Nos três casos, Pernambuco manteve-se no grupo que apresenta alta qualidade da informação e, além disso, também alimenta adequadamente o Sistema Nacional de Estatística em Segurança Pública e Justiça Criminal (KAHN, 2012).
Os pontos b e c apontados por CERQUEIRA – classificação correta e não determinação da causa – são interrelacionados e, a partir deles, o autor analisou os dados do SIM para identificar a existência de sub-registro de homicídios e estimar a proporção e as taxas do que ele denominou “homicídios ocultos” em todos os estados do Brasil, entre 1996 e 2010. A partir da categoria ‘causas indeterminadas’, atribuída às mortes por causas externas, o autor estimou que o número de homicídios no país seria 18,3% superior aos registros oficiais. A morte violenta indeterminada deveria ser rara, mas no Brasil, em 2010, cerca de 10,3% do total das mortes violentas foram classificadas dessa forma (CERQUEIRA, 2013: 7).
Pernambuco está entre os sete estados em que cresceram os registros de causas indeterminadas para as mortes por causas externas, apresentando uma taxa média de homicídios ocultos de 5/100 mil habitantes. A classificação desses casos como
50 Em um modelo ideal de produção de estatísticas, segundo KAHN, o órgão de produção das estatísticas deve contar com quantidade adequada de funcionários, com estatísticos na equipe, trabalhar com dados georreferenciados, contar com setor de controle de qualidade e dispor de regulamentação que estabeleça indicadores, fluxos e prazos para o envio de estatísticas. Os dados devem ser tornados públicos, periodicamente e o mais desagregado possível. Deve-se adotar procedimentos de controle para checar a consistência das informações, permitir a correção posterior das informações e ser fiscalizado por algum órgão externo. A cobertura deve ser a mais ampla possível, os registros podem ser feitos pelas vítimas pela internet e o deve-se contar com fontes alternativas ao Boletim de Ocorrência para a análise criminal. O sistema informatizado especializado deve contar com recursos como checagem automática de inconsistências e tabelas de auxílio ao preenchimento dos campos fechados. A contagem de casos deve se basear na maior quantidade possível de ocorrências, permitir a contabilização de incidentes e de vítimas e separar adequadamente os diversos tipos de autores (crianças e adolescentes, policiais etc.). Deve-se realizar reuniões de análise e planejamento com base nas evidências coletadas, com sistema de metas e recompensas e os dados desagregados devem ser disponibilizados para as polícias, Senasp e comunidade acadêmica (KAHN, 2012: 117-118).
homicídio levaria a taxa estadual de 2010 para 44,8/100 mil habitantes, em lugar dos 39,2 encontrados pelo SIM ou dos 39,7, de acordo com os dados da SDS - uma diferença de 14% (ou de 12,8% se tomamos a taxa da SDS). Essa diferença se torna problemática se corresponder a um único tipo de homicídio, podendo, assim, produzir algum grau de viés na análise das configurações. Mas, na impossibilidade de checar essa caracterização, assume-se aqui que esses casos representam o universo total dos CVLI ocorridos em Pernambuco, ou seja, distribuem-se de forma aleatória entre todos os tipos identificados.
Mas, além do registro do caso e da determinação da causa mortis, o processo de produção das informações específicas sobre cada caso de homicídio sofre a ação da seletividade apontada por CAMPOS COELHO (2004), sobretudo no que se refere às características sociodemográficas de vítimas e agressores e às características do fato. Aqui, a confiabilidade das informações é diretamente informada pelas percepções de policiais e profissionais de saúde a respeito das dinâmicas sociais que produzem a morte violenta e, sobretudo, por suas concepções sobre perfis de agressores e vítimas. Em Pernambuco, porém, no que toca especificamente ao preenchimento desses campos no SIM, a qualidade do registro melhorou substancialmente. Em 1996, 37,3% dos casos de morte violenta apresentaram problemas de não preenchimento das informações socioeconômicas e situacionais. Em 2010, essa proporção foi reduzida para 11,1% (CERQUEIRA, 2013: 24), o que é um avanço, ainda que o preenchimento por si só não garanta a correção da informação.
O SIM é um sistema de informações que tem ganhado consistência e confiabilidade ao longo dos anos, mas ainda apresenta limitações. O sub-registro é uma das mais importantes e resulta da existência de sepultamentos não registrados, que reduz o número de óbitos declarados, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, fazendo com que a qualidade das informações seja menor nos locais distantes dos centros urbanos, nos municípios pequenos e com estrutura deficitária de serviços. Em 1992, o sistema registrava em torno de 80% dos óbitos acontecidos no país mas, em 2011, essa cobertura chegou a 96,1%, de acordo com o próprio Ministério da Saúde, sendo próxima de 100% em quase todas as UFs das regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste.
Em 2011, Pernambuco registrou 1,62% de não preenchimento do campo ‘circunstâncias do óbito’ na declaração de óbito, abaixo, portanto, da proporção
nacional. Um outro indicador de qualidade da informação é a proporção de óbitos por causas mal definidas, geralmente associada a dificuldades de capacitação profissional e de infra-estrutura dos serviços de saúde. Em Pernambuco, a qualidade da informação melhorou substancialmente de 2004 a 2008, indo de 16,2% para 5,2% a proporção de óbitos por causas não definidas. A partir daí, tem se mantido estável, com uma pequena elevação de 0,2% em 2010. Observe-se que, aqui, trata-se de todos os óbitos e não apenas daqueles provocados por causas externas, como no estudo de CERQUEIRA (2013).
O reconhecimento dessas questões aponta para os limites a serem considerados na análise, mas não se configura como um elemento impeditivo do uso das bases de dados, amplamente utilizadas na pesquisa social. Uma das formas de dar maior consistência aos dados é contrastar diferentes fontes de informação e isso foi feito aqui. As fontes da SDS foram comparadas e complementadas com informações oriundas de outras bases, como os registros do Ministério da Saúde e do IBGE (PORTELLA et al, 2011). Na próxima seção, as fontes são descritas com maior detalhamento.