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Desenvolvimento capitalista dependente e Imperialismo

Capítulo 2: Reflexões sobre o vazio da questão nacional na formação do Estado Nação na

2.2 A questão nacional como desdobramento das contradições que movem o processo histórico na

2.3.3 Desenvolvimento capitalista dependente e Imperialismo

Neste item, analisaremos o desdobramento da 5º contradição que move o processo histórico na América Latina deflagrada no processo histórico de desenvolvimento capitalista entre 1815-1945, quando os países latino-americanos, soberanos ou não, passaram pela contradição entre desenvolvimento econômico capitalista e padrões de dominação externa.

Os desdobramentos das contradições da industrialização no desenvolvimento capitalista na América Latina são amplamente abordados nos estudos do subdesenvolvimento, capitalismo periférico e dependente. Esses estudos partem de um entendimento de que o capitalismo é um modo de produção mundial e universal e que se desenvolve em formações socieconômicas específicas. Tomamos numa breve revisão bibliográfica, alguns elementos da interpretação sobre a formação econômica do Brasil e destacamos dilemas levantados por autores que fizeram as mediações com os desafios do desenvolvimento econômica capitalista na América Latina, como: Ruy Mauro Marini e Florestan Fernandes.

O debate da passagem da sociedade colonial para uma sociedade nacional no Brasil coloca a questão de como, a partir de uma sociedade consensual – em torno da escravidão - se passou para uma sociedade de conflitos propriamente nacionais (5º contradição – vide Quadro 1). Em um primeiro momento, a questão da formação nacional identificou na mudança do regime Imperial para a República o elemento central para abordar a questão de como, a partir de uma sociedade de consenso em torno da escravidão, transitar para uma sociedade de conflito propriamente capitalista. 48. Em um segundo momento, ganha espaço no debate da

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Nesse contexto, emergem as interpretações que se dedicam a interpretar a realidade brasileira dos poderes locais. Oliveira Vianna (1885 – 1951) em Instituições Políticas Brasileiras (1949) aborda a origem do poder local na Primeira República como reação ao Estado forte e centralizado, dada a impossibilidade de liberalismo e democracia na sociedade nacional. Essa impossibilidade é resultado da condição histórica do país marcada pela herança de passado colonial e empresa mercantil. Vianna observa que quando se cria o Estado brasileiro independente, cria-se um Estado institucional sem sociedade e com escravos, o que inviabiliza a democracia. Como herança colonial a sociedade brasileira é portadora do latifúndio como o lugar onde as Leis acontecem. A única Instituição que existe é a família, instituição capaz de criar leis, sendo a família composta dos agregados que estão subordinados naquele pedaço de território. (VIANNA, 1999, p. 145). Ou seja, não se forma o indivíduo na sociedade, não se cria a bandeira do espírito público. Desse modo, o problema da organização política na

formação nacional a perspectiva de grupos de poder na primeira República.49 Nesse conjunto de elaborações em torno da formação nacional estava relacionada com as determinações da superestrutura: a cultura e as relações de poder político no pacto federativo do Estado na República Velha. A contribuição de Celso Furtado, assim como a de Caio Prado Junior, possibilitam as determinações sobre a questão nacional transitar do problema da superestrutura (Estado e Cultura) para o problema da estrutura socioeconômica.50

Nessa perspectiva que leva em conta as determinações da formação socioeconômica, analisando o caso brasileiro, Florestan Fernandes (1975) em “A Revolução Burguesa no Brasil – ensaio de interpretação sociológica” apresenta dilemas da passagem da sociedade colonial para a sociedade nacional na criação do Estado nos processos de independência.

Florestan adverte que, não obstante a forma em que se desenrolou, a Independência constituiu a primeira grande revolução social que se operou no Brasil. Ela aparece como uma revolução social sob dois aspectos correlatos: como marco histórico definitivo do fim da “era colonial” e como ponto de referência para a “época da sociedade nacional”, que com ela se Republica Velha era, na análise de Vianna, como fazer com que os coronéis latifundiários fizessem parte da nação. O desafio de criar um Estado era o desafio de forjar Povo, uma Elite Política e não clãs parentais distribuídos pelo território. Outro exemplo, poderia ser Nestor Duarte em Ordem privada e Organização Política

Nacional (1939) que, influenciado por Sergio Buarque de Holanda (1936) e Gilberto Freire (1933), parte da herança colonial para entender a organização social e política da primeira República, baseada na família como uma autarquia fechada e no papel do patriarcalismo na sociedade nacional. Com a referência a esses autores apenas gostaríamos de destacar que no debate até 1930, o desafio de criar a Nação estava relacionado à perspectiva poder dos coronéis, ou seja, o poder local versus poder central do Estado.

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Perspectiva desenvolvida no Brasil, por exemplo, por Vitor Nunes Leal (1914 – 1985) em Coronelismo Enxada

e Voto (1949). Nessa obra é destacado o poder dos coronéis dentro do município. Nunes Leal desenvolve a perspectiva de que a restruturação de poder promovida pela República, o pacto federalista, colocou para esse poder local dos coronéis a necessidade de se alinharem a partidos políticos estaduais que , por sua vez, tinham relevância pelo pacto político com o poder federal. Nesse mecanismo se desdobrava a relação contraditória sintetizada na expressão “voto de cabresto” (como um exercício de poder próprio das relações clientelistas em que o coronel manipula seus dependentes) e o voto que pressupõe indivíduos livres.

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A problemática básica de Furtado sobre a formação da Nação na obra: Formação Econômica do Brasil (1959) é a ideia principal de que ao longo dos séculos de colonização se constituíram as bases, os fundamentos, de uma nacionalidade brasileira e do povo brasileiro. E a essa nacionalidade se constitui na falta uma base material para o seu desenvolvimento enquanto nação. Ou seja, uma nacionalidade despojada de uma base material voltada para o seu desenvolvimento, é nesse sentido que o problema da questão nacional, transita para uma discussão sócio econômica, a medida em que a estrutura social subjacente conforma o que vai ser processo econômico de desenvolvimento capitalista dependente.

inaugura. (FERNANDES, 1981, p. 31)

A Independência instaura a formação da sociedade nacional, em que o poder deixa de se manifestar como imposição de fora para dentro, para organizar-se a partir de dentro.

Nesse processo o autor identifica um “elemento puramente revolucionário” identificado com a política e “elemento especificamente conservador” identificado com a base econômica material da Independência:

Dessa perspectiva, a Independência pressupunha, lado a lado, um elemento puramente revolucionário e outro elemento especificamente conservador. O elemento revolucionário aparecia nos propósitos de despojar a ordem social, herdada da sociedade colonial, dos caracteres heteronômicos aos quais fora moldada, requisito para que ela adquirisse a elasticidade e a autonomia exigidas por uma sociedade nacional. O elemento conservador evidenciava-se nos propósitos de preservar e fortalecer, a todo custo, uma ordem social que não possuía condições materiais e morais suficientes para engendrar o padrão de autonomia necessário à construção e ao florescimento de uma Nação. (FERNANDES, 1981, p. 32) Embora tolhido e deformado, o elemento dinâmico do processo de Independência foi o elemento revolucionário que, a curto prazo, orientou no plano ideológico os ideais de organização do Estado nacional e, a longo prazo, a reelaboração constante desse elemento revolucionário que volta à tona continuamente:

Contudo, o elemento revolucionário era o componente verdadeiramente dinâmico e propulsor. Por isso, embora tolhido aqui ou deformado ali, ele se converteu no “fermento histórico” do comportamento social inteligente. A curto prazo, alimentou e orientou as opções que delimitaram, nos planos ideológicos e utópicos, os ideais de organização do Estado nacional. A longo prazo, em qualquer nível ou esfera que ocorresse estruturalmente, a integração nacional produzia efeitos que ultrapassavam o mero despojamento dos caracteres heteronômicos típicos de uma sociedade nacional. Isso redundava na reelaboração constante daquele elemento revolucionário, que voltava à tona, continuamente, em condições sócio-dinâmicas mais ou menos favoráveis à sua atuação como fator histórico-social construtivo. (FERNANDES, 1981, p. 33)

Florestan Fernandes elucida como o liberalismo exerceu influências sociais construtivas em várias direções concomitantes nesse processo. O autor examina as condições e efeitos histórico-sociais da absorção do liberalismo pelas elites nativas e mostra que essa absorção apresenta duas polarizações dinâmicas distintas. A polarização que associava o liberalismo aos processos de consciência social vinculados à "emancipação colonial”:

Havia uma polarização que associava o liberalismo aos processos de consciência social vinculados à "emancipação colonial”. As elites nativas sentiam-se econômica, social e politicamente “esbulhadas”, em virtude da espoliação que sofriam através das formas de apropriação colonial e das consequências especificamente politicas do estatuto colonial , que alimentava a neutralização inexorável das probabilidades de poder inerentes ao status que elas ocupavam na ordem da sociedade colonial. Sob a perspectiva dessa polarização, o liberalismo assume duas funções típicas. De um lado, preencheu a função de dar forma e conteúdo às manifestações igualitárias diretamente emanadas da reação contra o “esbulho colonial”. (...) De outro lado, desempenhou a função de redefinir, de modo aceitável para a dignidade das elites nativas ou da Nação como um todo, as relações de dependência que continuariam a vigorar na vinculação do Brasil com o mercado externo e as grandes potências da época. (FERNANDES, 1981, p. 34)

A outra polarização, o liberalismo associado com a construção de um Estado nacional diante do dilema de criar uma nação em um país destituído das condições elementares de uma sociedade nacional:

A outra polarização do liberalismo o associava, definitivamente , com a construção de um Estado nacional. Na fase de transição, as elites nativas encaravam o Estado, naturalmente, como “meio” e “fim”: “meio”, para realizar a internalização dos centros de decisão política e promover a nativação dos círculos dominantes; e o “fim” de ambos os processos, na medida em que ele consubstanciava a institucionalização do predomínio político daquelas elites e dos “interesses internos” com que elas se identificavam. Nesse nível, o liberalismo possui nítido caráter instrumental e se propõe o complexo problema de como criar uma Nação num país destituído até das condições elementares mínimas de uma “sociedade nacional” (FERNANDES, 1981, p. 34/35)

O problema de como criar uma Nação em um país destituído até das condições elementares mínimas de uma “sociedade nacional”, identificado por Florestan Fernandes no caso brasileiro, é o problema de fundo da constituição dos Estado Nação latino-americanos.

Florestan Fernandes em “Sociedade de Classes e Subdesenvolvimento” (1968), elucida que a germinação de uma economia capitalista dependente nesse primeiro ciclo revolucionário conduziu à extinção do pacto colonial e à constituição de um Estado nacional independente. O Brasil passou, durante sua evolução econômica, social e política por dois ciclos revolucionários. O primeiro deles ocorreu no contexto histórico da emancipação política e do desenvolvimento de um Estado Nacional independente. O segundo deu-se no contexto da

desagregação da ordem social escravista e senhorial e da expansão da ordem social competitiva. (FLORESTAN, 1975, p. 156)

O primeiro ciclo revolucionário conduziu à extinção do pacto colonial e à constituição de um Estado nacional independente. Não obstante ao controle legal da metrópole e da Coroa apenas desapareceu para dar lugar a outra modalidade de controle externo: um controle baseado em mecanismos puramente econômicos, que restabelecia os nexos de dependência como parte das relações comerciais, através dos negócios de exportação e de importação. Assim desenrolou-se, nessa época e em seguida, um extenso (e sob certos aspectos profundo) processo de internalização e de absorção de instituições econômicas, que não existiam antes no País. Tal internalização e absorção não significam, porém, que a economia brasileira se transformasse numa economia livre ou independente. Nem, mesmo, que se estivesse construindo, a longo prazo, uma economia nacional, de bases capitalistas, relativamente autônoma. Mas ao contrário, significavam que, à medida que o capitalismo se consolidasse dentro do País, mais ramificados, sólidos e persistentes se tornariam os laços de dependência puramente econômica, nascido do novo tipo de incorporação dessa economia no mercado mundial. Portanto, a evolução do capitalismo, como realidade histórica interna, não possuía a mesma significação que teve em outros países da Europa (como a Inglaterra, a França ou a Alemanha) e nos Estados unidos. Na fase incipiente desse desenvolvimento o capitalismo exprimia a reorganização econômica e política do “mundo colonial”, sob hegemonia inglesa. Ele concorreu, sem dúvida, para alterar os rumos de nossa evolução econômica ulterior e deu lastro econômico ao duplo processo, pelo qual se constituíra um Estado nacional e uma nação moderna no Brasil. (FERNANDES, 1975, 157)

Florestan Fernandes articula duas conexões que são fundamentais para a compreensão objetivas da situação histórico-social dos países latino-americanos: o que representa o passado colonial e o que significa a condição de povo periférico e dependente no dilema de formação uma sociedade nacional.

Os estudiosos da nossa formação histórica, cultural e política tendem a evitar, cuidadosamente, a análise realista de duas conexões, que são fundamentais para a compreensão e a explicação objetivas de nossa situação histórico-social. De um lado, o que representa o nosso passado colonial; de outro, o que significa a nossa condição presente, de “povo periférico e dependente”. Projetando em nossa história imagens e categorias tomadas da evolução da Inglaterra, da França ou dos Estados Unidos, acabam diluindo e anulando a fase colonial de formação da sociedade brasileira. Por uma mágica simplista, fundada em precária teleologia histórica, todo período colonial teria como “finalidade interna” a função de gerar a nacionalidade e uma sociedade nacional pronta e acabada! (FERNANDES, 1975, p. 154)

As análises de Florestan Fernandes no texto Padrões de dominação externa na América Latina (1973), em grande medida nos autoriza a estender essas análises desenvolvias nos dois textos anteriores sobre o Brasil para a América Latina.

Florestan afirma que à semelhança de outras nações das Américas, as nações latino- americanas são produto da “expansão da civilização ocidental”, isto é, de um tipo de colonialismo organizado e sistemático. (FERNANDES, 1998,. P 95).

Neste texto o autor distingue quatro fases e formas de dominação externa, a saber: 1ª) antigo sistema colonial; 2ª) controle do Mercado (neocolonialismo); 3ª) Imperialista e o 4ª) Monopolista (capitalismo corporativo). O primeiro sistema básico de colonização e dominação externa experimentado por quase todas as nações latino-americanas por quase três séculos, produziu uma autêntica sociedade colonial, na qual apenas os colonizadores eram capazes de participar das estruturas existentes de poder e transmitir posição social através da linhagem “europeia”. A estratificação resultante, porém possuía grande flexibilidade, favorecendo a absorção e o controle de massas de nativos, africanos e mestiços, classificados em categorias de castas, ou mantidos fora das estruturas estamentais, como estratos dependentes. Sob tais condições societárias, o tipo legal e político de dominação colonial adquiriu o caráter de exploração ilimitada, em todos os níveis da existência humana e da produção, para o benefício das coroas e dos colonizadores (FLORESTAN, 1998, p. 95)

Florestan sintetiza o dilema latino-americano:

Os países latino-americanos enfrentam duas realidades ásperas : 1) estruturas, socioculturais e políticas internas que podem absorver as transformações do capitalismo, mas que inibem a integração nacional e o desenvolvimento autônomo. ; 2) dominação externa que estimula a modernização e o crescimento, nos estágios mais avançados do capitalismo, mas que impede a revolução nacional e uma autonomia real. Os dois aspectos são faces opostas da mesma moeda. (FERNANDES, 2009, p. 34)

O dilema Latino-americano provém da mais profunda necessidade histórica e social de autonomia e equidade. Florestan relaciona essa necessidade histórica à libertação real das sociedades latino-americanas:

Ele provém da mais profunda necessidade histórica e social de autonomia e equidade. Isso significa que as alternativas políticas efetivas deixaram uma margem estreita para as opões coletivas. Se os setores sociais dominantes e as elites no poder realmente desejam um desenvolvimento gradual lento e seguro, e se forem capazes de obter apoio popular, suas probabilidades de êxito dependem de um forte nacionalismo revolucionário. Sob as condições econômicas, socioculturais e políticas dos países latino-americanos, essa alternativa implica a implementação e o aperfeiçoamento de um novo tipo de capitalismo de Estado, capaz de ajustar a velocidade e a intensidade do desenvolvimento econômico e da mudança sociocultural aos requisitos da “revolução dentro da ordem social”. A outra resposta alternativa só pode surgir de uma rebelião popular radical, de orientação socialista. A estranha combinação de uma ampla maioria de gente destituída, miserável ou quase miserável, a uma explosão externa implacável e uma péssima utilização interna da riqueza, por minorias privilegiadas, gera um componente histórico imprevisível. A explosão social não é planejada com antecipação. Como Cuba, ela pode sobrevir inesperada e dramaticamente. A estrutura da sociedade e suas permanentes condições de anomia contêm os ingredientes básicos da desintegração: quando as forças da rebelião são liberadas, a ordem social não pode funcionar como um fator de autopreservação e de autorregeneração, porque ela não é desejada sequer pelos que tiram proveito das desigualdades e inquietudes existentes. A última alternativa, sem dúvida, abre caminho para a realização dos padrões mais elevados da razão humana e para a libertação real das sociedades latino-americanas. Todavia, ambas as soluções poderiam dar início a novas vias de evolução da América Latina, na direção de uma história de povos livres e independentes. (FERNANDES, 2009, p. 38/39)

Florestan coloca o dilema latino-americano numa perspectiva muito cara a nossa abordagem metodológica de compreender as forças sociais, cujas contradições puseram em movimento o processo histórico, que é justamente a compreensão de que a libertação real das sociedades latino-americanas está relacionada com a liberação das forças da rebelião, essas forças relacionadas às aspirações profundas das sociedades latino-americanas se alçarem enquanto povo-nação.

Em Classes Sociais na América Latina (1971), Florestan Fernandes desenvolve a ideia de que as sociedades da América Latina aparecem como sociedades em convulsão, que estão em busca de seu próprio patamar e tempos históricos.

Na América Latina a sociedade de classes que emergem não conseguem absorver e orientar as forças sociais da transformação da ordem social, ela nasce condenada a crise permanente e ao colapso total. Enquanto na Europa a sociedade de classes pode absorver

diferentes tipos de tensões e de conflitos de classes preservando dentro de certos limites sua estabilidade e capacidade de renovação, a América Latina não pode fazer isso face às tensões e conflitos emergentes que eclodem graças ao aparecimento das relações de classe, sem por em risco sua estabilidade e, mesmo, sem destruir-se. (FLORESTAN, 2009, p. 44)

Essas noções de forças de rebelião, convulsão social, explosão é o desfecho das contradições das estruturas de classes e relações de poder na América Latina. O exemplo de Cuba, nas palavras de Florestan, sugere que a explosão pode preceder à formação de consciência revolucionária propriamente dita, em particular, sua universalização. (FLORESTAN, 2009, p. 44)

A partir disso, Florestan propõe um registro de interpretação que vai entender que não são as classes sociais que são diferentes na América Latina, o que é diferente é o modo pelo qual o capitalismo se objetiva e se irradia historicamente como força social. (FLORESTAN, 2009, p. 47)

Para entender o padrão da luta de classes na América Latina é necessário levar em conta, em primeiro lugar, a existência numerosa dos “condenados do sistema”, “maioria silenciosa”, “massa de despossuídos”, “condenados ao nível de vida inferiores ao da subsistência”, “desemprego sistemático”, “miseráveis”, “marginalizados socioeconomicamente”, “excluídos cultural e politicamente”, que convivem com classes sociais propriamente ditas. Em segundo lugar, é necessário considerar a “mistificação burguesa” e as “ilusões nacionais”, que fazem com que as classes sociais, parciais ou integradas, não se vejam como classes sociais. (FLORESTAN, 2009, p. 45). Em terceiro lugar, deve-se levar em conta o modo pelo qual o capitalismo se institucionalizou, difundiu-se e desenvolveu-se, pois esse padrão atribui especificidade a questão da classe social, na medida em que a sociedade de classes efetiva na América Latina nasceu da conjugação de privilégios internos com a exploração externa. (FLORESTAN, 2009, p. 46)

Há uma persistência e um agravamento contínuo da ordenação em classes sociais cujas debilidades e deficiências estruturais funcionais foram institucionalizadas e são na realidade funcionais. Nas situações predominantes na América Latina umas classes sociais são mais classes que as outras. As classes possuidoras e privilegiadas percebem como não podem identificar o Estado e a Nação com suas posições e interesses de classes, nem lhes é dado

aproveitar com segurança lemas e palavras de ordem mistificadores, precisam assumir os riscos do uso aberto e sistemático da violência – por meios políticos indiretos e através do Estado, com suas forças armadas e superestruturas jurídicas – como perpetuação do status co. (FLORESTAN, 2009, p. 47)

Nesse quadro inscreve-se a problemática de Florestam Fernandes, destacando que o que está em questão não é apenas a “sobrevivência” de entidades que não foram diluídas e absorvidas pelas classes sociais (como etnias, estamentos ou barreiras raciais, que continuam