1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
1.3 DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E CRIMINALIDADE
A abordagem de alguns trabalhos com o fito de melhor entender a relação do desenvolvimento econômico e criminalidade viola, em essência, a volumosa e complexa teoria do desenvolvimento econômico principalmente em função da dificuldade em parametrizar o desenvolvimento. Mesmo assim, os estudos descritos abaixo demonstram, ciente das reais limitações, as relações entre o desenvolvimento econômico e a situação da violência vivenciada nos países. Dessa forma, o objetivo desta seção está em apresentar sucintamente esses trabalhos empíricos.
A Declaração de Genebra sobre Violência Armada e Desenvolvimento em 2006 reconhece que a violência armada é tanto a causa como a consequência do subdesenvolvimento e que ela constitui o maior obstáculo para a realização dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, ou seja, estão ligados uns aos outros. A partir disso, requereu que os países alcançassem reduções mensuráveis da violência armada e melhorias na segurança humana até 2015, como também aponta como fundamental o desenvolvimento de programas coordenados, coerentes e complementares de redução e prevenção da violência armada.
Em 2010, em um relatório mais consistente, através do Relatório Menos Violência, Mais Desenvolvimento (DECLARATION, 2010, p. 9) que analisa a relação entre a violência e desenvolvimento, inclusive em relação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), mais especificamente o exame da violência armada como um obstáculo ao desenvolvimento traz em seu bojo que as relações entre a violência armada e desenvolvimento são complexas e requerem uma definição cuidadosa dos termos-chave e análise estatística precisa, além de concluir que não há evidência estatística convincente de que níveis elevados de homicídios estão relacionados com baixos níveis de desenvolvimento e que esta violência parece estar diminuindo desenvolvimento e o progresso para a consecução dos ODM.
Mesmo assim, o relatório sinaliza que a violência compromete severamente as habilidades e ativos que são essenciais para uma vida produtiva e encurta o planejamento e horizontes de investimento. Sob uma análise mais desagregada destaca que o subdesenvolvimento sintetizado pela pobreza, desemprego, desigualdade de renda, bem como o reduzido cumprimento de metas específicas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) tende a ser correlacionado com as taxas mais elevadas de violência armada. E, na mão inversa, o progresso do desenvolvimento tende a ser associado com menores taxas de violência armada (DECLARATION, op cit).
Antes de apontar os resultados específicos do estudo, o relatório de Geneva Declaration (2010, p. 8) elucida preliminarmente que, por mais que a elaboração de um progresso significativo no desenvolvimento humano dure longos anos, pode ser arruinado em pouco tempo pela violência armada. Dessa forma, investimentos em prevenção e redução da violência armada fazem sentido nas políticas de investimento em segurança para poder minimizar o risco de perdas de desenvolvimento catastrófico e longo prazo.
De modo mais refinado, o estudo (DECLARATION, op cit) apresenta os seguintes resultados: a) a violência armada gera um impacto potencial sobre a realização do ensino primário universal, pois constatou que os níveis de homicídio mais altos tendem a ocorrer em países com baixas taxas de matrícula; b) países que registram elevadas taxas de natalidade na adolescência também revelam níveis mais altos de violência armada, pois taxas de natalidade na adolescência indicam estar fortemente correlacionadas com uma maior incidência de violência homicida, em sentido oposto, revela que países que apresentam baixos níveis de homicídio também relatam baixas taxas de natalidade adolescentes. O relatório explica que países que são bem sucedidos em fornecer um ambiente com pouca violência são aqueles que veem os maiores benefícios na melhoria da saúde materna.
A análise revela que a baixa mortalidade infantil ocorre em países com baixos níveis de conflito e violência homicida, indicando que as taxas de mortalidade infantil são causalmente ligadas à presença e grau de violência armada e, no sentido inverso, a violência armada também parece estar significativamente relacionada com a mortalidade infantil. Dependendo da região, pode-se deduzir, de modo geral, que menor progresso na redução da mortalidade infantil está relacionado à existência de grave violência. Países que caracterizam uma elevada porcentagem de pessoas que vivem com HIV/AIDS (entre 15 e 49 anos de idade) tendem a experimentar maiores taxas de homicídio, sendo significativo na África, nas Américas e na Ásia.
Países com níveis mais baixos em violência armada apresentam melhoras no acesso à água potável e saneamento, pois as alternâncias da proporção da população que usa fontes de água potável e instalações de saneamento são significativamente e inversamente correlacionadas com os níveis de violência armada. As mortes em conflito direto são estatisticamente correlacionadas com as taxas mais elevadas de pobreza5.
Demonstra-se um efeito negativo e significativo da violência armada sobre índices agregados como o Índice de Desenvolvimento Humano, indicando que países que possuem taxas de
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homicídios mais elevadas apresentam uma menor probabilidade de melhorar seu IDH. Segundo o relatório (DECLARATION, op cit), países com taxa de homicídios mais alta diminuem a probabilidade de experimentar melhoria no IDH em quase 12%, independente do seu tamanho. Caso o país apresente conflito armado na década anterior, reduz ainda mais a probabilidade de experimentar melhoria no IDH, aproximadamente 16% menos chances de melhorar seu IDH.
O relatório mostra também que países que possuem taxas de homicídio médias mais baixas tinham aproximadamente 11% mais chances de alcançar a melhoria no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do que os países que registam maiores taxas de homicídio. Isso indica que as nações com taxas de homicídio baixas podem fazer ganhos de desenvolvimento humano mais rápido do que os países com maiores taxas de homicídio (DECLARATION, 2010, p. 9).
O relatório de Genebra (DECLARATION op cit, p. 22) cita o caso de Moçambique, em que a guerra civil durante os anos 1980 e 1990 destruiu um número estimado de 45% da rede escolar primária, incluindo a infraestrutura física e que resultou na morte, trauma psicológico e deslocamento de professores e pessoal de apoio, além de que muitas pessoas, dentre eles dois terços dos requerentes de asilo para refugiados, sofreram depressão grave, e cerca de um terço apresentava sintomas de transtorno de estresse pós-traumático, indicando que violência armada contribui para o subdesenvolvimento.
De forma inversa, menciona que o subdesenvolvimento contribui para a violência armada, em que países que registam as desigualdades sociais e econômicas graves geralmente enfrentam uma maior probabilidade de enfrentamento recorrente de conflitos armados, e que podem ser potencializados em contextos de baixos níveis de desenvolvimento econômico e polarização religiosa.
Essa tese é reforçada pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC, 2011, p. 29-30) onde a violência letal está muitas vezes enraizada em contextos de escassez e privação, desigualdade e injustiça, marginalização social, baixos níveis de educação e uma fragilidade do Estado de lei. O estudo esclarece que uma forma de explorar a relação entre homicídio e desenvolvimento é analisar se as taxas de homicídio estão associadas a uma série de indicadores de desenvolvimento.
A partir disso, são destacados alguns resultados daquele trabalho, um deles é a desigualdade que se relaciona a níveis elevados homicídios. As taxas de homicídio em função do Índice de Gini mostram que em países com níveis globais com grandes disparidades de renda (Índice de Gini superior a 0,45) têm uma taxa de homicídios quase quatro vezes maior do que sociedades mais
igualitárias, representando 36% dos homicídios, mas somente 19% da população. Esse grupo consiste principalmente de países das Américas e da África (UNODC, op cit, p. 30).
Uma relação semelhante acontece nos países com uma alta taxa de mortalidade de crianças menores de cinco anos (acima de 75 por 100.000 habitantes), e que possuem alta taxa de homicídios (acima de 15 por 100.000 habitantes), enquanto a taxa de homicídios é três vezes menor nos países onde taxa de mortalidade de crianças menor de cinco anos é inferior a 75 por 100.000 habitantes (UNODC, op cit, p.30).
Em quase todos os países onde houve um reforço do Estado de Direito6 houve um declínio na taxa de homicídios e, por outro lado, quase todos os países que experimentou um aumento nas taxas de homicídio também experimentaram um enfraquecimento do Estado de Direito (UNODC, op cit, p.33). Sob outro ponto de vista, o relatório aborda que a maioria dos países com o aumento das taxas de homicídio está associada a uma regra relativamente fraca de direito e os países com relativamente forte Estado de Direito não têm geralmente experimentado aumento das taxas de homicídio. Isso indica que uma governança eficaz e forte Estado de Direito presume-se como requisito para alcançar declínio nas taxas de homicídios.
Ao considerar a abordagem teórica de associação entre desenvolvimento socioeconômico e violência como violação dos aspectos civis da cidadania, Peres et al. (2008, p. 268-269) descreve que a desigualdade no acesso a bens e serviços públicos de educação, saúde, lazer, cultura e segurança, aliada a práticas de injustiça, discriminação e violência policial, compõe um contexto de exclusão social no Brasil, que tem como um dos fatores críticos a escalada da violência urbana que ocorre desde meados da década de 1980. O autor, ao indicar as primeiras premissas do trabalho, descreve que essas práticas de exclusão sustentam o ciclo da violência, em que áreas de maior incidência de homicídios existem maior superposição de carências.
Ademais, apresentou resultados de correlação forte e significativa entre a mortalidade por homicídio e os baixos níveis de desenvolvimento socioeconômico, como também apresentou correlação forte entre o número de vítimas fatais de violência policial e a mortalidade por homicídios (PERES et al.,op cit).
Esta última relação apresenta um resultado diverso das abordagens tradicionais que apontam importância às instituições policiais na prevenção da violência e a garantia da segurança das populações. O autor explica que uma ação policial mais severa, centrada na violação de direitos
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Por razões históricas, políticas e econômicas, o respeito pelo Estado de Direito varia significativamente entre os
humanos básicos não revela ser a conduta oportuna para o enfrentamento do problema da violência urbana (PERES et al.; op cit).
Outro resultado interessante do trabalho, segundo Peres et al. (2008, op cit), é a constatação de que nas áreas onde tinham maior número de vítimas de policiais também possuíam os piores indicadores de desenvolvimento socioeconômico. Esses resultados mostram uma combinação de carências sociais que permeiam potencialmente as áreas periféricas e que impactam significativamente no desenvolvimento das regiões.
Considerando que a desigualdade como medida de desenvolvimento tem um impacto direto sobre o bem-estar social na medida em que as sociedades têm preferência por equidade e estão fortemente relacionadas ao nível de diversas variáveis socioeconômicas como a taxa de poupança da economia, a taxa de mortalidade infantil e a extensão da pobreza, são evidenciadas nos próximos argumentos algumas relações, haja vista que esse contexto de exclusão propicia uma maior vulnerabilidade da violência.
Barros e Mendonça (1995) pontuam que o Brasil se encontra em uma posição de destaque no cenário internacional, pois apresenta o mais elevado grau de desigualdade, exibindo resultados de desigualdade de renda altamente concentrada entre os 10% mais ricos, com crescimento intenso da desigualdade nas décadas de 1960 e 80, mas relativamente menor na década de 1970. Adicionalmente, estabelece a conexão entre o mercado de trabalho e a desigualdade de renda observada e elucida que o mercado de trabalho no Brasil é muito mais transformador da desigualdade de condições do que gerador de desigualdade.
Outro enfoque de desenvolvimento pode ser visto no trabalho de Werchein e Noleto (2003, p. 63-65) ao discorrer que a pobreza é a questão mais urgente que Brasil necessita enfrentar no início do novo milênio, pois são cerca de 55 milhões de brasileiros pobres, dos quais 24 milhões estão na condição de extrema pobreza, ou seja, 34% da população. Impactando ainda mais a pobreza, a desigualdade é um produto de uma cultura que resulta de um acordo social excludente em que não se reconhece a cidadania para todos: a cidadania dos incluídos é distinta dos excluídos, sobretudo são distintos os direitos, as oportunidades e os horizontes.
Reforça que a tradição política econômica e social brasileira alimenta a via única do crescimento econômico sem levar em conta o desenvolvimento sustentado e solidário com vistas à melhoria da qualidade de vida e à liberdade das pessoas e, em consequência, não traz resultados satisfatórios no tocante à pobreza.
O autor ainda aponta que a forte heterogeneidade entre os níveis de escolaridade dos indivíduos representa a principal fonte da desigualdade salarial brasileira, mostrando que a escolaridade média de um brasileiro é em torno de seis anos de estudo, a escolaridade média dos pobres é de menos de três anos de estudo, além de um elevado contingente de pessoas que são analfabetas ou não concluíram o ensino fundamental contrapondo o número seleto elitista com maior nível de educação, em média graduados ou pelo menos com segundo grau (WERCHEIN; NOLETO, 2003, p. 67).
Em que pese alguns trabalhos apresentarem certa cautela na relação de causa e efeito das várias dimensões do desenvolvimento e a criminalidade, em geral, os estudos indicam uma relação muito estreita e negativa entre desenvolvimento e crime. Ou seja, à medida que se observa contexto de baixo desenvolvimento a criminalidade é mais vivenciada pelos indivíduos. Mas, em locais que experimentam melhores condições de vida e que indicam mais desenvolvimento, a tendência é apresentar menores índices de criminalidade.