Na presente pesquisa, percebe-se que a maioria dos participantes apresentou desenvolvimento cognitivo, motor e de linguagem dentro dos limites de normalidade.
No entanto, os percentuais de desempenho abaixo da média ou limítrofes do GE foram superiores aos 5% esperados em amostras normativas nas três áreas na escala BAYLEY-III11,
chegando a 16,8%, representado por treze sujeitos, sendo que três deles apresentaram atrasos em mais que um domínio do desenvolvimento.
No GC, três sujeitos apresentaram-se abaixo da média ou limítrofes, o que corresponde à 3,9%, estando dentro do esperado pela normatização das BAYLEY-III do Desenvolvimento.
No Brasil, são poucos os estudos epidemiológicos sobre o desenvolvimento das crianças e fatores de risco para atraso, limitações e incapacidades funcionais108. Vários são os estudos recentes acerca do desenvolvimento cognitivo, de linguagem e motor, em especial na população de lactentes nascidos prematuros e com baixo peso, concordam que esses fatores representam riscos para o desenvolvimento infantil, principalmente nos primeiros anos de vida109-113. Ainda, além desses fatores, Saccani, Valentini82 (2013) completam que o tempo de permanência em Unidade de Terapia Intensiva é inversamente proporcional ao desenvolvimento infantil.
Contudo, alguns autores ponderam que outros fatores de risco possam estar associados. Fernandes et al.109 (2012) destacam a importância de fatores socioeconômicos e Guerra111 (2015) enfatiza a importância de considerar a influência dos aspectos ambientais sobre esses domínios do desenvolvimento.
Outro estudo em que a prematuridade não influenciou no desenvolvimento psicomotor dos lactentes, considerou que os déficits relacionavam-se aos outros fatores biológicos, tais como: sexo masculino, baixo peso, índice de APGAR abaixo de 7 no quinto minuto, comprimento e circunferência da cabeça e amamentação exclusiva84.
Para mais, a amamentação oferece vantagens adicionais para recém-nascidos prematuros, uma vez que contribui com o desenvolvimento neurológico, especialmente cognição, fornecendo elementos essenciais para a nutrição e maturação do cérebro e da retina, além de atuar como um facilitador do vínculo mãe-bebê114.
Na presente análise, nove lactentes do GE apresentaram atrasos no desenvolvimento motor, seis apresentaram atraso na linguagem e um na cognição.
Explana-se que os indicadores de risco dos lactentes com atrasos motores foram consanguinidade, asfixia neonatal, hiperbilirrubinemia, uso de drogas pela mãe durante a gestação, acompanhamento genético, uso de medicação ototóxica e histórico familiar.
No que tange os indicadores dos lactentes com atraso na aquisição da linguagem foram consaguinidade, doenças infecciosas, acompanhamento genético, medicação ototóxica, hiperbilirrubinemia e uso de drogas pela mãe durante a gestação. Enfatiza-se que o indicador de risco do lactente que apresentou atraso cognitivo foi consanguinidade. Ressalta-se que alguns lactentes apresentaram mais que um indicador de risco.
A consanguinidade esteve presente em cinco dos lactentes com atrasos no desenvolvimento. Sobre o assunto, Leão et. al.115 (2005) discorrem que a consanguinidade entre os pais pode favorecer o aparecimento de doenças autossômicas recessivas, acarretando atraso no desenvolvimento infantil. Tal fator citado é considerado como uma causa genética de atraso global do desenvolvimento psicomotor e intelectual 116.
Relativo asfixia neonatal, este foi indicador de risco de um dos lactentes com atrasos no desenvolvimento. Segundo Simon117 (1999) a asfixia é a principal causa de danos cerebrais e sequelas neurológicas nos lactentes nascidos a termo.
Neste estudo, a idade gestacional do lactente que apresentou atraso foi de 39 semanas, sendo considerado a termo. No recém-nascido a termo, as lesões cerebrais geralmente apresentam-se em tronco cerebral e córtex118. O sujeito da pesquisa com asfixia neotal apresentou desenvolvimento abaixo da média no comportamento motor, e embora não tenham sido realizados exames complementares no momento da avaliação, sugere-se que uma lesão no córtex motor primário pode estar relacionada, visto que é responsável pelo início do comportamento motor119.
Evidenciou-se que um lactente que se apresentou abaixo da média para linguagem e motricidade tinha como indicador a hiperbilirrubinemia. Narra-se que os índices elevados de hiperbilirrubinemia levam à icterícia patológica, que pode se originar de condições como incompatibilidade sanguínea; anormalidades hepáticas, biliares ou metabólicas ou infecção. Altos níveis de bilirrubina podem acarretar em déficits neurológicos e até a morte120.
Em razão disso, a fototerapia na maternidade é utilizada para tratamento da maioria dos casos de hiperbilirrubinemia/icterícia120. Relativo ao tema, um estudo realizado na Índia concluiu que elevados índices de bilirrubina estão associados ao atraso do desenvolvimento aos seis meses de idade e os autores explicam ainda que o índice de bilirrubina é diretamente proporcional ao nível de desenvolvimento, ou seja, quanto maior a bilirrubina, pior tende a ser o desenvolvimento121.
No mesmo sentido, um estudo recente realizado na Paraíba, concluiu que níveis elevados de hiperbilirrubinemia, em que a icterícia é tratada por meio da fototerapia, aumentou em 7,9 vezes as chances de atrasos no desenvolvimento infantil122.
Outro lactente que também apresentou-se abaixo da média para dois domínios do desenvolvimento (linguagem e motricidade) possui como indicador de risco o uso de drogas pela mãe durante a gestação, sendo a droga utilizada a cocaína.
Reproduz-que os malefícios do uso da droga se iniciam na gestação e desde então comprometem o desenvolvimento fetal, por causar vasoconstricção e consequente diminuição da chegada de oxigênio e nutrientes por via placentária123. Em um estudo longitudinal realizado por Richardson, Goldschmidt, Larkby124 (2007), concluiu-se que os lactentes expostos a drogas cresceram mais lentamente quando comparados aos não expostos e que a cocaína tem efeito deletério ao desenvolvimento infantil futuro.
Um lactente com atraso na linguagem apresentou como indicador de risco doença infecciosa adquirida pela mãe durante a gestação, sendo ela a toxoplasmose gestacional. A toxoplasmose é uma protozoose cosmopolita, causada pelo Toxoplasma gondii. Dependendo do período gestacional em que a mulher se encontra, as manifestações clínicas fetais podem variar. A toxoplasmose pode causar deficiência auditiva congênita no neonato ou pode estar associada ao aparecimento tardio da perda auditiva ou a progressão da perda auditiva já existente ao nascimento125. O lactente em questão vem sendo acompanhado pelo Programa de Monitoramento do Desenvolvimento Auditivo e de Linguagem.
De acordo com Zorzi126 (2002) as funções motoras orais são pré-requisitos para as
constatou-se um lactente acompanhado pelo serviço de genética da Instituição e, devido à assimetria da boca, apresentou desenvolvimento da linguagem abaixo da média, bem como, apresentou atraso no desenvolvimento motor, o que sugere que a influência genética a esclarecer também acarretou em déficits na área da motricidade global.
Na pesquisa há dois lactentes com escores abaixo do esperado no domínio motor tinham como indicador de risco o uso de medicações ototóxicas. Revela-se que não foi encontrado na literatura relação entre esses fatores (drogas ototóxicas e desenvolvimento motor), o que sugere que podem não ter determinado o desfecho negativo no desenvolvimento desses indivíduos da amostra.
Sobre os dois mencionados lactentes, um tinha esse fator de risco combinado à consanguinidade, causa que pode desfavorecer o desenvolvimento. O outro tinha o indicador de risco de forma isolada porém apresentou resultado “menos que o adequado” para as
affordances conforme o AHEMD-IS, sugerindo que para esse indivíduo, o ambiente pode ter
sido o principal fator de atrasos no desenvolvimento.
Outros dois lactentes com atrasos no desenvolvimento motor tinham como indicador de risco o histórico familiar de surdez, um de forma isolada e outro combinado com a consanguinidade. O sujeito com o fator de risco combinado com a consanguinidade, além dos fatores biológicos apresentava ambiente pouco favorável à estimulação, conforme a classificação no questionário AHEMD-IS, sendo que este foi classificado como “menos que o adequado”. O outro lactente que apresentou histórico familiar de forma isolada apresentava ambiente adequado, não sendo possível explicar as razões para atrasos no desenvolvimento motor.
A literatura ainda é escassa em estudos que avaliem o desenvolvimento infantil de forma global para lactentes com IRDA, a presença desses indicadores ainda é relacionada principalmente aos atrasos de linguagem. Fernandes et al.127 (2008) ao avaliar a linguagem de lactentes, encontrou que a função mais alterada aos 12 meses foi a expressiva. Foi observado também como os sentidos audição e visão são primordiais no primeiro ano de vida e a relação destes com a linguagem oral, pois foi revelada associação entre os bebês que apresentaram alterações transitórias entre 4 e 8 meses de idade e os atrasos na linguagem oral aos 12 meses. Destaca-se que neste estudo, dos 20 casos alterados aos 4 e 8 meses, 5 continuaram a apresentar atraso aos 12 meses.
Resultados semelhantes foram observados em um grupo de lactentes aos 12 e 24 meses, considerados como desvios transitórios, levando a equipe a concluir sobre a importância
e a necessidade de orientar a família para a intervenção adequada, pois de outra forma, as alterações poderiam se tornar persistentes. Nos encontros com as famílias, em especial a mãe, havia sempre trocas de informações e experiências entre os pais e os pesquisadores, que poderiam ter interferido positivamente na relação entre a criança e os familiares, favorecendo o desenvolvimento desses lactentes128.
No estudo em questão, não foi possível determinar estatisticamente quais indicadores de risco são determinantes para os atrasos no desenvolvimento de tais lactentes, entretanto acredita-se que os fatores de risco combinados com as características ambientais desfavoráveis culminaram com atrasos no desenvolvimento infantil.