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desenvolvimento local

No documento Extensão Pesqueira (páginas 87-92)

O novo extensionismo busca consolidar o significado da Extensão Rural no terreno da inclusão social dos pescadores nos processos de desenvolvi- mento local. O objetivo desta aula é compreender como a extensão pes- queira pode contribuir para o desenvolvimento local, num momento em que os laços que unem Extensão Rural ao Desenvolvimento Local estão em fase de construção, devido aos novos desafios colocados para o exten- sionismo contemporâneo.

Entendemos por Desenvolvimento Local o processo de criação, de valori- zação e de retenção das riquezas de um território, assim como o uso sus- tentável dos recursos disponíveis. Para isso, é preciso reorientar as práticas até hoje adotadas pelo extensionismo, que acabam reproduzindo os velhos modelos da Revolução Verde, assim como a construção de estratégias dife- renciadas em sua forma de atuação junto ao público beneficiário.

Conforme analisamos nas aulas anteriores, a nova prática de Assistência Técnica e Extensão Rural deve contribuir para o enfrentamento da crise so- cioambiental resultante dos modelos de desenvolvimento e de agricultura convencionais, implementados nas últimas décadas. Na perspectiva do de- senvolvimento local, a nova Extensão Rural, por meio da implementação de programas e projetos, deve constituir-se num instrumento do Estado

capaz de apoiar a reversão do quadro de crise socioeconômica e am- biental, por meio do estímulo, apoio e construção de iniciativas que fortale-

çam a qualidade de vida das comunidades pesqueiras.

Neste sentido, diferentes estudiosos da área de extensionismo reconhecem que para a Extensão Rural contribuir no âmbito do Desenvolvimento Local, precisa trabalhar minimamente em três direções, a saber:

a) Na criação de alternativas econômicas concretas e adequadas à realidade econômica, social e cultural, que contribuam na viabilização da melhoria das condições de vida das comunidades e da sua renda. Estas atividades devem ser as mais diversas, podendo ou não estar ligadas às atividades pesqueiras. A agregação de valor, por meio do beneficiamento da produ- ção, continua sendo um grande desafio, assim como a atuação nas áreas de comercialização, prestação de serviços e cooperativismo;

b) No envolvimento das comunidades, visando sua participação real nas decisões que modificam sua forma de viver. As atitudes paternalistas e estritamente assistencialistas devem fazer parte do passado: o desafio é contribuir para a formação de cidadãos sujeitos da sua história, transfor- madores da sua realidade social;

c) Na adoção de estratégias que assegurem a preservação ambiental, enfa- tizando a adoção dos princípios da agroecologia, de formatos tecnológi- cos sustentáveis, de práticas produtivas que respeitem mais a natureza e provoquem menos impactos.

Para trabalhar estas três dimensões o extensionista necessariamente deve criar espaços de educação informal permanentes e continuados, baseados em estratégias de educação popular e comunicação dialógicas freirianas.

Importante!

O enfoque agroecológico corresponde à aplicação de conceitos e prin-

cípios da Ecologia no manejo e no desenho de agroecossistemas sustentá- veis, uma orientação cujas pretensões e contribuições vão além de aspec- tos meramente tecnológicos ou agronômicos da produção, incorporando dimensões mais amplas e complexas que incluem tanto as variáveis eco- nômicas, sociais e ambientais, como as variáveis culturais, políticas e éticas da sustentabilidade (CAPORAL; COSTABEBER, 2000).

A Pedagogia paulofreiriana defende o diálogo como recurso indispensável no processo de educação, de forma que todos devem ter direito à fala em uma relação de mútuo respeito. O objetivo é contribuir para que indivíduos que vivem numa situação de opressão tenham maior facilidade de tornarem- -se sujeitos ativos na busca dos direitos que lhes cabem na sociedade da qual fazem parte. A introdução de processos educativos populares permanentes implica também o abandono das ações de extensionismo centradas na assis- tência técnica individual.

Segundo CAPORAL e RAMOS (2006):

“Devem ser privilegiadas as formas de atuação que envolvam comuni- dades ou grupos de interesses, identificar jovens rurais e agricultores que possam ser qualificados para ajudar os demais a resolver proble- mas simples de manejo agropecuário, estimular os mutirões e forta- lecer o intercâmbio de conhecimentos entre famílias de agricultores, promover estágios de agricultores em propriedades, realizar pesquisa participativa e estimular o estabelecimento de interações que possibili-

tem a disponibilização e a socialização de saberes na relação agricultor versus agricultor. Isso requer menos receitas e muito mais criativida- de. Do ponto de vista quantitativo, os números mostram que é quase impossível realizar um trabalho de qualidade na atual relação entre técnico e família rural. Há que se estabelecer um número máximo de famílias com as quais os técnicos devem assumir um compromisso for- mal e realizar atividades de Extensão Rural”.

Outra mudança de extrema importância a ser implementada pelo exten- sionismo, na perspectiva da sua contribuição no desenvolvimento local, é a atuação interdisciplinar e a percepção da necessidade de aprender junto com as comunidades pesqueiras. Para CHAMBERS (1980), referindo-se à ex- tensão rural, “é preciso aprender e apreciar no seu justo valor a apropriação de conhecimentos de outras disciplinas e especialmente a possibilidade de aprender de e com os pequenos agricultores”.

Aqui cabe ressaltar que a interdisciplinaridade não significa formar um “su- perprofissional” que agregue saberes e habilidades de uma diversidade de áreas, o que é impossível. A interdisciplinaridade significa pensar a realidade a partir de diferentes ângulos e intervir em diferentes dimensões de maneira integrada, para o qual é fundamental que o campo da extensão rural seja compartilhado por diversos profissionais. Assim, para atuar de forma inter- disciplinar deve ser reconhecida a necessidade de se conjugar trabalhos em diferentes áreas relacionadas à promoção do desenvolvimento rural.

Resumo

Na perspectiva do desenvolvimento local, a nova Extensão Rural, por meio da implementação de programas e projetos, deve constituir-se num instru-

mento do Estado capaz de apoiar a reversão do quadro de crise socioe- conômica e ambiental. Para isto é necessário avançar em três direções:

a) No estímulo, apoio e construção de iniciativas que fortaleçam a qualida- de de vida das comunidades pesqueiras, na criação de alternativas eco- nômicas concretas e adequadas à realidade econômica, social e cultural; b) No envolvimento das comunidades, visando sua participação real nas de-

cisões que modificam sua forma de viver;

c) Na adoção de estratégias que assegurem a preservação ambiental, enfa- tizando a adoção dos princípios da agroecologia, de formatos tecnológi- cos sustentáveis, de práticas produtivas que respeitem mais a natureza e provoquem menos impactos.

e-Tec Brasil

Para trabalhar essas três dimensões o extensionista necessariamente deve criar espaços de educação informal permanente e continuada, baseados em estratégias de educação popular e comunicação dialógicas.

Atividades de aprendizagem

• Discuta junto a seus companheiros iniciativas que fortaleçam a qualidade de vida das comunidades pesqueiras. Identifique alternativas econômicas concretas e adequadas à realidade econômica, social e cultural.

e-Tec Brasil

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Aula 15 – Diagnóstico participativo,

o que é?

Para avançar na solução dos problemas que enfrentam as comunidades pesqueiras, temos em primeiro lugar que detectar e entender quais são estes problemas. Na aula de hoje iremos estudar como detectar, diagnos- ticar os nossos problemas da comunidade, de forma a escolher quais deles serão os primeiros a serem enfrentados.

As técnicas participativas só fazem sentido como parte de uma nova es- tratégia de Extensão Rural. Dentre os métodos participativos utilizados nas ações de extensão, destaca-se o Diagnóstico Rural Participativo – DRP, que permita a leitura da realidade pelas comunidades e pelos técnicos envol- vidos, de modo que as decisões sobre o futuro destes coletivos possam ser tomadas de forma consciente. Nesta aula entenderemos o que é o DRP, seus objetivos, vantagens e princípios a partir do conteúdo exposto na publicação “Diagnóstico Rural Participativo, Guia Prático (2010), ela- borado pela Secretaria de Agricultura Familiar, pertencente ao Ministério de Desenvolvimento Agrário. Na aula 16 serão abordados os passos de preparação do DRP, assim como suas técnicas de realização.

O Diagnóstico Rural Participativo (DRP) é um conjunto de técnicas e ferra- mentas que permite que as comunidades façam o seu próprio diagnóstico sobre o estado dos seus recursos naturais, sua situação econômica e social e outros aspectos importantes para a comunidade, avaliando os problemas

e as oportunidades de solução, identificando os possíveis projetos de melhoria dos problemas mais destacados e, portanto, das condições de vida de homens e mulheres.

No DRP não se pretende unicamente colher dados dos participantes, mas sim que estes iniciem um processo de autorreflexão sobre os seus próprios problemas e as possibilidades de solucioná-los. O DRP possibilita a seus par- ticipantes compartilhar experiências e analisar os seus conhecimentos a fim de melhorar as suas habilidades de planejamento e ação, assim como a au- toanálise e a autodeterminação de grupos comunitários. A obtenção direta de informação primária ou de “campo” na comunidade é conseguida por meio de grupos representativos de seus membros, até chegar a um auto- diagnóstico. Embora originariamente tenham sido concebidas para zonas rurais, muitas das técnicas do DRP podem ser utilizadas igualmente em co- munidades urbanas.

A forma em que são coletados os dados procura, em primeiro lugar, per- mitir que as pessoas da comunidade pensem sistematicamente em seus

problemas, nas possíveis soluções, e os compartilhem com os Agen-

tes de ATEPA, mediadores do DRP; em segundo lugar, que estes agentes

compreendam as condições e circunstâncias locais; finalmente, pro- curem analisar os problemas e as possíveis opções para enfrentá-los em conjunto.

O DRP é similar ao diagnóstico que faz um médico: ao nos sentirmos doen- tes, visitamos o médico e ele se encarrega de nos perguntar: o que estamos sentindo, o que está doendo, e depois procede a um exame geral do nosso corpo (os olhos, a boca, o coração, os ouvidos, a pressão, etc.). Esse processo de exame denomina-se diagnóstico, e, ao final, o médico sabe que medica- mento vai nos receitar para curar a doença.

No caso do DRP os médicos são os integrantes da comunidade e os extensio- nistas. Os homens e as mulheres da comunidade devem agir como o médico: precisam analisar todos os elementos que formam o ambiente da comuni- dade para encontrar uma forma de solucionar os problemas, designando responsáveis locais e procurando apoio institucional.

No documento Extensão Pesqueira (páginas 87-92)