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2.4 Identidade cultural

3.1.1 Desenredando a trama

Para efeitos de melhor compreensão da trama de “A Rosa Caramela”, o conto foi dividido em quatro partes, quatro unidades de

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SANT’ANNA, Affonso Romano de. Análise estrutural de romances brasileiros. 7. ed. São Paulo: Ática, 1990.

significação, representando as diferentes seqüências narrativas do desenrolar da ação. Aproveita-se, para isso, a maneira mesma de organização do texto: em quatro blocos separados por um espaço em branco na página. Essa divisão encontra fundamentação no modo como se dá a narração e no que é tematizado em cada um dos segmentos.

Na primeira seqüência, a narração centra-se na vida da mulher conhecida como Rosa Caramela, nome a ela atribuído por ser mais adequado que o seu verdadeiro. Nos parágrafos iniciais, é apresentada a personagem, na imperfeição física de seu corpo – “corcunda-marreca” (p. 15) – que contrasta com a beleza do rosto – “A cara dela era linda, apesar” (p. 15). Mostram-se também as ações que pratica, como “palavrear com estátuas” (p. 16). Nos parágrafos seguintes, é exposto o motivo pelo qual ela também “se aleijou na razão” (p. 17). Num recuo temporal ao ponto mais distante do momento da enunciação, o narrador conta o malogro da tentativa de casamento de Rosa: a ausência do noivo e a longa espera à entrada da igreja. Depois, conta rapidamente sua passagem pelo hospital, para voltar a mencionar sua relação com as estátuas, com o que se encerra o primeiro segmento.

No segundo, ganha destaque a figura de Juca, pai do narrador- observador. Também ele, assim como Rosa Caramela, é uma personagem diferente. Ao comentar sobre o fato de que os da família observavam a corcunda, sua vizinha, o narrador acrescenta: “Meu pai, sobretudo, lhe via” (p. 18). Além disso, Juca é o único que não ri das brincadeiras a respeito de Rosa e recrimina o comportamento dos demais: “- Ninguém vê o cansaço

dela, vocês. Sempre a carregar as costas nas costas” (p. 18). Quanto a

cansaços alheios. Ele, em si, não se dava a fatigar. Sentava-se. Servia-se dos muitos sossegos da vida”. (p. 18) Juca aparece na narrativa em contraste com a figura do irmão – “homem de expedientes” (p. 18) e a da mulher – “era ela quem metia os pés na vida” (p. 19). Sua ocupação única era “alugar os próprios sapatos” (p. 18). Com sua imobilidade e falta de trabalho (índices negativos dentro de uma organização social capitalista) – justificadas por uma recomendação médica por motivo de problemas do coração – Juca é representado de modo positivo pelo narrador: “Ele era um homem bom. Tão bom que nunca tinha razão” (p. 19).

Na terceira seqüência do conto, instaura-se a complicação. Alguns acontecimentos desestabilizam a situação que se desenhara anteriormente. A quebra dessa estabilidade está bem marcada logo no início do segmento: “E assim, em nosso pequeno bairro, a vida se resumia. Até que, um dia, nos chegou a notícia: a Rosa Caramela tinha sido presa”. (p. 19-20) A notícia da prisão provoca um corte no desenvolvimento da narrativa e coloca um problema, o qual vai desencadear outros fatos ainda mais relevantes. O aprisionamento de Rosa decorre na verdade de um engano de percepção. A sua dedicação às estátuas - sobretudo a de um colonizador português, cuja derrubada ela tentara impedir – causa-lhe um problema com as autoridades policiais: acusam-na de ter razões políticas para tal comportamento. É interessante notar, nessa passagem, por um lado o sentido trágico e, por outro, o patético do acontecimento. Ao mesmo tempo em que relata mais uma tragédia pessoal de Rosa, o narrador expõe o ridículo da atitude da milícia instituída pelo governo revolucionário do país liberto do domínio português. Numa paranóia que faz ver inimigos em criaturas inofensivas, os responsáveis pela segurança da nação fazem de tudo na tentativa de

apagar qualquer vestígio da presença do colonizador. Mesmo que, nesse caso, os motivos históricos não tenham força suficiente para estruturar a narrativa, pode-se notar a importância por eles assumida.

Após o episódio da prisão de Rosa, passam a ser narrados os acontecimentos relativos ao enterro de um enfermeiro que se enforcara. O irmão de Juca chega a casa, devolve-lhe os sapatos, os quais tomara emprestados, e começa a falar-lhe sobre o enterro e as condições da morte do enfermeiro. Então ele menciona o aparecimento de Rosa no cemitério. Nesse momento do relato, desloca-se o foco narrativo do filho de Juca para o irmão deste: “O tio prosseguiu o relato. A Rosa, por baixo das costas, toda de negro. Nem um corvo, Juca. Foi entrando, com modos de coveira, espreitando as sepulturas” (p. 22). Não só o foco, como a própria voz105 muda, sem que haja a marcação dessa mudança. Também o narratário aqui é outro, é intradiegético106 (Juca). Está-se, pois, num segundo nível narrativo: uma história é contada dentro de outra. Essa narrativa, que Genette chama de metadiegética107 (ou narrativa de segundo grau), exerce (como será possível notar na seqüência do texto) uma função persuasiva junto à personagem Juca. Seu irmão conta-lhe como a Rosa Caramela se aproximou da cova em que ia ser sepultado o enfermeiro, tirou a roupa e perguntou se poderia gostar do morto. Chega um momento em que o narrador é interrompido por Juca, o qual se mostra bastante abalado e influenciado pelo relato: “- Cala-te, não quero ouvir mais” (p. 23). Nesse caso, “o próprio ato da narração desempenha uma função na diegese”: 108 é

105

Tanto a noção de foco narrativo como a de voz narrativa são entendidas no sentido que lhes atribui Genette. GENETTE, Gérard: [s.d.].

106 Id., ib., p. 260. 107 Id., ib., p. 229. 108 Id., ib., p. 232.

depois de ouvir a história contada pelo irmão que ele vai ser motivado para a ação.

No quarto e último momento do conto, o narrador se individualiza. Ele, que anteriormente era sempre a expressão de uma voz coletiva – “Lhe chamávamos Rosa Caramela” (p. 15); “Dividíamos os risos” (p. 18) -, passa agora a falar em seu próprio nome – “Olhei a estátua, estava fora do pedestal” (p. 23). Desse modo, assume a função de testemunha dos acontecimentos. Diante de seus olhos, passa-se a cena final do conto, a qual começa com a chegada de Rosa às escadas da casa e culmina com a sua partida, dessa vez junto com Juca, que se revela seu noivo e lhe dedica carinhos, fazendo com que ela se “irrealize”.