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Capítulo IV – Fim de jogo: debatendo os discursos e estratégias da FIFA, do Estado e

4.4 A tensão entre direitos humanos universais e direito à diferença das baianas de

4.4.1 As precisões conceituais

4.4.1.1 Desenvolvimento

Desde pelo menos os anos 1950, desenvolvimento despontou como categoria fundamental de articulação das estratégias e políticas para crescimento econômico, redução da pobreza e desigualdade e proteção dos direitos econômicos, sociais e culturais dos indivíduos. Contudo,

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Cf. Piovesan (2011). De acordo com essa autora, a partir da existência jurídica do direito ao desenvolvimento houve um reforço do entendimento do caráter universal, indivisível e interdepente dos direitos humanos. Cabe, ainda ressaltar que ambos os Pactos, de Direitos Civis e Políticos, e de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, são proclamados em 1966. Contudo, nesse mesmo ano, apenas para os direitos civis e políticos é criado um protocolo, que estabelece um sistema de petição e garante a proteção em um sistema jurídico de tais direitos. O protocolo do Pacto dos DESC só será criado décadas mais tarde, em 2008, o que revela uma marginalização desses direitos pelos Estados e uma hierarquização de tais direitos em relação aos DCP nos sistemas de proteção internacional dos direitos humanos.

107 Na última sessão apresento mais detidamente a perspectiva de Herrera Flores e suas precisões sobre os direitos humanos.

entendendo que há um discurso específico que embasa os mais diversos modelos de desenvolvimento experimentados principalmente a partir das últimas três décadas, autores de diversas áreas do conhecimento empreenderam uma crítica ao desenvolvimento, caminho que também pretendo seguir na perspectiva os direitos humanos.

Nesse sentido, objetivo discutir os posicionamentos acerca do conceito de desenvolvimento e quais impactos da manutenção e reprodução desse conceito enquanto síntese de uma gramática específica de dignidade humana108 para a implementação, garantia e proteção dos direitos humanos.

Destaco, antes de tudo, que desenvolvimento é atualmente um a) conceito amplamente discutido; b) um campo de estudos acadêmicos, já que acadêmicos de muitos países se organizam em torno de grupos de pesquisa sobre desenvolvimento e seus conceitos subjacentes (subdesenvolvimento, desenvolvimento econômico, desenvolvimento social, desenvolvimento humano, desenvolvimento sustentável, desenvolvimento e cooperação) e c) a representação contemporânea da modernidade, em torno da qual os projetos políticos dos governantes do mundo inteiro e das agências e organismos internacionais se definem, portanto, uma designação que orienta a ação dos Estados em suas relações econômicas e políticas. Essas dimensões do desenvolvimento e as reflexões que os teóricos fazem em torno delas, frequentemente, se confundem, de modo que a fronteira de quando se está fazendo a crítica ao conceito em si, aos conhecimentos construídos em torno dele ou ao campo político derivado de determinadas compreensões do conceito é imprecisa.

Segundo Schröder (2011, p. 3), na história desse conceito outras conotações estão atreladas a ele, como “evolução”, “progresso”, “complexidade crescente”, “avanços e melhoramentos”. Para o autor, durante grande parte do Século XX, “desenvolvimento” esteve completamente associado a outro conceito: “modernização” e “progresso”.

De acordo com esse autor, há uma vasta bibliografia sobre o assunto, estudada desde as primeiras formulações na Biologia, no Século XIX, sobre o desenvolvimento das espécies. Em um esforço pessoal de pesquisa, o autor já identificou mais de 3 mil textos, entre manuais, livros e artigos que tratam de desenvolvimento. Schröder considera que a obra do cientista político Ulrich Menzel (1993) sobre a história da teoria do desenvolvimento é uma das mais importantes, pois nela aquele autor identifica que o campo acadêmico gira em torno de quatro

108 Sobre gramáticas de dignidade humana, vale ressaltar que o termo já fora discutido por Habermas (2010), Panikkar (2004), Santos (2013), entre outros.

posições básicas (universalismo, nacionalismo, socialismo e racionalismo) que por sua vez podem ser identificadas com as obras de quatro pensadores (Ricardo, List, Marx e Weber, respectivamente) (SCHRÖDER, 2011, p. 3).

Conforme nos mostram vários autores109, o termo foi empregado pela primeira vez, em 1949, pelo presidente dos Estados Unidos (EUA) Harry Truman, em seu discurso de posse, em contraposição a “subdesenvolvimento”. Nesse discurso, Truman diz que “começamos a constatar que há uma distância entre as sociedades colonizadas ou em vias de independência e os Estados Unidos e a Europa e, para nós, desenvolvimento é um processo de aprofundamento” (LAUTIER, 2009, p. 54). Ainda, de acordo com Moraes, a mensagem de Truman destacava também que a principal meta do plano de ajuda aos países ‘subdesenvolvidos’ era evitar que o estado de desespero em que se encontravam resultasse na adoção de comportamentos políticos indesejados, perigosos, ou seja, adotassem regimes comunistas (MORAES, 2006, p. 38).

Assim, o primeiro uso público do termo ‘desenvolvimento’ possui, muito mais que um viés técnico, um viés político bastante importante, que marca a estratégia de diálogo, no plano econômico, com os países periféricos. É com a estratégia de fomento ao progresso nacional que os Estados Unidos estendem sua influencia sobre o globo, em contraposição ao projeto comunista da União Soviética.

Além disso, conforme nos explica Moraes, o desenvolvimento tornou-se a meta dos países que haviam passado por processos de descolonização, paradoxalmente como um objetivo a se alcançar para se diferenciar dos países que os haviam colonizado. Dessa forma, desenvolvimento tinha uma função no processo de reconstrução das nações que haviam saído da Segunda Guerra Mundial (2ª GM) e de construção dos novos Estados que entravam no mapa. Ou seja, iniciava-se uma era de nation building, ancorada no desenvolvimento. O paradigma a ser alcançado era os EUA, economia estável, saída da 2ª GM com grande número de credores. O parâmetro era econômico e os “outros” deviam seguir a receita estadunidense para criar/recriar seus Estados-nações. ‘Subdesenvolvido’ e ‘Terceiro Mundo’ torna-se parte da identificação dos novos países, e o espelho no qual os povos dessas nações deveriam se mirar era externo a eles, desenvolvido, os EUA (MORAES, 2006, p. 39).

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Praticamente todos os autores que irei apresentar como críticos ao desenvolvimento afirmam que seu primeiro uso político com impacto nas políticas governamentais se deu a partir do discurso do presidente Truman. Para mais informações, Cf. Esteva (2011), Lautier (2009), Escobar (2005), Moraes (2006).

A partir daí, conforme nos explica Esteva (1996 [1992]), se deu por assentado, pois, que tanto o “desenvolvimento” quanto o “subdesenvolvimento” eram realidades, uma representando a carência e escassez da outra, e várias explicações aos dois termos começaram a surgir. Segundo Satrústegui (2009), como um país era considerado subdesenvolvido em função de seu PIB per capita – os termos comparativos eram as experiências dos outros países, “desenvolvidos” –, a aposta no crescimento econômico ilimitado ficou sendo a principal formulação do desenvolvimento.

De acordo com Moraes, na década de 1950 e 1960, o ‘desenvolvimento’ foi construído academicamente a partir da “teoria da modernização”. Para o autor, os documentos mais importantes que representam a visão sobre desenvolvimento dessas décadas foram: Measures for the economic development of under-developed countries, um relatório das Nações Unidas (1951); Theory of Economic Growth, de Lewis (1954) (traduzido para o português como Teoria do Desenvolvimento Econômico); Aproaches to economic development, de Buchaman (1955); Economic development, theory, history, policy, de Robert Baldwin e G.M. Meier (1957); e uma publicação de dois volumes financiada pelo Banco Mundial, intitulada Pioneers of development (1984), que, apesar de publicada na década de 80, reforça os paradigmas desenvolvimentistas das décadas anteriores. Em maior ou menor grau, as formulações sobre ‘desenvolvimento’ e ‘subdesenvolvimento’ desses textos apresentavam o desenvolvimento como estágio final da evolução da história econômica dos países (daí a proximidade com a teoria da modernização), propunham quadros explicativos e caminhos de ruptura do atraso econômico dos países subdesenvolvidos, incentivavam um modelo de desenvolvimento induzido, conduzido pelos países considerados já desenvolvidos, por meio de programas internacionais de ajuda econômica e da atuação das agencias e organizações internacionais de fomento ao crescimento econômico. Destaco uma frase do relatório das Nações Unidas acima citado, a qual representa a linha de raciocínio sobre “desenvolvimento” da época: “E tais governos deverão impor a seus povos o progresso, já que ele ‘é impossível sem penosos ajustamentos’” (Nações Unidas, 1951 apud MORAES, 2006, p. 71).

Nas décadas de 1970 e 1980, há uma vasta produção literária sobre o tema, a maioria no sentido de criticar o paradigma do desenvolvimento induzido e baseado no crescimento econômico. Se o conceito era relacional, ou seja, ‘subdesenvolvimento’ se definia em função de ‘desenvolvimento’, era necessário criar métodos de comparação objetivos do desenvolvimento. Conforme explica Moraes (2006), o foco passou então para as metodologias e métodos para “medir” o desenvolvimento: como comparar os países? Com base em que

moeda? O que se teve ter no numerador: PIB, PNB ou Renda per capita? E no denominador? População total ou População economicamente ativa? Nesse sentido, também as Nações Unidas desenvolveram institucionalmente um sistema de assistência técnica aos países, denominado System of National Accounts and Supporting Tables.

Também a partir dessas décadas, o ‘desenvolvimento’ passa a ser estudado por acadêmicos de todo o mundo, deixando de ser uma teoria vista como uma teoria do desenvolvimento para/ou em decorrência do crescimento econômico, passando a ser disputada como uma teoria do desenvolvimento para a mudança social. A partir daqui, o “desenvolvimento” passa a ser considerado uma realidade a ser construída a partir das condições contextuais dos países “subdesenvolvidos”.

No campo acadêmico, surgem as noções de desenvolvimento endógeno e desenvolvimento local, que destacavam a importância dos mecanismos internos aos países subdesenvolvidos, processuais e contextuais, na promoção do desenvolvimento.

É também nessas décadas que surgem as primeiras críticas mais contundentes ao ‘desenvolvimento’. Para Satrústegui (2009, p. 10), os autores estruturalistas e dependentistas procuraram destacar as diferenças não só quantitativas, mas qualitativas, de caráter estrutural, entre os países “desenvolvidos” e “subdesenvolvidos”, diferenças essas que geraram e reproduziam relações de dependência entre o “centro” e a “periferia”. Os autores da teoria da dependência principalmente compreendiam que as causas do “subdesenvolvimento” dos países do Terceiro Mundo residiam nessas relações de dependência, que dificultavam, impediam ou estrangulavam o crescimento econômico desses países. Podemos citar, entre os autores da teoria da dependência, Raúl Prebich (cepalino percussor da teoria com a noção de ‘modernidade periférica’), Theotônio dos Santos, Celso Furtado, Gunder Frank, Maria da Conceição Tavares, Rui Mauro Marini.

Destaco também que ainda no bojo da disciplina da Economia, foram gerados outros campos acadêmicos que dialogavam com o campo do desenvolvimento, contribuindo para a crítica do conceito na sua forma tradicional. Assim, surge uma ampla literatura sobre pobreza e desigualdade econômica e social, configurando o que Bustelo (1998 apud Satrústegui, 2009) denominou giro social dos anos 1970. A partir da identificação da pobreza e da desigualdade como sendo constituintes do ‘subdesenvolvimento’, a literatura colocou ênfase na limitação do PIB per capita como um indicador, agregado, incapaz de representar toda uma realidade.

Com efeito, autores de diversas disciplinas e correntes de investigação buscaram contribuir para desagregar os fatores que causavam “subdesenvolvimento”. Assim, o conceito foi reelaborado, por exemplo, a partir da perspectiva ecologista, que destacava os impactos ambientais que o crescimento econômico e desmedido gerava, enfatizando o constante deterioro do meio ambiente e dos recursos naturais. Uma das propostas mais eloquentes dessa perspectiva foi enunciada por meio do conceito de ecodesenvolvimento, apresentada pelo então diretor do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Maurice Strong (1973), conforme afirma Satrústegui (2009, p. 11).

É importante destacar a contribuição que as feministas trouxeram para a revisão do conceito ‘desenvolvimento’. Em síntese, as feministas procuraram denunciar o caráter sexista das estratégias de desenvolvimento adotadas no pós-guerra, pois as mulheres seguiam sofrendo as desigualdades no mercado de trabalho, mesmo nos países que haviam se “desenvolvido” ou tinham apresentados índices maiores de crescimento e progresso econômico110. O Movimento Mulher em Desenvolvimento foi um dos pioneiros a incorporar a perspectiva de gênero111 ao desenvolvimento, contribuindo para o que mais tarde iria derivar nas elaborações metodológicas dos Índices de Desenvolvimento relacionado ao Gênero – GDI, de Empoderamento de Gênero – GEM e o Global Gender Gap Index (Índice de Desigualdade de Gênero). Vale ainda mencionar a rede de acadêmicas, pesquisadoras e ativistas do Sul Global, o Development Alternative with Women for a New Era (DAWN), estabelecida em 1984 e que tinha por objetivo trabalhar para o fortalecimento da justiça econômica e de gênero, bem como para a realização de um desenvolvimento sustentável e democrático. Ainda hoje, feministas de todo o mundo seguem apresentando por de diferentes perspectivas112, contextualizadas desde a experiência de diferentes países e comunidades, leituras sobre o caráter sexista do sistema de produção capitalista e da Economia, que segue desconsiderando a reprodução, por exemplo, como uma esfera da vida humana que possui valor e que contribui para o bem-estar das pessoas, famílias e comunidades.

Por fim, destaco que também acadêmicos e ativistas de direitos humanos foram de encontro ao que o desenvolvimento vinha produzindo como campo político. Conforme nos mostra

110 Cf. Ester Boserup (1970 apud SATRÚSTEGUI,2009). 111

O estudo de Zabala (1999 apud SATRÚSTEGUI, 2009) contribui para a compreensão da evolução da “perspectiva de gênero” nos estudos sobre desenvolvimento.

112 Destaco um excelente livro, Subversión feminista de la economia: aportes para un debate sobre el conflicto capital-vida, de Amaia Pérez Orozco (2014), que traz os diferentes aportes acerca das perspectivas feministas sobre os conceitos estudados pela Economia. A autora identifica a formação de pelo menos três correntes feministas que dialogam com essa disciplina: Economia do gênero, Economia feminista integradora e Economia

Satrúsgetui (2009), cada vez haviam mais denúncias relativas às ausências de liberdades ou à violação de direitos que o os modelos desenvolvimentistas dos anos anteriores produziram. Em síntese, a expansão produtiva, o crescimento econômico, o progresso se sustentava sob a retirada de direitos, liberdades e oportunidades dos indivíduos. Além disso, já nessa época havia uma contundente denúncia de que era justamente o desenvolvimento que justificava essas violações, exatamente como no caso estudado nessa dissertação.

É nesse contexto, de profusa produção acadêmica, que surge o “Direito ao Desenvolvimento”, declarado como um direito humano, em 1986. Nessa Declaração113, define-se desenvolvimento como um “processo econômico, social e político abrangente, que visa ao constante incremento do bem-estar de toda a população e de todos os indivíduos com base em sua participação ativa, livre e significativa no desenvolvimento e na distribuição justa dos benefícios daí resultantes114” (ONU, 1986, p. 1). Segundo Piovesan (2011), é a partir de tal documento que se endossa a importância da participação, da justiça social e da adoção de programas nacionais e internacionais de cooperação.

Destaco que, nesse pequeno trecho da Declaração, há elementos que nos são especialmente importantes, e que se houvesse observado tais elementos, o Estado teria evitado um impacto tão contundente do modelo de desenvolvimento por megaeventos: desenvolvimento é um processo – portanto histórico e heterogêneo – de aumento do bem-estar baseado na participação ativa, livre e significativa das populações e na distribuição justa de seus benefícios. Contudo, importa dizer também que considero que essa Declaração não encerra os conflitos e disputas em torno do desenvolvimento, em suas três dimensões. Ela é um ponto de partida, que indica, como um farol, o caminho, que o Estado e as pessoas e coletividades que interpelam o Estado podem tomar para tornar as vidas melhores. Há de se ressaltar também que não é o único caminho.

Com o fim da Guerra Fria, uma nova ordem internacional começa a se configurar nas relações internacionais, com preponderância dos valores e projetos liberais. Conforme nos explica Svampa (2011), na década de 90, o desenvolvimento é colocado no ostracismo e as políticas econômicas adquirem o formato neoliberal: por meio do “Consenso de Washington”, a

113

Cf. Resolução nº 4/128 da Assembleia Geral das Nações Unidas, de 4 de dezembro de 1986.

114 Tradução livre do original: “Recognizing that development is a comprehensive economic, social, cultural and political process, which aims at the constant improvement of the well-being of the entire population and of all individuals on the basis of their active, free and meaningful participation in development and in the fair distribution of benefits resulting therefrom”.

valorização financeira se tornou central na agenda econômica, desencadeando políticas de ajustes e privatizações que terminou por redefinir o Estado como um agente meta-regulador (SVAMPA, 2011, p.3).

Dito isso, destaco que uma das mais importantes contribuições teóricas que dialoga com a Declaração foi dada por Amartya Sen (2000). A partir desse autor, o conceito de desenvolvimento foi reconfigurado, de tal maneira que seus escritos basearam toda a formulação internacional, nos anos subsequentes, de normativas, jurisprudências, recomendações, programas e políticas de proteção, garantia e implementação de direitos econômicos, sociais e culturais. Em Desenvolvimento como liberdade (SEN, 2000), o autor analisa o desenvolvimento a partir de uma “abordagem de capacidades115”. Segundo o autor, a pobreza, por exemplo, deve ser vista como privação de capacidades básicas, ao invés de meramente como baixo nível de renda, que é um dos critérios de identificação tradicional de pobreza. Muito sinteticamente, de acordo com essa perspectiva, as capacidades são entendidas como liberdades substantivas, que não devem ser tidas apenas como instrumento para o desenvolvimento, mas também o fim em si mesmo do desenvolvimento (SEN, 2000).

Assim, existem liberdades que são meios (liberdades instrumentais) para que os indivíduos tenham a capacidade de realizar aquilo que têm vontade de fazer (liberdades substantivas). A partir daí, tem-se como ideia principal que, no combate a problemas de pobreza e desigualdade, a liberdade individual é central e deve ser um comprometimento social.

O que as pessoas podem realizar positivamente depende de oportunidades econômicas, liberdades políticas, poderes sociais e condições habilitadoras (saúde, educação e incentivo à iniciativa). As instituições que proporcionam essas oportunidades são também influenciadas pelas escolhas sociais e tomadas de decisões públicas que decorrem do exercício de liberdade das pessoas (cidadania).

Assim, para o autor, existem cinco liberdades instrumentais que, inter-relacionadas, permitem que os indivíduos tenham capacidades, por meio das quais se alcança o desenvolvimento: a) liberdades políticas, b) facilidades econômicas, c) facilidades sociais, d) garantias de transparência e e) segurança protetora.

Dessa forma, o autor explica que:

115 Do termo inglês capabilities.

a) liberdades políticas referem-se às oportunidades que os indivíduos têm de escolher seus governantes e os princípios com os quais governam; oportunidade de fiscalizar e criticar as autoridades; oportunidade de expressar-se, por meio inclusive de imprensa sem censura; oportunidade de associar-se em grupos e partidos políticos; de direito de voto e seleção participativa de legisladores e executivos;

b) facilidades econômicas são as oportunidades que os indivíduos têm de utilizar recursos econômicos para realizar trocas, consumo e produção. A relação entre renda e riqueza nacional e ‘entitulamentos’116

econômicos dos indivíduos inclui as considerações distributivas e agregativas. Assim, o modo como as rendas adicionais geradas são distribuídas faz bastante diferença;

c) oportunidades sociais dizem respeito às disposições que a sociedade estabelece nas áreas de educação, saúde, saneamento, etc., importantes para a condução da vida privada e também para uma participação mais efetiva em atividades econômicas e políticas;

d) garantias de transparência significa que deve haver mecanismos que possibilitem uns lidar com os outros com base na clareza e no dessegredo. Esses mecanismos garantem que se previna a corrupção, a irresponsabilidade financeira e as transações ilícitas e; e) segurança protetora diz respeito às disposições que proporcionam uma rede de

segurança social. Tais disposições institucionais fixas – como serviços de proteção aos desempregados, suplementos de renda aos indigentes, etc. –, e ad hoc – como distribuição de alimentos em crises de fome coletiva, ou empregos públicos de emergência. (SEN, 2000, p.55).

Nesse sentido, contribuiu sobremaneira os escritos de Amartya Sen (2000) sobre desenvolvimento e liberdade. Nessa linha de raciocínio apresentada anteriormente, o autor apresenta as bases para a objetivação de metas e indicadores de desenvolvimento, sintetizados no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), e para a criação dos Objetivos do Milênio, principais instrumentos internacionais atuais de aferimento e incentivo ao desenvolvimento. No entanto, identifico nesse pensamento uma conciliação do desenvolvimento com o capitalismo, já que defende o desenvolvimento como processo de expansão das liberdades reais de que as pessoas podem desfrutar por meio da amenização de privações e ampliação de escolhas. Ou seja, apesar de tudo, há de se conviver com as capacidades que o sistema

116 Do termo em inglês entitlement.

capitalista possibilitam, amenizando as privações decorrentes da falta dessas capacidades e ampliando as escolhas proporcionadas por essas capacidades. Essa perspectiva é adotada pela maioria, senão a totalidade, dos organismos internacionais e agências das Nações Unidas, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio.

Ainda que não concorde totalmente com essa perspectiva de desenvolvimento proposta pelo