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3 UM OLHAR SOBRE OS AUTOS DO PROCESSO-CRIME DA BARONESA

3.4 O desenlace do processo

Logo que proferida a decisão, Celso Magalhães apresentou recurso contra a impronúncia alegando ao Supremo Tribunal da Relação ter o juiz da causa orientado sua conclusão com base, essencialmente, no exame de corpo de delito, não privilegiando assim, as informações oriundas dos depoimentos das testemunhas, por esse motivo reclamou que:

... o delicto não se prova unicamente com o exame res/pectivo e, para a sua verificação, attendem-se á todas/ as circunstancias anteriôres, concumitantes e poste/riôres, levam-se em conta todos os factos que podem/ esclarecer e, na pronuncia, dirige-se o processo para/ o tribunal do jury, afim de ahi ser plenamente/ [fl.340] discutido perante os juizes populares, que tem o poder discrec/cionario de condemnar ou absolver (AUTOS, 2009, 455).

Magalhães acrescenta à sua argumentação ter sido este um princípio legislativo para o qual o juiz deu pouco peso não apenas por desqualificar a praticidade do conteúdo deste documento, mas também por não agregar a ele uma leitura sustentada em elementos morais, o que com isso, não retirava seu valor jurídico, critério necessário para provocar uma convicção lógica e razoável sobre o caso.

O corpo de delicto não é unicamente um acto de verificação/ material do crime, que deixe de parte o exame dos ele/mentos moraes, que possa ser encarado somente pela/ descripção physica do objeto examinado. Para que elle/ possa valer, deve acompanhal-o um concurso de elemen/tos moraes, que – comparado com o facto incrimina/do – dê em conclusão um resultado lógico (AUTOS, 2009, p.456).

Seguindo esta perspectiva, Magalhães alega que, embora as respostas contidas no exame não tenham sido marcadas pela exatidão, em casos desta natureza exige-se uma análise calcada em afirmações históricas sob as quais

repousa um encadeamento de probabilidades racionais que ao juiz incumbe pesar

antes de declarar sua posição, posição esta que deve estar submetida a uma interpretação que faz acerca do conjunto das peças reunidas no decorrer não apenas do procedimento cadavérico, mas também da coleta de provas e depoimentos de testemunhas.

Somado às razões do recurso, o promotor anexou uma certidão em que procurou demonstrar ter a acusada o hábito de maltratar seus escravos, informação esta, segundo ele, sancionada mesmo pela voz pública, através dos fatos que narram diariamente a seu respeito. No conteúdo deste documento descreve-se que:

Aos dose dias do mes de Agosto de/ mil oitocentos setenta e dous, nesta/ Cidade do Maranhão, na Secretaria/ de Policia, onde se achava o Senhor/ João Hircano Alves Maciel, Chefe de/ Policia, ahi compareceu/ Dona Anna Rosa Vianna Ribeiro, se/nhora da escrava Ignez, crioula, de/ desaseis annos de idade pouco mais/ ou menos, que vindo pedir garantias/ pelo seu bom tratamento, visto como/ tem sido castigada immoderada/mente, o mesmo Doutor Chefe de Policia/ mandou lavrar o presente termo de/ responsabilidade, pelo qual se obrigou/ a mesma Senhora Dona Anna, no caso/ de querer continuar a possuir a dita/ escrava, a tratal-a bem, deixando de/ a castigar immoderadamente debaixo/ das penas da lei, assim como obrigou/se tambem a mandar apresentar nes/ta Repartição a dita escrava sempre/ que for para isso exigido. Para cons/tar lavro o presente termo, em que as/signou, e rubricado pelo Dou/tor Chefe de Policia. Eu Antonio Fran/cisco de Salles Junior, amanuense o [fl.356] escrevi. João Hircano. D. Anna Rosa Vianna. Termo de entrega... (AUTOS, 2009, p.504).

Baseando-se neste termo de responsabilidade Magalhães endossou o questionamento sobre a procedência de vida da ré, antes de sua denúncia formal, fosse tão ilibada quanto pregava seu advogado, argumento por si só favorável ao exercício jurídico e legítimo da promotoria, pois, amparando-se nas leis do Código de Processo Criminal então vigente, era também responsabilidade da esfera pública a proteção do cativo.

Além das razões do recurso e da certidão que declara a prática de maus tratos a escravos por Anna Rosa, Magalhães anexou um requerimento em que constam quesitos que põem em discussão se houve ou não existência de sevicias, se estas apressaram a morte da vítima e, por fim, se existiu carência do tratamento na doença do menor e se esta pode ser considerada natural ou provocada. Ao que os doutores Francisco de Paula Oliveira Guimarães, Augusto Teixeira Belfort Roxo e José Ricardo Jauffret responderam que a morte decorreu de maus tratos, que

embora não se garanta fossem repetidos, contribuíram para acelerar a morte, não podendo se afirmar, com isso, que houve morte natural68.

Seguido ao pedido de recurso pela promotoria e como parte do procedimento judicial, encarregou-se o advogado de defesa, em nome de sua cliente, de elaborar as contra-razões e as anexações de documentos necessárias à sua defesa. Neste arrazoado Francisco de Paula reforça as argumentações elaboradas na defesa anterior considerando que a substância do sumário vai contra os princípios legislativos empregados pelo Código Criminal, o que ficou demonstrado pela constante falta de fundamento da acusação. Insistiu o defensor na ausência do emprego correto das técnicas científicas para a realização do exame de corpo de delito, a partir do qual não ficou certificado a fatalidade do crime e tampouco quem seria seu executor. Com este posicionamento buscou Francisco de Paula reforçar a importância que um laudo cadavérico tem para uma decisão judicial uma vez que, em casos de homicídio, o corpo de delito apresenta-se como meio mais eficaz de verificação de que pode dispor o juiz para fundamentar o conhecimento definitivo do ato criminoso. Nas palavras do advogado:

Os recursos que o processo offerece pa/ra o conhecimento do crime são – art.134 do/ código do processo – quanto aos crimes que dei/xam vestigios que possa, ser ocularmente/ examinados – o auto de corpo de delicto – não/ existindo vestigios – o depoimento de testemunhas/ inquiridas no summario – art. 47 da lei de 3 de desembro de 1841. E deste ultimo/ texto legal decorre que sem corpo de delicto/ não se poderá formar processo por crimes/ que deixam vestigios, visto como o auto/ do corpo de delicto é em taes casos o meio/ único de attingir ao conhecimento pleno,/ exigido pelo artigo 145, da infração da lei/ penal (AUTOS, 2009, p. 512).

Dando sequencia à formalidade processual e tomando por referência os argumentos do recurso da promotoria, o desembargador Antonio Barros Vasconcelos, presidente da Relação desta Província, deu parecer favorável ao andamento do libelo declarando que:

Faço saber, que nos autos de recurso cri/me, em que é recorrente o Promotor Públi/co da Capital, e recorrida D. Anna Rosa/ Vianna Ribeiro, se proferio em 13 do corren/te Accordão dando provimento ao recurso/ para o fim de pronunciar a denunciada/ no art. 193 do Cod. penal, e sujeitando-a/ a prizão e livramento, e mandando lançou/ o seu nome no rol dos culpados – custas a/ recorrida, O que se cumpra,/ remettendo se estes autos ao juízo a quo... (AUTOS, 2009, p.532).

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Submetido às mesmas indagações formuladas pelo promotor Celso Magalhães, o Doutor Manuel José Ribeiro da Cunha foi o único a reafirmar as conclusões do segundo corpo de delito.

À reforma da decisão recorrida através do Tribunal da Relação, no dia 13 de fevereiro de 1877 efetuou-se imediato mandato de prisão contra Anna Rosa, ficou ela recolhida no 5º Batalhão de Infantaria e logo transferida para a Cadeia Pública, situação sine qua non para os padrões de hierarquia da época.

Por meio do libelo acusatório buscou a promotoria provar à Justiça Pública: primeiro, que a ré infligiu sevicias em Innocencio desde o ato de sua compra até o dia de seu falecimento, maus tratos estes verificados no corpo de delito; segundo, que estando o menor acometido por moléstia, teve a morte acelerada por estes castigos; terceiro, tenta provar ainda que o crime executado foi premeditado devido á insistência contínua na aplicação dos castigos estando sua autora ciente das consequências deste ato. Tais circunstâncias não permitem atenuante algum a favor da acusada. Sob estes critérios foram arroladas e submetidas boa parte das testemunhas já declarantes desde a abertura inicial do processo-crime, às quais foram designadas para depor, desta vez, diante do Tribunal do Júri. Quanto à defesa, Francisco de Paula, apresentou em cartório, termo no qual enfatiza a contrariedade do libelo.

Devidamente preparado e apresentado os autos do processo à instância por ele responsável, promoveu-se a sessão de julgamento após leitura dos termos formais para sua abertura com o anúncio das testemunhas oferecidas pelo promotor público, estas, após sorteio do Júri de Sentença, ficaram recolhidas numa sala sem poder ouvir os debates nem as declarações umas das outras.

Nesta etapa, não se lê em detalhes nem a fala da acusação nem da defesa. No documento não ficam registrados o conteúdo de suas argumentações, nele se descreve apenas terem as partes desenvolvido suas posições, expondo provas, fatos e razões que sustentaram ou a culpa ou a inocência da denunciada. Finalizado tal procedimento afirmou o Júri de Sentença estar suficientemente esclarecido para julgar a causa, no que, por unanimidade de votos declararam não ter Anna Rosa Ribeiro castigado ou seviciado o escravinho Innocencio, o que, consequentemente, não pode ser apontado como motivo que levou à morte do mesmo. Conforme este parecer o juiz Umbelino Moreira de Oliveira Lima anunciou: “Em vista da decisão do Jury absolvo a ré/ [fl.398] D. Anna Rosa Vianna Ribeiro da accusação que lhe foi intentada, mando se risque seu nome do rol dos culpados,/ se lhe passe alvará de soltura...” (AUTOS, 2009, p.612).

Ainda como último recurso, requereu o promotor Celso Magalhães permissão para elaborar um arrazoado em que apelava da sentença absolutória para o Supremo Tribunal da Relação. A esta altura, mesmo com o deferimento do órgão judiciário responsável pelo trâmite, se tornavam cada vez menores as possibilidades de que houvesse uma reviravolta no resultado do processo já que nesta fase, não foi acrescentado nenhum novo elemento que viesse a comprometer as argumentações anteriormente expressas pela defensoria.

Dentre as razões da apelação, Magalhães critica, inicialmente, a maneira como foram elaborados os quesitos a que foram sujeitados responder os jurados bem como a incongruência destas respostas. Aponta falhas na garantia de sigilo entre as testemunhas já que, segundo o promotor, estavam as mesmas dispostas em completa comunicação com os espectadores, conversando numa sala francamente aberta ao público, podendo se tomar conhecimento do que se passava no tribunal. Considerou irregular também o andamento do interrogatório da acusada que, segundo ele, teve constante amparo do seu advogado para efetuar suas respostas, atentando Magalhães para o fato de que:

O interrogatório é considerado entre nós como um meio/ de prova (art.94 do Cod. do Proc. Crim), e por isso/ é um acto deixado unicamente á vontade do accusado./ A insinuação de uma pessoa que vê os fatos de fóra,/ na frieza da analyse e do calculo, na sultileza da ex/plicação das circunstancias que poderiam provar o de/licto, é manifestamente illegal e nullifica o acto, tor/nando-o sem valôr moral e juridico (AUTOS, 2009, p.642).

Com base nestas alegações procurou a promotoria atestar suas convicções tomando como referência os depoimentos de algumas testemunhas através das quais, entre alguns silêncios e poucas negações, sobrepôs-se a afirmativa de que houve contato entre a ré e seu advogado bem como entre os integrantes do júri, contrariando assim, o princípio legislativo de isolamento entre todas estas partes.

Numa brevíssima explanação, o advogado de Anna Rosa argumentou não existir razão jurídica para a referida apelação uma vez que as alegações nela contidas são infundadas e carentes de provas sólidas capazes de destruir as afirmativas constantes na ata da sessão do júri.

Cumprida as formalidades do processo e com base na releitura de seu relatório, julgou-se improcedente a apelação interposta da sentença. Findo processo, definitiva absolvição da ré.

Permeando as razões da denúncia, as argumentações da defesa, os recursos, as contra-razões e apelações, enquanto etapas deste processo, exprimiam-se os usos e falas que, através das posturas da acusação e da defesa, se fez e se pode perceber acerca da famigerada instituição escravista no Maranhão, cuja desigualdade social era marcada e mantida, notadamente, por práticas de exploração e violência, que se não inerentes a este tipo de sociedade, como dissemos anteriormente, adquiria nela um âmbito bastante peculiar já que, percebido na condição jurídica de propriedade, o escravo viu-se submetido às mais variadas arbitrariedades daqueles que se atribuíram o direito de serem seus proprietários.

Mesmo com a limitação da esfera de dominação senhorial pela interferência do poder judiciário nas questões escravistas, predominou neste caso criminal a autoridade daqueles que detinham a posse privada do elemento servil. Na realidade, houve uma confluência na atuação do judiciário frente o interesse dos grupos mais abastados da Província, a que pertence a ré, pois, excetuando o posicionamento de Celso Magalhães, prevaleceu neste trâmite (questão bastante emblemática) não o fato de a vítima ter sido castigada, o que segundo os padrões mentais da época era um direito do proprietário, mas, sobretudo, a discussão incidia sobre a qualidade dos castigos, se moderados ou imoderados, se repetitivos ou não, enfim, se aceleraram ou não a morte do menor.

A constatação de que Innocencio teria sido seviciado por Anna Rosa, portanto, perdia seu valor moral diante da leitura jurídica que se fez do caso. O crime em sua autenticidade, o fato tal como ocorreu, foi de certa forma desvirtuado quando submetido aos critérios jurídicos então vigentes. E nesse sentido, concordamos com a argumentação da antropóloga Mariza Corrêa, ao tratar do caráter representativo de um processo criminal, considerando que “no momento em que os atos se transformam em autos, os fatos em versões, o concreto perde quase toda sua importância e o debate se dá entre os atores jurídicos, cada um deles usando a parte do „real‟ que melhor reforce o seu ponto de vista” (CORRÊA, 1983, p.40). Nesse sentido, foi a teatralização do processo em si o que se apresentou de mais legítimo e relevante no caso criminal que envolveu a futura Baronesa de Grajaú.

4 OUTRAS INTERPRETAÇÕES

Não se limitou apenas ao plano jurídico as interpretações feitas sobre este famoso caso criminal ocorrido na capital da Província do Maranhão na segunda metade do século XIX. Outras tantas leituras em torno do mesmo crime encontraram espaço, sobretudo no campo da literatura e da imprensa, revelando ou possibilitando acesso a uma gama mais ampla de explicações sobre o assunto. Por isso, consideramos ser válido trabalhar, neste último capítulo do estudo e com base no material que tivemos condições de dispor, com as falas acrescentadas à compreensão, sob outros ângulos, deste caso criminal.

A atmosfera suscitada em torno do processo judicial a que respondeu Anna Rosa Vianna Ribeiro e, sobretudo da configuração tomada pelo crime em si, permitem entrever, como temos observado desde linhas anteriores, que sua repercussão é reflexo de uma conjuntura econômico-social em que as bases da exploração escravagista encontravam-se então relativamente ameaçadas não apenas pelo problema de abastecimento de mão de obra escrava, com o fim do tráfico negreiro internacional em meados do século XIX e que de alguma maneira afetou o perfil deste tipo de exploração de trabalho, mas também, e o que mais nos interessa pontuar, pela intensificação da intervenção do poder público regulando a relação senhor/escravo somado à presença de uma mais acentuada propaganda abolicionista na Província, encabeçada por segmentos mais intelectualizados e críticos do sistema, ou porque denunciavam a escravidão em termos humanitários evidenciando a degradação da dominação senhorial, ou porque viam no fim legal e inevitável da escravidão a necessidade de reorganização das classes dominantes, como possibilita sugerir, o historiador Josenildo de Jesus Pereira (2009).

Nesta perspectiva, a denúncia formalizada contra a futura baronesa, por exemplo, embora não seja um primeiro registro de acusação legal de um membro das elites da Província maranhense – como bem o atesta o caso Pontes Visgueiro – é mais claramente entendida dentro do quadro de tensões e complexidades que vivia a capital, numa época em que a autoridade senhorial e a arraigada mentalidade escravista perturbavam-se frente aos embates gerados por essa ideologia de libertação dos negros do cativeiro, embates estes amplamente alimentados não apenas pela imprensa local, que, em seus jornais acirravam opiniões apoiando ou negando o sistema escravista, mas também manifestadas na literatura que se