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Desenvolvimento e documento virtual

Notícia, documento e contexto – ferramentas para uma sociologia do texto em rede

5.1. Desenvolvimento e documento virtual

A premissa do desenvolvimento como papel estatal se atrela a uma referência dupla. De um lado, a modernização legitimadora dos agentes políticos que buscam reproduzir sua permanência na esfera do poder através

da confirmação dos planos de ação imaginariamente presumidos para a continuidade do projeto moderno - seja ele qual for, no contexto dos discursos do momento - é uma forma de garantia da centralidade do Estado enquanto agente de incentivo por meio de ações de infraestrutura. Do outro, a racionalização administrativa, particularmente convocada no Ceará por um rompimento com antigas formas de administração agrária e por uma caça à vocação econômica nos anos 1980, impõe novo ritmo de esclarecimento das ações de quadros de funcionários, elaborando uma justificativa perene da existência da máquina por meio de um desenvolvimento interno e constante da mesma - que vai desde a exposição pedagógica de sua estrutura até a constante publicidade das atividades desempenhadas pela figura do governador.

Dessa forma, o desenvolvimento se atrela como um parâmetro de definição do Estado, mas não o esclarece em si mesmo. É patente perguntar, sob o crivo da história comparativa das esferas políticas em jogo, quais as formas pelas quais esse desenvolvimento é tomado e qual é, essencialmente, o lugar do Estado na promoção do mesmo - e na de seus silêncios e lacunas. Como, no correr de uma releitura da atividade econômica do estado cearense e dos incentivos necessários a seu desenvolvimento, o poder público tem construído e operado sua própria imagem?

É ai, nesta câmara de relações inexatas e atualizadas de forma veloz, que o documento se pauta como esfera da memória e do “congelamento”. Se as autodefinições públicas do poder ou as configurações gerais deste acerca do território regionalizado não são objetos per se, e sim subjetividades políticas em uma disputa constante e rápida por espaços de controle da hegemonia, a memória documental se veicula como o substrato verdadeiramente público do fenômeno. Tomando ainda o formato técnico desse processo, desse empreendimento, nos tempos da web e de sua nova numeração simbólica – de uma web 2.0, baseada nos sites para uma web 3.0, baseada em redes de perfis – nos damos conta de três características que afetam essa dimensão do documento estatal: 1) ele se tornou massivo, não apenas ao se portar à multidões indistintas, mas por ser produzido como informação massiva, ampla

sua permanência, ele pode ser retirado, apagado e não há bancos fixos ou oficiais para sua salvaguarda – o que nos leva a 3) falamos de um objeto que pode ser operado para além das estruturas de sua produção, com uma chancela variável, uma vez que ele pode ser replicado, mas as condições de sua legitimidade enquanto verdade oficial se perdem no processo dessa reprodução (como a validade de qualquer informação na rede).

Cada um desses elementos coloca a dinâmica da definição estatal e de sua investigação – em campos singulares de trabalho. Mas como o desenvolvimento expressa-se dentro de um universo de documentos tão específicos?

A virtualidade dos documentos aqui analisados propõe uma reflexão sobre o estatuto inicial dos mesmos. É conveniente afirmar que tratam-se de uma espécie de oralidade formal (no sentido de uma comunicação imaterial em princípio), cristalizada em um tipo diferente de materialidade e pronta para a materialidade convencional (porque pode ser impressa). O caráter dúbio da notícia disposta na internet prevalece: ele é documento físico em potência, difundido e sob posse pública uma vez que ofertado na World Wide Web. Em suma, ele começa como uma fala potencialmente editável ou mesmo afeita à fácil deturpação em sua circulação, uma vez que sua legitimidade não encontra-se na sua produção inicial (carimbo, marca d’água, papel timbrado), mas no local de sua exposição (literalmente o sítio, o site).

Aqui registra-se o elemento primário de uma etnografia das interwebs: a validade dos produtos documentais sobrevive na validade dos locais de fala. Ainda que sistemas de autenticidade sejam desenvolvidos desde os anos 2000, na forma de códigos de confirmação (portados pelo documento e verificados no site-fonte) o problema da validade e confirmação de origem permanece como a pergunta “como entender o sentido do discurso oficial sem verificar o sistema que o gera e alimenta?”. Traduzida como uma necessária atenção para com a maneira pela qual os discursos são organizados em seu “lugar de origem” no conjunto de diálogos e monólogos da Rede.

Como vimos, entre os fins dos anos 1990 e o meio da primeira década do novo século, a participação acelerada dos governos na internet na forma de auto exposição e vigilância levou a uma reprodução do campo político para

espaços antes ocupados por ciência e negócios (as vias da nova “internet”). Junto do campo, veio seu elemento fundamente: a legitimidade e os modos de legitimação, transferidos (ou melhor: replicados) da mídia impressa e televisiva para os ambientes virtuais; primeiro como que adicionados às novas vitrines eletrônicas, depois partes de um complexo sistema de participação discursiva gestado pela adesão de inúmeros grupos (partidos políticos, movimentos sociais, etc) e pela relativa popularização dos meios de acesso ao novo cenário da “rede mundial de computadores”.

A oficialidade documental, portanto, depende do território virtual, de seu lugar de elaboração inicial, de modo dramático. E a estruturação desses lugares, dessa espacialidade da informação em rede, confere ao corpo do documento de Estado um teor de dependência (porque limitado a suas fronteiras, como já dissemos) e ao mesmo tempo de sistema controlado – uma vez que é o Estado o senhor pleno da manutenção ou da destruição da notícia, do documento, da fala. Os documentos recebem esse signo de validade, portanto, quando observados e conferidos mediante esse lugar de natividade: as páginas onde sua existência pode ser confirmada pelo poder da instituição falante-produtora.

Em qualquer medida a internet possibilitou uma vasta reprodutividade do texto e do dito(CEPIK e EISENBERG, 2002), estabelecendo um panorama de rede e de acesso informativo a conteúdos antes limitados a arquivos físicos. Ainda assim não tornou igualmente simples a replicação das validades. Somando isso a uma prática de descarte, visível no desenvolvimento de sites oficiais em cada troca de gestão (não importa se em esfera federal, estadual ou municipal), nos colocamos diante de uma ação de fala política que mantém o sentido de sua oficialidade em linhas muito restritas.

A descartabilidade das informações se revela na existência de acessos claros a materiais produzidos por gestões anteriores. Mesmo em casos em que a gestão seguinte tem algum sentido de continuidade política, como no caso da gestão de Dilma Rousseff, sucessora do governo Lula, os documentos virtuais são realocados ou apagados na medida das reestruturas ministeriais, para citar um exemplo. No Ceará, a transição do governo do PSDB para o PSB redefiniu os sites estatais, indo além de uma troca de azul para verde na caracterização

estética do mesmo: a maior parte do passado e das informações de realização anteriores desapareceu, apagando o acesso público dessa memória burocrática.

Esse esvaziamento reforça o controle da legitimidade. É necessário lembrar que o endereço oficial do governo do estado, no Ceará, bem como o de qualquer governo local ou regional no Brasil, é o mesmo, independente da gestão. A mudança de administração, portanto, tende a revogar os espaços do dito, “tomando posse” da condição de fala e produzindo, deliberadamente, esquecimentos.