2.3 Memória de trabalho
2.3.3 Desenvolvimento e avaliação da memória de trabalho
Para Gathercole & Baddeley (1993), os componentes da memória de curto prazo estão presentes na infância e, com o desenvolvimento da criança, ocorre maior mudança na eficiência dos componentes da memória de trabalho. O circuito fonológico está presente e seus subcomponentes estão em funcionamento na idade de 4 anos, mas a rechamada subvocal é um processo mais eficiente e sofisticado em crianças mais velhas, em torno dos 7 anos. O melhor desempenho de crianças maiores em memória para material falado pode ser explicado pelo aumento simultâneo na velocidade da articulação e da rechamada subvocal. Assim, tanto a memória quanto a velocidade de articulação aumentam em função da idade.
Segundo Flavell, Miller & Miller (1999), o desenvolvimento da memória inicia desde muito cedo, e os bebês apresentam capacidades de retenção de informações muito boas que vão aumentando gradualmente durante a infância, com vários progressos até a idade de dois anos, tanto na memória de curto quanto de longo prazo. Considerações lógicas e uma grande quantidade de pesquisas indicam que os bebês têm algum tipo de capacidade de memória, pois fazem muitas coisas que implicam logicamente em um sistema de memória, como a habituação da atenção, que pressupõe alguma forma de memória de reconhecimento, o reconhecimento de pessoas, objetos e eventos familiares e a imitação e a busca por objetos escondidos (permanência do objeto), que requer a memória de eventos prévios.
Gathercole & Baddeley (1993) referiram que, de acordo com o modelo de memória de trabalho, a memória imediata para material verbal é mediada pelo executivo central e pelo circuito fonológico.
As tarefas mais utilizadas para investigar a memória de trabalho incluem medidas de digit span e repetição de listas de não-palavras, as quais apresentam alguns processos cognitivos diferentes e outros em comum na sua realização.
O digit span, é o número máximo de dígitos falados que alguém pode relembrar e repetir imediatamente na mesma ordem (GATHERCOLE & BADDELEY, 1993) e, neste trabalho será referido como tarefa de repetição de dígitos. Esta tarefa mostra-se eficiente e tem sido muito utilizada também no Brasil para avaliação da memória de trabalho (IZQUIERDO, 2002). Neste trabalho foi utilizada a tarefa de repetição de não-palavras, a qual também é freqüentemente utilizada em pesquisas estrangeiras e brasileiras para avaliação da memória fonológica.
Baddeley (1986) relatou que a repetição de não-palavras solicita mais a memória fonológica devido ao fato do input ser desconhecido e não sujeito às influências lexicais ou ao uso de estratégias mnemônicas, as quais possibilitariam o mascaramento das reais condições do sistema de memória.
Snowling et al. (1991 apud GATHERCOLE et al., 1994) consideraram que durante a repetição de não-palavras estão envolvidos processos cognitivos, como a memória fonológica e o conhecimento de longo prazo. A memória fonológica é necessária e especializada para o armazenamento das seqüências fonológicas não familiares e o conhecimento de longo prazo de vocabulário pode funcionar eventualmente como um suporte para repetição de não-palavras, quando a não-palavra for muito parecida com palavras reais.
Gathercole & Baddeley (1993) mencionaram que o teste mais eficaz para avaliar a memória fonológica é o de repetição de não-palavras, uma vez que ao repetir a seqüência de
dígitos a criança usa evocação de itens familiares e, assim, a memória de longo prazo também atuaria. Deve-se a isso a importância de usar não-palavras para avaliar a memória fonológica, em vez de usar apenas seqüências de dígitos.
Gathercole et al. (1994) encontraram correlação significativa entre as tarefas de repetição de não-palavras e de dígitos, mostrando que esta correlação é consistente com a visão de que as duas medidas são influenciadas pela memória fonológica, embora a repetição de não-palavras seja melhor preditora das habilidades em linguagem.
Para Adams & Gathercole (1995), a tarefa de repetição de não-palavras difere da tarefa de dígitos quanto ao modo como avalia a memória fonológica, sendo que a repetição de não-palavras mostra-se uma medida mais sensível para avaliar habilidades em linguagem.
Adams & Gathercole (1996) referiram que na repetição de não-palavras há a adição do processo de memória fonológica, em comparação com a repetição de dígitos, e também uma maior demanda desse processo para a realização conjunta da segmentação fonêmica e de instruções articulatórias. Ambas as tarefas requerem a habilidade para manter a informação fonológica após curtos períodos de tempo e, também, requerem precisão na percepção e na produção oral dessa informação fonológica. Na repetição de dígitos é necessária a lembrança de formas fonológicas familiares, enquanto na repetição de não-palavras novas formas fonológicas precisam ser processadas e retidas para serem repetidas. Cada uma das tarefas apresenta um nível diferente de manutenção e de acesso a novas formas fonológicas na memória de longo prazo, sendo que a repetição de não-palavras pode refletir uma habilidade para perceber, manter e reproduzir a informação fonológica na relativa ausência de conhecimento de longo prazo mais do que o desempenho em dígitos, que necessita do acesso lexical.
Gathercole & Martin (1996) propuseram um papel significativo dos processos de memória de longo prazo para a memória fonológica. Sugeriram que o desempenho nas tarefas de recordação verbal imediata é mediado pelo conhecimento fonológico de longo prazo trazido pela criança.
Alguns fatores, como questões individuais de processamento e fatores ambientais, podem exercer um papel no desempenho das crianças em tarefas de memória. Segundo Gerber (1996), as diferenças individuais na eficácia para codificar informações que chegam na memória fonológica de curto prazo, e para sobrepor informações do input atual com as de longo prazo, interferem na transferência de informações novas para o armazenamento de longo prazo e, assim, no modo como ocorre a aprendizagem.
Capovilla & Capovilla (1997) referiram que a memória fonológica pode ser avaliada por meio de tarefas que requeiram a retenção de conteúdos verbais sem significado durante certos períodos de tempo.
Para Sternberg (2000), fatores fisiológicos, como a maturação do cérebro (o aumento na complexidade das redes neuronais), e fatores ambientais, como o meio no qual organizam-se as informações, o conhecimento prévio sobre determinado conteúdo e as estratégias utilizadas para relembrá-lo ou memorizá-lo, o contexto ambiental com as oportunidades para praticar determinada tarefa de memória, influenciam na capacidade da criança para desempenhar tarefas de memória. O autor referiu também que a atenção tem papel importante sobre a memória. Dessa forma, uma atenção elevada facilita os processos de memória, de modo que quando presta-se atenção é mais fácil a evocação de uma informação.