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Capítulo 1: O Leninismo como práxis política revolucionária

V. Desenvolvimento e subdesenvolvimento: Faces de um mesmo processo

Como vários estudiosos do capitalismo já destacaram, é inerente ao sistema, independente da fase, a busca de novos mercados para a sua reprodução, forjando, dessa forma, um mercado mundial que favoreça a circulação de mercadorias em extensão planetária, estabelecendo vínculos econômicos e alterações no panorama social e político de diversas regiões e sociedade. Nessas condições, o imperialismo engendrou o estreitamento das relações econômicas e a expansão definitiva do capital tecendo vínculos econômicos entre os países centrais e a periferia do sistema. Dessa forma, intensificou a divisão internacional do trabalho que, por sua vez, criou arbitrariamente espaços nacionais especializados em produzir determinados tipos de mercadorias.

No momento, basta-nos ter em conta que, ao lado de outras formas de divisão social do trabalho, existe a divisão do trabalho entre economias “nacionais”, a divisão do trabalho entre países diversos, a que sai dos limites da economia nacional e constitui a divisão internacional do trabalho. (BUKHARIN, 1984, p.18)

É, portanto, nesse contexto que emerge um traço marcante da expansão do mercado mundial e que se aprofunda ainda mais com o imperialismo: o intercâmbio desigual e combinado, como na precisa definição de Leon Trotsky, existente na relação entre os países de capitalismo avançado e os países de economia dependente ou subordinada. Nesse escopo, se constituiu um desenvolvimento desigual em face do processo de formação capitalista próprio de cada região que, por seu turno, engendra características políticas e sociais peculiares; dessa forma a dinâmica econômica de cada país apresenta um processo de desenvolvimento diferenciado, afetando as relações entre os diversos países capitalistas. De sorte que por um lado, a divisão internacional do

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trabalho promoveu o desenvolvimento combinado, no qual os países de capitalismo dependente assimilam e conciliam técnicas modernas de produção com relações econômicas e sociais arcaicas. Nesse processo, verifica-se uma violenta pressão exercida pelos países de capitalismo avançado que dominam e intensificam sistematicamente a exploração sobre as economias subordinadas.

A desigualdade do ritmo, que é a lei mais geral do processo histórico, se manifesta com o máximo vigor e complexidade nos destinos dos países atrasados. Sob o látego das necessidades externas, a vida retardatária é constrangida a avançar aos saltos. Desta lei universal da desigualdade dos ritmos decorre outra lei que, na ausência de uma denominação mais apropriada, chamaremos de lei do desenvolvimento combinado, expressando a aproximação das diferentes etapas, da combinação das fases distintas, do amálgama das formas arcaicas com as mais modernas. (TROTSKY apud LÖWY,1995, p.77)

Nessas condições evidenciamos que o hibridismo socioeconômico, derivado do desenvolvimento desigual e combinado, se manifesta e aprofunda-se com maior transparência no contexto do imperialismo, uma vez que, sob a égide do capital financeiro e das grandes corporações monopolistas, se desenvolveu definitivamente a economia em escala mundial. De forma que, o imperialismo promoveu uma rede de conexões em que todas as nações e Estados em escala mundial mantêm uma relação de interdependência econômica e política que não causa nenhum tipo de prejuízo às formas exploratórias impostas pela divisão internacional do trabalho.

Sendo uma economia produtora de mercadorias, não é regulada segundo um plano que permita o crescimento sincronizado de suas várias partes componentes. Essas partes se desenvolvem [...] aos saltos e em proporções desiguais. Qualquer equilíbrio que possa haver resulta acidentalmente de sua interação mútua [...] e possui um caráter puramente temporário. (SWEEZY, 1962, p. 334-335 apud BRAZ; NETTO, 2012, p. 200).

O caso clássico, que merece ser destacado do ponto de vista do desenvolvimento desigual e combinado, é a América Latina, uma vez que desde sua origem o continente se desenvolveu em estreita consonância com a dinâmica do capitalismo internacional. Nessa via, “[...] a história do subdesenvolvimento latino-americano é a história do desenvolvimento do sistema capitalista mundial.” (MARINI,1978, p.131), sendo que, inicialmente como colônia exportadora de metais preciosos e gêneros tropicais,

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contribuiu de forma significativa para o processo de acumulação primitiva de capital pelas principais nações europeias, o que favoreceu decisivamente o advento da Revolução Industrial. Com a independência política conquistada no início do século XIX, a América Latina originou um conjunto de nações que se articularam economicamente em torno do imperialismo Inglês, firmando-se como países produtores e exportadores de bens primários em troca de manufaturas de consumo e de dívidas.

É a partir desse contexto que os países do continente, em intrincada relação com o capitalismo imperialista europeu, foram inseridos decisivamente em uma divisão internacional do trabalho definidora do processo de desenvolvimento de todos os países da região.

Em outras palavras, é a partir desse momento que se configura a dependência, entendida como uma relação de subordinação entre nações formalmente independentes, em cujo âmbito as relações de produção das nações subordinadas são modificadas ou recriadas para assegurar reprodução ampliada da dependência. O fruto só pode assim significar mais dependência e sua liquidação supõe necessariamente a supressão das relações de produção que ela supõe. (MARINI, 2000, p. 109)

Esse fato intercorreu, pois foi nesse período que surgiu a grande indústria moderna, que se consolidou alicerçada pela divisão internacional do trabalho, ou seja, a grande indústria moderna sediada nos países imperialistas teria sido fortemente prejudicada, caso fosse realizada sobre uma base estritamente nacional sem contato com os países dependentes, em contrapartida formou-se na América Latina um capitalismo de caráter subordinado em relação aos países imperialistas. Desta maneira, a América Latina consolidou suas primeiras atividades econômicas como mera fornecedora mundial de alimentos que foi, sem dúvida, a condição necessária para a sua inserção no mercado internacional, proporcionando o aprofundamento da divisão internacional do trabalho, cuja importância cresceu em sintonia com o desenvolvimento industrial nos países industrializados da Europa e dos Estados Unidos.

Em última instância, o imperialismo revela a inexistência de uma homogeneidade da economia mundial capitalista, uma vez que por meio do intercâmbio desigual gera um fluxo de transferência constante de valor das regiões de capitalismo periférico para os centros mais desenvolvidos do sistema. Nesse sentido, os países de economia subordinada funcionam como fonte constante de superlucros que alimentam suas matrizes

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imperialistas. Em suma, a oposição desenvolvimento e subdesenvolvimento é a marca registrada da engrenagem de funcionamento da economia mundial na era do imperialismo.