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2 Fundamentação teórica

2.1.3 Atualidade do conceito de desenvolvimento endógeno

Entre outros fatores, o desenvolvimento endógeno vislumbra o fortalecimento das habilidades econômicas internas, a construção da capacidade de fortalecimento institucional e melhoria da competitividade. Nesse sentido, ao comparar os modelos de desenvolvimento endógeno do Japão e Vietnã, observa-se que o primeiro perdeu a guerra saindo devastado e conseguindo reestruturar-se de forma considerável, já o segundo, venceu, mas ainda não apresenta uma situação considerada adequada em termos de desenvolvimento (Hien, 2007).

A abordagem alternativa, na busca por soluções visando ao crescimento econômico, dá origem à teoria do desenvolvimento endógeno japonês na década de 1970, destacando-se, entre outros, o foco na resolução de problemas econômicos pelos agentes locais na localidade. Nos anos 80, o crescimento econômico acelerou, assim como a modernização. Nesse contexto, emerge a tentativa de preservar a identidade e autonomia local respeitando as especificidades regionais, conferindo espaço para o processo endógeno de desenvolvimento (Steffensen, 1994;

Toyoda et al., 2012).

O desenvolvimento endógeno configura-se na atualidade, assim como no passado, em uma junção de forças nas quais os governos, em conjunto com os empreendedores locais, cumprem a tarefa de criar situações de elevação da competitividade, melhoria dos padrões de vida e emprego da sociedade como um todo. O caráter endógeno assume valores, planos e visão de futuro de cada sociedade. Em outros termos, o processo dinâmico de transformação econômica da região deve buscar referência nas forças locais, iniciando um processo de transformação interna (Hien, 2007).

Uma abordagem mais ocidentalizada descreve o desenvolvimento endógeno como processo sustentado de crescimento econômico local associado a mudanças estruturais baseadas na utilização do potencial endógeno do território, resultando na melhoria do bem-estar do espaço geográfico em evidência. Logo, refere-se a processos impulsionados por forças internas (disponibilidade econômica e investimento) de empresas e sociedade local, sem necessitar de investimento público ou externo (Barquero, 2007; Barquero, 2010; Dias, 2011).

A tentativa de explicar o desenvolvimento endógeno é particularmente diversa, a maioria dos autores aponta que este precisa estar enraizado em valores e filosofias locais, e ser possuído e liderado por agentes locais. Trata-se de definições complexas, retratadas por valores e comportamentos próprios, específicos e de propriedade endógena. Participação e liderança influenciam os diferentes níveis de forma que o desenvolvimento endógeno não é um substituto para as teorias ocidentais de desenvolvimento, mas um complemento crítico que permite a sustentabilidade local (Malunga & Holcombe, 2014)

Por fim, tomando emprestada a percepção de Benneworth (2004) sobre desenvolvimento regional, os novos paradigmas de desenvolvimento constituem-se em uma combinação entre aprendizagem, flexibilidade, conhecimento e redes cooperativas que suportam do dinamismo empreendedor como propulsor do desenvolvimento endógeno. O processo contínuo de inovação propicia novas combinações de ativos existentes, possibilitando descortinar novos mercados e destinando ao empreendedor o papel central no processo de desenvolvimento (Becattini, 2017; Benneworth, 2004; Rangel-Preciado et al., 2021).

A essência do desenvolvimento endógeno reside fortemente, embora não exclusivamente, nos recursos e potencialidades locais. A combinação de padrões de produção, consumo e conhecimentos locais dinamizam o processo endógeno do desenvolvimento (Thornton, 1997). Os argumentos endógenos devem prevalecer em relação a modelos exógenos e a receitas exógenas desvinculadas de realidades locais (Holcombe, 2014).

2.2 Neoendogenismo

O período pós-guerra marca um novo ciclo e o desenvolvimento endógeno surge como alternativa para explicar o desenvolvimento local ou mesmo rural, baseado nos agentes e instituições locais. No entanto, com a aproximação do fim do século XX, o modelo de desenvolvimento endógeno não apresenta resultados capazes de explicar a complexidade do desenvolvimento das localidades rurais. Como alternativa, surgem insights nos quais atores internos assumem papeis importantes na formulação e execução de políticas de desenvolvimento, apoiadas por atores externos, formando as bases para um novo modelo denominado neoendogenismo (Atterton et al., 2011; Garcia et al., 2017; Nordberg, 2021; Ward et al., 2005).

O neoendogenismo representa, de certa forma, uma evolução do conceito do desenvolvimento endógeno e, em geral, está associado ao desenvolvimento rural. Explica o desenvolvimento a partir de fatores endógenos associados a fatores exógenos também considerados essenciais para moldar seu futuro. Logo, os recursos locais compreendem capital humano e social associados a influências externas. Importante papel é atribuído aos migrantes, reconhecidos como “facilitadores neoendógenos” dadas suas possibilidades de construir, em áreas rurais, novas redes de informações e conhecimento extra-locais (Atterton et al., 2011).

A inovação proposta pelo modelo neoendógeno foca em evidenciar e potencializar os pontos fortes dos atores locais, estabelecendo vínculos com fatores extra-locais. Aliam-se a este inovações sociais, também voltadas ao desenvolvimento rural, mas buscando estabelecer pontos de convergência/relações com atores para além fronteiras das áreas rurais. Em tese, busca estabelecer uma nova relação de forma que as relações sociais internas e externas estabeleçam vínculos capazes de criar sinergias, resultando no desenvolvimento endógeno, agora, neoendógeno (Garcia et al., 2017; Nordberg, 2021).

Associando-se em parte ao descrito anteriormente, Bosworth et al (2016) acrescenta a importância das atividades locais para conduzir ao desenvolvimento endógeno. Em outros termos, utiliza a expressão de baixo para cima e empoderamento local para expressar a importância do conhecimento local associado aos recursos internos e ao comprometimento da população local para construção do processo de desenvolvimento endógeno. Por fim, destaca a importância da negociação entre o local os espaços externos como processo contínuo e o papel da aprendizagem local, no sentido de construir abordagens flexíveis e adaptáveis às necessidades do espaço rural em foco (Bosworth et al., 2016).

O conceito de neoendogenismo ganha ênfase no conflito oriundo das políticas de desenvolvimento estabelecidas por governos de macrorregiões europeias que, por vezes, conflita com os objetivos de desenvolvimento locais. O debate entre as percepções e necessidades verificadas por moradores locais típicos e elites ativas apresenta descompasso, dando origem ao conflito e dificultando o êxito das políticas de desenvolvimento da União Europeia em nível local (Furmankiewicz et al., 2020).

As necessidades dos moradores locais, geralmente com menor escolaridade, têm foco na autoproteção, nos serviços públicos e na manutenção do patrimônio local. As elites ativas, caracterizadas por ter nível cultural mais elevado, status e mais renda, assentam seus objetivos no estímulo à atividade econômica local, inovação e diversificação econômica acreditando serem esses os elementos necessários ao desenvolvimento local. O conflito ora descrito acaba por minar o êxito das políticas de desenvolvimento no sentido de que anula o interesse e engajamento social na assunção das políticas desenvolvimentistas. Nesse contexto, ganha ênfase o desenvolvimento neoendógeno, objetivando efetivar as políticas e metas da União Europeia (Furmankiewicz et al., 2020).

A elevação da eficiência das políticas de desenvolvimento da União Europeia passa, entre outros, pela compreensão das especificidades do local. No momento em que atores locais e de níveis superiores alinharem seus objetivos, de forma que se complementem, poderão lograr maior êxito, amenizando o conflito estabelecido entre o desenvolvimento rural e o de outros espaços (Coppola et al., 2018; Shucksmith et al., 2021).

A preservação cultural dos espaços locais, é importante para o surgimento de empresas, normalmente agrupadas, capazes de desenvolverem-se a ponto de promoverem o desenvolvimento local (Campbell-Kelly et al., 2010). Embora não tenha sido verificado expressamente, o conflito de interesses pode sobrepor ambientes culturais e minar iniciativas locais com potencial para criar um ambiente fértil ao desenvolvimento de empresas e produtos, baseados em fatores locais.

Em suma, conclui-se que tal cenário poderia prejudicar, inclusive, a criação de arranjos locais, os produtos com identidade geográfica e outros mecanismos capazes de dar sustentabilidade ao desenvolvimento endógeno. Os escritos de Yang et al. (2019) descrevem o ambiente necessário para a construção de um modelo endógeno de desenvolvimento baseado na soma das forças, o que sugere que a disputa (interna-externa) pode não ser o ambiente mais fértil para tal. Na sequência, apresentam-se a contextualização do ambiente característico neoendogenista seguido por questões atuais acerca do fenômeno.

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