CAPÍTULO IV – A QUALIDADE DE VIDA
3. Desenvolvimento humano e qualidade de vida
É claro que não há um índice que possa medir a qualidade de vida das pessoas. Mesmo porque se trata de um termo de difícil conceituação, inclusive em virtude de sua possível relativização.
Todavia, os organismos internacionais, no decorrer dos anos, têm elaborado pesquisas, discussões e conferências, nas quais documentos e indicadores são formulados, levando-se em conta, entre outros fatores, o desenvolvimento sustentável, a exclusão social, a degradação do meio ambiente e a expectativa de vida da população no mundo todo.
Já tivemos a oportunidade de verificar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), propostos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Agora iremos analisar o desenvolvimento humano, bem como a sua possível relação com a qualidade de vida do cidadão.
O primeiro Relatório de Desenvolvimento Humano foi lançado, em 1990, pela ONU, através do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), apresentando o conceito de desenvolvimento humano e seu indicador, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
Este primeiro relatório identificou que as considerações técnicas acerca dos meios para se alcançar o desenvolvimento, bem como a utilização de estatísticas para medir a renda nacional e seu crescimento, com o passar do tempo, acabaram por encobrir a finalidade primordial do desenvolvimento, qual seja, a criação de um ambiente favorável para que as pessoas possam desfrutar de uma vida longa, saudável e criativa.173
Em decorrência disto, a ONU lançou o conceito de desenvolvimento humano, que vai além do desenvolvimento econômico – sua condição necessária – abrangendo também o desenvolvimento social, cultural e político, colocando o ser humano no centro do processo de desenvolvimento. Fica comprovado, portanto, que o crescimento econômico interfere, mas não basta para assegurar a melhoria na qualidade de vida das pessoas.
De acordo com a definição proposta pelo PNUD, em seu primeiro relatório:
"O desenvolvimento humano é um processo mediante o qual se oferece às pessoas maiores oportunidades. Entre estas, as mais importantes são uma vida prolongada e saudável,
173
CANO, Gabriela Tedeschi, Dissertação de Mestrado em Relações Internacionais, "Os desafios do Desenvolvimento Humano da ONU, a partir do Relatório do Desenvolvimento Humano 1990", São Paulo, PUC/SP, 2006, p. 55
educação e acesso aos recursos necessários para se ter uma vida decente. Outras oportunidades incluem a liberdade política, a garantia dos direitos humanos e o respeito a si mesmo. (...) É óbvio que a renda é só uma das oportunidades que as pessoas desejariam ter, ainda que certamente muito importante. Mas a vida não se reduz somente a isso. Portanto, o desenvolvimento deve abarcar mais que a expansão da riqueza e da renda. Seu objetivo central deve ser o ser humano."174
Desde a sua criação, o Relatório de Desenvolvimento Humano é lançado anualmente, sempre dando ênfase a uma questão específica: a) em 1991: o financiamento para o desenvolvimento humano; b) em 1992: os mercados mundiais e a satisfação das necessidades humanas; c) em 1993: a participação popular; d) em 1994: uma agenda para a cúpula social; e) em 1995: a revolução para a igualdade de gênero; f) em 1996: o crescimento econômico e desenvolvimento humano; g) em 1997: o desenvolvimento humano para erradicar a pobreza; h) em 1998: os padrões de consumo para o desenvolvimento humano; i) em 1999: a globalização com um face humana; j) em 2000: os direitos humanos e o desenvolvimento humano; k) em 2001: fazendo as novas tecnologias para o desenvolvimento humano; l) em 2002: aprofundar a democracia num mundo fragmentado; m) em 2003: um pacto entre nações para eliminar a pobreza
174
CANO, Gabriela Tedeschi, Dissertação de Mestrado em Relações Internacionais, "Os desafios do Desenvolvimento Humano da ONU, a partir do Relatório do Desenvolvimento Humano 1990", ob.cit., p. 59 e 60
humana; n) em 2004: liberdade cultural num mundo diversificado; o) em 2005: a cooperação internacional numa encruzilhada.
3.1. Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)
Na esteira da conceituação do desenvolvimento humano, o PNUD sugere, ainda em seu primeiro relatório, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), baseado em três elementos: longevidade, conhecimento e nível decente de vida. O primeiro elemento avalia a expectativa de vida ao nascer, o segundo elemento é estimado a partir dos índices de analfabetismo, e o terceiro elemento é medido pelo Produto Interno Bruto (PIB) per capita.
Segundo o PNUD, a escolha de tais elementos se deu em virtude da possibilidade de se comparar, em um só índice, o progresso econômico e social, nos diversos países analisados. Além disso, "tais dimensões representam o que há de mais comum entre os países, ao mesmo tempo em que levam em conta as especificidades de cada um deles." 175 Entretanto, os elementos eleitos possuem uma falha comum, uma vez que fazem referência aos números de um país como um todo, possibilitando que grandes disparidades regionais sejam encobertas.
Não temos o intuito de questionar a validade dos elementos escolhidos para compor o IDH, tampouco comparar, a partir de tal índice, a qualidade de vida nos diversos países
175
CANO, Gabriela Tedeschi, Dissertação de Mestrado em Relações Internacionais, "Os desafios do Desenvolvimento Humano da ONU, a partir do Relatório do Desenvolvimento Humano 1990", ob.cit., p. 66
analisados anualmente. É certo que "o conceito de desenvolvimento humano da ONU e seu Índice de Desenvolvimento Humano, apesar de representarem uma grande contribuição para o debate sobre o desenvolvimento, não deixam de carregar em sua formulação e aplicação a reprodução (ainda que para muitos de forma pouco explícita) das relações de poder dentro da sociedade internacional."176
Todavia, acreditamos ser pertinente a análise dos dados especificados no IDH, como mais um instrumento disponível para se mensurar as desigualdades sociais existentes em nosso país, as quais influem diretamente na degradação do meio ambiente urbano e da qualidade de vida de toda a população.
Para se ter uma idéia, em apenas oito países a distância entre os ricos e pobres é maior do que no Brasil. Os dados constantes do IDH Brasileiro de 2005 apontam que 10% dos brasileiros mais ricos ficam com 46,9% da renda do país, enquanto os 5% mais pobres detém somente 0,7%. Além disso, de acordo com as taxas atuais de crescimento econômico, os 20% mais ricos do Brasil continuam recebendo uma parte da riqueza trinta vezes maior do que os 20% mais pobres.177
176
CANO, Gabriela Tedeschi, Dissertação de Mestrado em Relações Internacionais, "Os desafios do Desenvolvimento Humano da ONU, a partir do Relatório do Desenvolvimento Humano 1990", ob.cit., p. 74
177
Dados obtidos no Jornal "O Estado de S.Paulo", edição de 7 de setembro de 2005, Caderno Vida &, p. A22