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Vários estudos sociológicos concluíram a existência de uma relação particular entre a excelência escolar dos jovens e a classe social e escolaridade dos pais, o que representa uma situação de tendencial manutenção das desigualdades sociais através dos processos de escolarização.

A família desempenha um papel fulcral na promoção de actividades de aprendizagens intelectuais e culturais diversas, dependente do seu nível cultural e socioeconómico, que permitem aos adolescentes adquirir confiança, promovendo o seu desenvolvimento

(Hargrove, Creagh e Burgess, 2002 citado por Sobral et al., 2009:15). Parece-nos que os

adolescentes beneficiários do RSI nem sempre têm as mesmas oportunidades de exploração do conhecimento, sendo que, em certos casos, a exploração é um privilégio de se pertencer a um determinado estatuto socioeconómico, podendo assim ver diminuídas as suas experiências de vida e de formação pessoal (Sobral et al., 2009:15)

Schliebner e Peregoy (1994) estudaram os efeitos do desemprego, como uma situação de crise, nas famílias e nas crianças. Os resultados apontam possíveis sentimentos de incerteza, medo do desconhecido, separação e inquietação, afectando particularmente a forma como os adolescentes vêem o seu próprio futuro no mundo de trabalho. Referem ainda que os filhos podem percepcionar a frustração dos pais nas suas tentativas para encontrar emprego, desenvolvem percepções de incontrolabilidade neste domínio, conduzindo a uma falta de confiança em si próprio e no próprio sistema económico. Deste modo, mantendo uma visão mais pessimista do mundo do trabalho, é compreensível que experienciem ansiedade, baixa auto-estima e mal-estar subjectivo, vendo diminuídas as aspirações e oportunidades no futuro (Schliebner e Peregoy, 1994 citado por Sobral et al., 2009:13).

Num estudo realizado em Portugal, de J. Azevedo (1991: 39), foi possível observar-se que quanto às expectativas escolares, “a via de ensino” foi mais preferida pelos alunos de nível socioeconómico (NSE) alto e médio, enquanto as “vias profissionais” foram as mais escolhidas pelos alunos de NSE baixo. No que se refere às expectativas profissionais, os alunos de NSE alto situam as suas escolhas nas profissões de maior prestígio social e os alunos de NSE baixo com escolhas próximas das profissões dos pais.

Sobral et al. (2009) estudaram a influência da situação profissional parental no desenvolvimento vocacional dos adolescentes e concluíram que, de facto, os filhos de pais desempregados, tendo expectativas de futuro mais baixas, apresentaram um comportamento mais ambivalente e disperso no domínio vocacional, podendo assim ter uma visão mais

pessimista face ao futuro, nomeadamente, em termos escolares e profissionais. Esta visão mais pessimista leva a que se sintam mais desmotivados relativamente às suas escolhas futuras. Assim, quando as famílias vivem situações de insegurança profissional e discursos negativos face ao trabalho, os adolescentes terão maiores dificuldades no investimento escolar, podendo ter maiores impedimentos para se envolver em projectos que impliquem trabalho e persistência, “podendo adoptar projectos definidos pelos seus significativos no sentido do seu desinvestimento perpetuando os deficits da família de origem” (Sobral et al., 2009:19). Montondon (2005:497) refere que, quanto às escolhas para o futuro, as crianças levam em conta as realidades sociais, entre as quais, os resultados escolares e as características das profissões, pesadas ou demasiado exigente.

Um outro factor que surge na literatura como determinante das diferenças de aspirações profissionais é o género. Assim, num estudo realizado por Mendez e Crawford (2002:99), foi possível observar que as raparigas estavam interessadas num número mais variado de profissões e apresentavam uma maior flexibilidade nas suas aspirações profissionais. Por outro lado, os rapazes aspiraram, significativamente mais do que as raparigas, a profissões de maior prestígio social. Do mesmo modo que a frequência escolar não é igual, consoante se trate de um rapaz ou de uma rapariga.

De realçar também os estudos de Rodrigues (2009:261), que permitem perceber a importância que a escola e o trabalho assumem para os beneficiários do RSI, como condutores para a inserção ou reinserção socioprofissional. Os mesmos sujeitos referem as expectativas que têm para o futuro dos filhos que tenham uma vida melhor que a dos pais e defendem que, para tal, torna-se necessário que os filhos tenham mais formação e um emprego. Claramente, a escola ocupa para estes sujeitos o papel de agente potenciador da integração profissional e

de mobilidade social.

Os estudos que se debruçaram sobre a diferenciação entre as classes na relação com a escola salientam que os pais pertencentes às classes médias tendem a apresentar maiores aspirações e expectativas quanto ao futuro escolar e profissional dos filhos e sentem maior eficácia na relação que mantêm com a escola, comparativamente às famílias das classes populares. Mas outros estudos têm revelado que as famílias de meios sociais mais desfavorecidos atribuem maior importância às funções escolares tradicionais de instrução e esperam que a escola assegure a sua função de promotor social. Concluiu-se, ainda, que estes pais apresentam atitudes menos críticas e mais conformistas face à escola, comparativamente às famílias de estrato social mais elevado (Seabra, 1999: 32).

O aprofundamento destas questões e do debate teórico inerente constitui-se como um dos eixos deste trabalho.

II

Metodologia

Iremos organizar este capítulo indicando os objectivos deste estudo, seguindo-se a caracterização do contexto de investigação, o desenho metodológico, o método e as técnicas de avaliação, as hipóteses do estudo, o plano e a caracterização da amostra, por último, explicaremos os procedimentos e questões éticas de investigação e as dificuldades de investigação.