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2 Fundamentação teórica

2.3 O processo empreendedor

2.3.1 Desenvolvimento da visão

A ação empreendedora balizada pela visão é um processo sistêmico que fornece ao empreendedor estrutura para a reflexão e a ação, dotando-o de equilíbrio entre o sonhar e o realizar (FILION, 1993).

Os empreendedores não apenas definem situações, mas também imaginam visões sobre o que desejam alcançar. Sua tarefa principal parece ser a de imaginar e definir o que querem fazer e, quase sempre, como irão fazê-lo. (FILION, 2000, p. 3).

Filion (1993, p. 52) define visão como sendo “uma imagem, projetada no futuro, do lugar que o empreendedor deseja que o seu produto venha a ocupar no mercado. É, também, uma imagem do tipo de empresa necessária para alcançar esse objetivo”, ou seja, uma projeção que correlaciona o produto, o mercado e o tipo de organização.

Filion (1993) identificou três categorias de visão (Figura 2): as visões emergentes, que são formadas em torno de idéias de produtos/serviços e a partir de um processo de seleção com a identificação de um produto/serviço em particular, tornam-se referência e base para o desenvolvimento da visão central; a visão central, resultado de uma ou combinação de várias visões emergentes, se subdivide em visão externa, que “focaliza o lugar que o empreendedor quer que seus produtos ou serviços ocupem no mercado”, e em visão interna, que “focaliza o tipo de organização que ele necessita criar para ser capaz de atingir seu objetivo”; e as visões complementares, que consistem na identificação de um conjunto de atividades gerenciais que sustentam a realização da visão central (FILION, 1993, p. 53).

Figura 2 – Três categorias de visão

Fonte: Filion (apud DOLABELA, 1999a, p. 76)

Matos e Chiavenato (1999, p. 41-42) definem a visão como fio condutor para o processo de planejamento estratégico eficaz das organizações.

[...] o termo visão é geralmente utilizado para descrever um claro sentido do futuro e a compreensão das ações necessárias para torná-lo rapidamente um sucesso. A visão representa o destino que a empresa pretende transformar em realidade.

O desenvolvimento da visão é o primeiro passo para alcançar determinado objetivo e implica ter capacidade de observação crítica e percepção para solucionar problemas ou identificar oportunidades contextualizados (MATOS; CHIAVENATO, 1999).

Schori e Garee (2005) mostram que a maior dificuldade para garantir o êxito de qualquer negócio está em identificar as verdadeiras necessidades do consumidor e especificam dois fatores que determinam o grau de consonância do negócio com as necessidades do mercado para garantir sua sustentabilidade: o instinto visionário e a rapidez nas decisões.

O instinto visionário reflete a capacidade do empreendedor, de forma inequívoca e realista, de prever em que direção o negócio deverá ir e o que deve ser feito para chegar lá, acoplados a isso a energia e o entusiasmo necessários para assegurar o alcance dessa visão. Já a rapidez na tomada de decisão permite aproveitar as oportunidades na medida em que elas são disponibilizadas pelo desenvolvimento da visão em consonância com a velocidade estabelecida pelo mercado.

A partir de estudos empíricos baseados na realidade de empreendedores de sucesso de vários países, inclusive brasileiros, e de seus empreendimentos, Filion (1999b) propôs um modelo de desenvolvimento da visão sustentado por quatro elementos (Figura 3): a visão de mundo do indivíduo (Weltanschauung)1, ou seja, a realidade que a pessoa observa através dos seus filtros de valores, atitudes, humor e intenções subjacentes à percepção; sua energia configurada, como o tempo de dedicação e a intensidade como são executadas as atividades profissionais; sua liderança, que terá impactos no nível de visão e na extensão de suas realizações; e seu sistema de relações, considerado por Filion o elemento mais influente para explicar a evolução da visão, pois, entre outros, “constitui a condição necessária à congruência entre as imagens (modelo mental ou Weltanschauung) dos que querem

1 Palavra de língua alemã que não tem correspondente exato na língua inglesa, sendo traduzida

normalmente por “imagem”. No Brasil a tradução corrente tem sido visão de mundo (FILION, 1991, p. 65). Dolabela, no seu livro “Oficina do Empreendedor”, a traduz como sendo “conceito em si”.

empreender alguma coisa e a realidade com a qual ele se confronta”. (DOLABELA, 1999a; FILION, 1991; LIMA, 2001, p. 5-6).

Figura 3 – O processo de criação da visão Fonte: Filion (1991, p. 64)

De forma prática, Filion (1999b) estabelece um diagrama com seis etapas, a serem desenvolvidas de forma consecutiva, para a construção do processo visionário, o qual está apresentado na Figura 4.

Figura 4 – Etapas do processo visionário Fonte: Filion (1999b, p. 9)

Fábio Mayer (2005), em seu artigo “Os cinco sentidos do negócio”, faz referência à necessidade de treinar a visão empresarial, pois:

A falta de visão empresarial transforma os empreendedores em míopes gerenciais e pode comprometer o andamento e o desempenho da empresa. Atrapalha também o início de um novo negócio, ofuscando os olhos na busca de oportunidades no mercado. Filion (apud LIMA, 2001, p. 6),.em seus estudos enfatiza a importância da visão como focalizador e estimulador do processo de aprendizagem do empreendedor no contexto da organização.

No decorrer destas pesquisas, o conceito de visão foi identificado como estruturador para conceber e organizar um sistema de atividades. Ele permite precisar a aprendizagem requerida para realizar as atividades projetadas. [...] É a partir do momento em que as intenções se concretizam sob a forma de visões, quer dizer, verdadeiros projetos a realizar, que se pode definir as necessidades de aprendizagem. É isto que vai incitar o futuro ator a aprender. Reportando-se ao diálogo entre a Alice e o gato Ceeshire, quando ele a questiona sobre o rumo de seu caminho e ela responde “não sei”, ele diz: “então, qualquer caminho serve”, e fazendo-se uma analogia na busca do rumo para desenvolver o processo empreendedor tem-se no desenvolvimento de visão de negócios a resposta que permite ao empreendedor escolher o caminho.

A escolha do caminho balizada pelo desenvolvimento da visão de negócios, construída a partir da prospecção mercadológica da idéia de produto e/ou serviço, e do entendimento do tipo de organização necessária para operacionalizar essa visão, permitirá racionalizar e focar as ações a serem desenvolvidas na operacionalização do processo empresarial.

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