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2. Património Industrial

3.3 Desenvolvimento do projeto museológico na Mundet

Segundo (FILIPE:2000) o projeto de municipalização da Mundet colocou contornos fundamentais para a própria evolução do EMS enquanto instituição museológica. O futuro deste núcleo museológico, claramente integrado num contexto de paisagem urbana e do meio social envolvente, sustentava a questão de reordenamento do território e de requalificação da área urbana industrial132.

O Ecomuseu Municipal do Seixal (EMS) instituído em 1982, comprometeu-se inicialmente com a recolha de máquinas e objetos industriais, ainda quando a fábrica se encontrava em funcionamento. Após o seu encerramento, recebeu uma doação de espólio pela Comissão de Trabalhadores, recorrendo também ao levantamento sumário e inventariação do sítio industrial Mundet.

Em 1991, o sítio industrial é inserido na zona de proteção do Núcleo Urbano Antigo do Seixal, no que consta do “Regulamento de Proteção aos Núcleos Urbanos Antigos do Concelho do Seixal”, publicado em Edital N.º 91, de 3 de Julho de 1991 CMS.133 É através de deliberação da CMS, que decorreu a 11 de Janeiro de 1995, juntamente com a Assembleia Municipal, em 23 de Fevereiro de 1995, que o complexo industrial é considerado Imóvel de Interesse Concelhio.

A municipalização das instalações Mundet decorre no ano seguinte, através da sua compra em hasta pública pela CMS em 1996. É a partir desse anoque se estabelece uma ligação orgânica entre a entidade e o lugar, dando inicio, ao que a autora designa por um processo de (re)perspetivação e de renovação, face ao programa museológico e princípios institucionais assumidos pelo EMS. Deste processo, é possível referenciar algumas das questões iniciais que anunciavam uma renovação profunda da instituição.

Às questões colocadas pela autora, evidencia-se alguns objetivos e princípios tomados como missão institucional, correspondendo na prática aos desafios assentes no processo de musealização do Núcleo Mundet.

132 FILIPE, Graça (2000) Cortiça, Património Industrial e Museologia: Recursos de Desenvolvimento à

escala do território do Seixal. Em: Conferência Internacional “Cortiça, Património Industrial e Museologia”, Seixal, 2000;Cortiça, Património Industrial e Museologia (2003) [Documento eletrónico]. Multimédia. EMS-CMS, Seixal.

133 Cf. “Carta do Património do Concelho do Seixal - O sítio industrial da Mundet (Seixal) inventário de

património cultural imóvel” (2008) Em: Ecomuseu Informação, Boletim Trimestral (Jan. Fev. Mar.), N.º 46, p. 17

61 Segundo (FILIPE, 2000:2), “i) Que valor atribuía a comunidade ao espólio da Mundet e que lugar ocupava na memória dos antigos trabalhadores? ii) Qual o modelo orgânico e quais as formas por que se deveria proceder à aplicação de funções museais ao sítio, aos edifícios, aos equipamentos industriais, às memórias presentes da vida na/da fábrica? iii) Qual o âmbito e a dimensão da intervenção municipal, com que parceiros se iria relacionar e que lugar assumiria o ecomuseu, quanto ao património industrial corticeiro da Mundet?”

É através da Carta do Património do Concelho do Seixal, que são estabelecidas as medidas de proteção e valorização do sítio industrial134, face ao desenvolvimento de um programa museológico representado in situ, conduzindo à preservação e manutenção do edificado e envolvente paisagística, anunciando possibilidades de reconversão face ao ordenamento de território, planeamento urbanístico e desenvolvimento sociocultural do Seixal, com vista à patrimonialização do sítio industrial.Segundo este documento (AFONSO, 2008) estão sequenciadas as medidas de proteção e principais intervenções realizadas na reconversão do núcleo Mundet, que tratamos de sintetizar seguidamente.

Em Maio de 1999, é entregue a proposta de classificação de património cultural do imóvel à Direção Regional de Lisboado Instituto Português de Património Arquitetónico (IPPA). Atualmente, pertencente à Direção Geral do Património Cultural (DGPC), tendo sido agregado ao Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico (IGESPAR).135

Durante a fase inicial de musealização da Mundet, são configurados projetos de conservação do edificado e adaptação do espaço expositivo136, nomeadamente no edifício das Caldeiras Babcock & Wilcox (imóvel 96), com a sua abertura em Junho 1997. O Edifício recebeu neste período de consolidação, designadamente, a exposição fotográfica de Rosa Reis, “Mundet – No pulsar do Tempo” e de Luís Badosa,

134 Cf. “Carta do Património do Concelho do Seixal - O sítio industrial da Mundet (seixal) inventário de

património cultural imóvel” Em: AFONSO, Fátima (2008) Ecomuseu Informação, Boletim Trimestral (Jan. Fev. Mar.) n.º 46, p.17

135Em 2007, é criadooIGESPAR, no âmbito do Programa de Reestruturação da Administração Central do

Estado (PRACE), que resultou da união do Instituto Português do Património Arquitetónico (IPPA), Instituto Português de Arqueologia (IPA) e Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Em 2011, é criado a DGPC, no âmbito do Plano de Redução e Melhoria da Administração Central do Estado (PREMAC) que agregou os serviços do IGESPAR e do Instituto dos Museus e da Conservação (IMC).

136FILIPE, Graça (Coord.) (2002) “Água, Fogo, Ar, Cortiça - Exposição Temática sobre a Mundet”

62 “Iconografia Industrial”. Em 2000, o núcleo estendeu-se para cobrir o edifício das Caldeiras de Cozer Cortiça (imóvel 89), antigamente designado Caldeiras dos Moços, integrando-o num programa expositivo com recurso a uma narrativa transitiva entre os dois edifícios, ao que se intitulou a exposição de “Água, fogo, ar, cortiça” (2000-2002). Pretendia-se a constituição de um percurso expositivo com representação in situ do equipamento industrial, conduzindo à transmissão de conhecimento técnico sobre os principais processos de fabrico na indústria corticeira e interdependência entre as oficinas que resultava no reaproveitamento energético do vapor. Da mesma forma foram reconvertidos o edifício dos refeitórios (imóvel 14) para adaptação de um espaço expositivo, o edifício da Casa da Infância (imóvel 84) para constituição do Serviço de Inventário e Estudo de Património Industrial e extensão das Reservas EMS.

Entre as exposições apresentadas, distinguem-se a exposição permanente “Quem diz Cortiça diz Mundet, Quem diz Mundet diz Cortiça” e a exposição temporária “Cortiça ao Milímetro” (2008-2009) que focava nos produtos acabados e processos de fabricação resultantes da indústria corticeira137, como o fabrico do papel de cortiça na Mundet (1915-1988).

A autora refere uma ideia de transitoriedade138, inerente ao processo de preservação de património, ao qual, as metodologias de intervenção são tendencialmente (re)contextualizadas em virtude de uma reutilização do espaço e práticas museológicas assumidas no disposto património.

Em 2001, é aprovado o Programa de Qualificação e de Desenvolvimento do Ecomuseu (PQDE) pela CMS, que convoca uma futura integração da Mundet no Circuito de Património Industrial do Seixal, como analisaremos mais à frente.

Entre 2003 e 2004, é elaborado um levantamento topográfico e arquitetónico dos edifícios das Caldeiras Babcock & Wilcox, Caldeiras de Cozer, Casa de Infância, Oficinas de Rebaixar, balneários, entre outros imóveis destacáveis. Também em 2006, marcado com a instalação dos serviços centrais do EMS no edifício da antiga Casa da Infância, são realizados sucessivos projetos de levantamento topográfico que se

137AFONSO, Fátima (Coord.) “Exposições- Núcleo da Mundet EMS” (2008) Ecomuseu Informação,

Boletim Trimestral (Jan. Fev. Mar.) n.º 46, p. 3

138 FILIPE, Graça (Coord.) (2002) “Água, Fogo, Ar, Cortiça - Exposição Temática sobre a Mundet”

63 prolongam até 2008, no âmbito do Programa de Apoio à Qualificação de Museus (PAQM) integrado na Rede Portuguesa de Museus (RPM).

Segundo a Proposta de Regulamento do EMS139, apresentados em 2007 pela Divisão de Património Histórico e Natural (DPHN), unidade orgânica da CMS a que o EMS reporta. Podemos distinguir os principais objetivos referentes ao Núcleo da Mundet, sendo designadamente: i) Divulgação da história e a transmissão da memória da fábrica, do Núcleo Urbano Antigo do Seixal, da comunidade e do território concelhio; ii) Preservação, investigação, interpretação do património industrial, constituído por o acervo museológico e imóvel com representação in situ dos seus valores patrimoniais; iii) Promoção e valorização da cortiça na atualidade, transmitindo um conhecimento técnico dos processos de fabricação e preparação corticeira, identificando a relevância cultural da cortiça, enquanto um elemento simbólico e identitário no seu contexto nacional.

139 Cf. Proposta de Regulamento do EMS (2007) redigido por Divisão de Património Histórico e Natural-

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