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Para se compreender o desenvolvimento infantil é necessário estudar os valores e crenças dos genitores e como esses influenciam suas práticas nas interações com seus filhos,

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uma vez que o processo de desenvolvimento humano não pode ser compreendido sem se levar em conta os diferentes contextos (físico, social, histórico e cultural) nos quais o indivíduo está inserido.

Em relação às crenças e valores dos genitores e como influenciam no desenvolvimento infantil, Seidl de Moura e cols. destacam que:

“Entre outros aspectos, o conhecimento engloba crenças acerca dos períodos mais prováveis para aquisição de habilidades motoras, perceptuais e cognitivas durante o desenvolvimento infantil; crenças acerca de que fatores podem influenciar o desenvolvimento das crianças; crenças acerca de que tipos de cuidados de higiene e segurança são importantes para a saúde das crianças. Assim, se os pais acreditam, por exemplo, que os bebês não enxergam ao nascer, é razoável supor que eles acabam por criar poucas oportunidades de estimulação visual” (2004, p. 422).

Já em relação aos diferentes contextos que o indivíduo está inserido, Dessen e Braz (2005) referem que “pensar em desenvolvimento humano significa pensar no estabelecimento de relações que o indivíduo mantém com seus contextos proximais – isto é, a família, o local de trabalho ou estudo, sua comunidade – e com os contextos distais – como os valores, as crenças, a cultura” (p. 122).

Na literatura, encontram-se autores que utilizam os termos crenças, idéias, valores, ou outros similares, sempre enfatizando sua importância, principalmente no comportamento dos pais e educadores (GOODNOW; COLINS, 1990; PALACIOS, 1990; HARKNESS; SUPER, 1996; MELCHIORI; BIASOLI-ALVES, 2001; MELCHIORI, et al., 2007). No entanto, há necessidade de uma análise conceitual desses termos para se ter uma designação mais precisa dos fenômenos aos quais eles se referem (BASTOS, 1991); como por exemplo, os valores paternos que são definidos por Luster, Rhoades e Haas (1989), como sendo os objetivos e as metas que os genitores almejam alcançar com seus filhos, e as suas expectativas futuras em relação à prole. Já as crenças parentais são definidas por eles como sendo as idéias que eles têm sobre como ajudar seus filhos a alcançarem os objetivos almejados, são as razões pelas

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quais eles acreditam que devem agir de um jeito ou de outro com seus filhos, mesmo que não tenham clara consciência disso (DESSEN; BRAZ; TUDGE, 2008).

O estudo de Braz, Dessen e Silva (2005), também objetivou investigar como os genitores percebiam o desenvolvimento de seus filhos, isto é, quais eram seus valores, crenças e expectativas sobre o desenvolvimento e a educação dos filhos. Conforme os relatos dos genitores, verificou-se que, para a maioria (86%), as suas crianças apresentavam desenvolvimento "normal", "tranquilo", "sem maiores problemas". Para mais da metade dos genitores (65%), as crianças eram tidas como bem-humoradas ("calmas", "tranqüilas", "brincalhonas", "alegres"); enquanto que, para 14%, elas eram vistas como sendo "mal- humoradas", "irritadas" e "emburradas”. As características emocionais e comportamentais das crianças-alvos mais destacadas pelos genitores foram "afetividade", "sociabilidade", "passividade/obediência" e "teimosia/desobediência". Também foram relatadas por alguns pais características como: "inteligência/criatividade", "manha", "dedicação ao estudo", "isolamento social", "agressividade", "educação/bom comportamento", "independência", "dependência" e "vaidade". Nessa pesquisa, os genitores também destacaram os valores que acreditam transmitir para seus filhos e suas expectativas em relação ao futuro deles. Em relação à classe social, constatou-se que os genitores da classe média consideraram mais importantes transmitir para seus filhos a sociabilidade, a afetividade e a obediência; e os da classe baixa destacaram, com maior freqüência, a educação, o respeito, os valores morais e a dedicação ao estudo. Em relação às expectativas dos genitores quanto ao futuro dos filhos, os genitores de classe média salientaram mais expectativas relacionadas ao sucesso profissional e o desejo de que eles se sintam satisfeitos com a vida que escolheram; já os genitores de classe baixa apontaram, com maior freqüência, o ser estudioso, honesto, trabalhador, responsável e respeitador.

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O conhecimento parental sobre o desenvolvimento infantil foi focado na revisão de literatura, realizada por Ribas e cols. (2003), que verificaram algumas tendências, dentre as quais se destacaram a confirmação da existência da relação entre o nível socioeconômico e o conhecimento parental a respeito do desenvolvimento infantil, sendo que o nível educacional, em especial o da mãe, é o que tem maior valor discriminativo. O conhecimento dos genitores sobre o desenvolvimento infantil afeta os comportamentos parentais e, consequentemente, o desenvolvimento das crianças. Esses autores ainda apontam que, mesmo com o crescimento da literatura sobre crenças e práticas parentais, são poucas as exceções quando essas pesquisas são realizadas em outros países que não sejam os Estados Unidos. A literatura brasileira também é ainda pouco expressiva sobre esse tema.

Este déficit na literatura nacional também foi pontuado por Seidl de Moura e cols. (2004), que desenvolveram um estudo objetivando obter informações sobre o conhecimento materno do desenvolvimento infantil, a partir de uma amostra ampla de mães brasileiras (405 mães primíparas, com filhos menores de um ano), residentes em seis centros urbanos, em diferentes regiões do Brasil (Belém, Itajaí, João Pessoa, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Salvador). Esses autores examinaram as relações entre o nível socioeconômico das famílias, o nível educacional das mães e o conhecimento materno sobre o desenvolvimento infantil. Investigaram também as possíveis diferenças regionais e a influência que as variáveis: idade da mãe, sexo e idade do bebê podem exercer sobre o conhecimento a respeito do desenvolvimento infantil. Os resultados apontaram: a) a importância da escolaridade materna, variável comprovadamente associada ao conhecimento que essas mães possuem sobre desenvolvimento infantil; b) a idade do bebê também parece afetar as cognições maternas: quanto mais velho o bebê, maiores os conhecimentos adquiridos pela mãe (sugerindo que não é só a mãe que influencia o bebê, mas que pistas do bebê ou características dele também tendem a afetar a mãe); e c) o efeito significativo do local de residência da mãe, sobre seu

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conhecimento a respeito do desenvolvimento infantil, sugerindo que existem diferenças sociais e culturais em relação a essa variável. Os autores concluem que “os dados apóiam a idéia de que pode haver mais diversidade do que homogeneidade entre as mães brasileiras, pelo menos no que ser refere à variável estudada” (p. 427).

Partindo do princípio de que o sistema de crenças de mães e educadoras de berçário é um aspecto importante no contexto em que a criança vive, Melchiori e cols. (2007) investigaram o julgamento de mães e educadoras de berçário sobre os fatores que causam ou influenciam o desempenho e o temperamento de bebês. Os resultados indicaram a predominância de crenças ambientalistas sobre o desempenho e temperamento de bebês, tanto em relação às 50 mães, que eram de diferentes níveis sócio-culturais, quanto em relação às 21 educadoras, que eram de nível sóciocultural predominantemente baixo. Becker (2001) discute que essa postura ambientalista é negativa, uma vez que os adultos envolvidos não percebem a criança como um ser ativo, que contribui para seu desenvolvimento e que é capaz de influenciar seu meio ambiente.

Assim como é de fundamental importância estudar as crenças e valores dos genitores sobre o desenvolvimento infantil, as relações afetivas entre eles e a própria criança também merecem destaque, uma vez que assumem um importante papel no desenvolvimento afetivo do bebê e, consequentemente, nas suas relações futuras (THOMAZ et al., 2005).