9.2 Diferen¸cas no desenvolvimento ontogen´ etico de zang˜ oes e rainhas
9.2.2 Desenvolvimento ontogen´ etico de rainhas
A postura para a produ¸c˜ao de rainhas de idade controlada foi feita no final de mar¸co de 2002. Foi comparado o desenvolvimento ontogen´etico de rainhas africanizadas e de rainhas h´ıbridas-italianas3. Os dados referentes a este experimento est˜ao na tabela 2. Outra postura para produ¸c˜ao de rainhas observando o desenvolvimento de rainhas africanizadas e italianas n˜ao pode ser realizado por problemas com as colˆonias matrizes.
3Estas h´ıbridas s˜ao filhas de rainhas italianas (filhas de matrizes) acasaladas naturalmente na regi˜ao de Ribeir˜ao Preto - SP.
9.2 Diferen¸cas no desenvolvimento ontogen´etico de zang˜oes e rainhas 51
Diferen¸cas no per´ıodo de desenvolvimento de machos entre as 2 ra¸cas estudadas
Postura Per´ıodo(dias) n afr n it
2 24 10 0
24,5 9 0
25 19 24
25,5 0 33
26 0 106
Total 38 163
Tabela 1: O per´ıodo de desenvolvimento dos machos apresentou diferen¸cas entre as duas subesp´ecies (afr: africanizada, it: Apis mellifera ligustica).
Figura 10: O per´ıodo de desenvolvimento de machos de abelhas africanizadas ´e menor do que de machos italianos.
Os dados indicam ocorrer um menor tempo de desenvolvimento nas rainhas african-izadas (entre 14–14 12 dias) do que nas rainhas italianas-h´ıbridas (14 12–15 dias). No en-tanto, experimentos com rainhas de linhagens africanas e italianas devem ser realizados para melhor sustenta¸c˜ao destes dados observados em nossos estudos.
Diferen¸cas no per´ıodo de desenvolvimento onto-gen´etico de rainhas entre as 2 ra¸cas estudadas Postura Per´ıodo(dias) n afr n hib
1 14 2 0
14,5 19 2
15 0 11
Total 21 13
Tabela 2: O per´ıodo de desenvolvimento pr´e-imaginal de rainhas africanizadas (afr) e h´ıbridas-italianas (hib) apresentou diferen¸cas entre estes dois fen´otipos.
9.3 Localiza¸c˜ ao e caracteriza¸c˜ ao das ´ Areas de Con-grega¸c˜ ao de Zang˜ ao - ACZ
Uma das partes mais importante deste projeto ´e a localiza¸c˜ao destas ´areas de acordo com as caracter´ısticas topogr´aficas da regi˜ao em que estamos trabalhando (Ribeir˜ao Preto, SP). Numa primeira etapa, algumas pequenas altera¸c˜oes foram feitas nas metodologias mencionadas na literatura referente a estudos de ACZ, que est˜ao descritas na se¸c˜ao 8.2 (pg. 43). Numa segunda etapa, um reconhecimento pr´evio da topografia da regi˜ao foi feito com o uso de cartas topogr´aficas.
O estudo do terreno permitiu um melhor reconhecimento de ´areas com maior potencial de ocorrˆencia de ACZ, de acordo com as principais caracter´ısticas descritas por Ruttner (1966). A primeira ´area (ACZ-Tulha, figura 11) foi encontrada no fim de maio de 2001, mas com o in´ıcio do inverno, o n´umero de zang˜oes nesta ´area foi diminuindo drasticamente, al´em de uma maior frequˆencia de condi¸c˜oes ambientais adversas (estas condi¸c˜oes s˜ao abordadas a seguir nesta se¸c˜ao) o que dificultou a localiza¸c˜ao de novas ACZ. At´e meados de setembro de 2001, todas as coletas de dados foram feitas nesta ´area com o intuito de us´a-la como uma ´area de monitoramento da presen¸ca de zang˜oes no ar. Quando os zang˜oes voltaram a aparecer e perseguir a isca, houve a possibilidade de se encontrar outras ACZ (figura 11).
S˜ao elas: Umuarama, Horta, Milanesa e Cometa (tabela 3).
Fatores como temperatura inferior a 20oC, nebulosidade e velocidade do vento superior a 23 km/h s˜ao desfavor´aveis para que ocorram vˆoos de acasalamento das rainhas, sendo
9.3 Localiza¸c˜ao e caracteriza¸c˜ao das ´Areas de Congrega¸c˜ao de Zang˜ao - ACZ 53
Figura11:Montagemdetrˆescartastopogr´aficasdaregi˜aodeRibeir˜aoPreto,emescalade1:5000.As´areasmarcadas emvermelhocont´ınuos˜aoasACZencontradasem2001eas´areasmarcadascomumgridvermelhorepresentam´areas descampadas,nospontospretosdentrodessas´areasforamencontradoszang˜oes.AlinhapretadentrodaACZ1e2 representamopercursofeitoparatestaracontinuindadedeatra¸c˜aodezang˜oesdentrodasACZ.
Caracter´ısticas topogr´aficas gerais das ACZ estudadas ACZ Local Area(km´ 2) Varia¸c˜ao na altitude(m)
Tulha Ribeir˜ao Preto-SP 0,106 11
Umuarama Ribeir˜ao Preto-SP 0,094 20
Horta Ribeir˜ao Preto-SP 0,077 10
Milanesa Ribeir˜ao Preto-SP 0,033 5
Cometa Ribeir˜ao Preto-SP 0,024 4
Tambo Eldorado do Sul-RS 3,743 15
Pomar Eldorado do Sul-RS 0,309 20
E. Baixo Eldorado do Sul-RS 0,202 20
E. Alto Eldorado do Sul-RS 0,116 17
Hans1 Lajeado-RS 0,04 1
Hans2 Lajeado-RS 0,02 14
Tabela 3: As caracter´ısticas topogr´aficas gerais das ACZ mostram diferen¸cas no tamanho das ´areas (0,020–3,743 km2) e no desn´ıvel do terreno sob as ACZ.
que os zang˜oes apresentam comportamento similar ainda que fa¸cam vˆoos sob condi¸c˜oes menos favor´aveis (KOENIGER, 1986). Em nossas observa¸c˜oes, velocidades do vento maiores que 13–19 km/h parecem impedir uma efetiva persegui¸c˜ao da rainha engaiolada, ainda que alguns machos estejam presentes nas ACZ (figura 12(d) e tabela 4). ´E importante mencionar que, na maioria das vezes, as amostragens foram feitas em dias de vento fraco (2–12 km/h), pois o uso do bal˜ao em dias de vento m´edio e forte (13–18 e > 19 km/h, respectivamente) n˜ao obteve sucesso. A nebulosidade tamb´em interfere na presen¸ca dos zang˜oes nas ACZ. Os dias abertos apresentaram maior n´umero de macho presentes nas ACZ (figura 13 e tabela 5).
Velocidade do vento (km/h) Fraco M´edio Forte
2–12 13–18 > 19
x 19.3 8.4 4
DP 23.5 16.2 5.7
N 19 10 2
Tabela 4: N´umero m´edio de zang˜oes em ACZ em fun¸c˜ao da velocidade do vento.
A despeito disto, algumas amostragens foram feitas demonstrando que nos momentos em que a intensidade do vento diminuia, ainda que por um periodo curto de tempo, alguns
9.3 Localiza¸c˜ao e caracteriza¸c˜ao das ´Areas de Congrega¸c˜ao de Zang˜ao - ACZ 55
Nebulosidade
Aberto Parcialmente Completamente
nublado nublado
x 20.45 11 14.5
DP 31.2 12.7 14.7
N 11 16 4
Tabela 5: N´umero m´edio de zang˜oes em ACZ em fun¸c˜ao da nebulosidade.
machos passavam rapidamente pela rainha engaiolada, mas n˜ao a perseguiam efetivamente.
No entanto, havia um n´umero razo´avel de machos no ar mesmo com as condic˜oes clim´aticas (velocidade do vento) impr´oprias ao acasalamento. O uso de uma vara de 10m de altura com a gaiola com rainha presa na ponta desta, foi testada no dia em que havia um grande n´umero de machos atra´ıdos pela rainha presa ao bal˜ao. A utiliza¸c˜ao desta t´ecnica poderia ser uma alternativa para coletas em dias de vento forte, mas a vara n˜ao permitiu que os machos se aproximassem da rainha.
Alguns aspectos do vˆoo de acalamento dos zang˜oes puderam ser observados durante os estudos nas ACZ. Fatores ambientais parecem estar intimamente ligados ao comportamento de vˆoo de acasalamento de Apis mellifera. A temperatura, umidade, hor´ario, velocidade do vento, nebulosidade e n´umero de machos presentes nas ACZ, s˜ao alguns parˆametros constantemente anotados em campo para uma posterior an´alise. No entanto, os dados preliminares coletados ao longo de 2001 demonstram algumas caracter´ısticas interessantes da presen¸ca de machos na ACZ-Tulha (figura 12).
Os principais parˆametros clim´aticos foram confrontados com o n´umero m´aximo de zang˜oes estimados dentre as amostragens de cada mˆes e n˜ao parecem apresentar correla¸c˜ao significativa (figura 12 e tabela 6). O n´umero de machos presentes nas ACZ apresentou uma rela¸c˜ao diretamente proporcional (correla¸c˜ao positiva) `a temperatura (figura 12(a)). Por outro lado, parece haver uma rela¸c˜ao inversamente proporcional (correla¸c˜ao negativa) com o ´ındice pluviom´etrico e a umidade (figura 12(b) e 12(c)). Estes dados podem esclarecer alguns dos principais parˆametros que influenciam o acasalamento de Apis mellifera.
Todas as ACZ encontradas at´e o momento est˜ao descritas na tabela 3 e marcadas de forma esquem´atica em cartas topogr´aficas (figura 11, pg. 53; 14, pg. 61 e 15, pg. 62). Uma
(a) Gr´afico comparando o n´umero m´aximo de machos observados em cada mˆes, com a m´edia da temperatura mensal (r= 0.29;P >0.05).
(b) Gr´afico comparando o n´umero m´aximo de machos observados em cada mˆes, com a m´edia mensal da umi-dade (r=−0.5;P >0.05).
(c) Gr´afico comparando o n´umero m´aximo de machos observados em cada mˆes, com a somat´oria de cada mˆes do ´ındice pluviom´etrico (r=−0.27;P >0.05) .
(d) Gr´afico comparando o n´umero m´edio de machos em fun¸c˜ao da velocidade do vento (r=−0.27;P >0.05).
Figura 12: Parˆametros importantes para presen¸ca de zang˜oes na ACZ-Tulha.
9.3 Localiza¸c˜ao e caracteriza¸c˜ao das ´Areas de Congrega¸c˜ao de Zang˜ao - ACZ 57
Figura 13: O n´umero de zang˜oes em ACZ-Tulha parece ser maior em condi¸c˜oes de tempo aberto (r=−0,15;P >0.05).
breve descri¸c˜ao das ACZ estudadas no Brasil ser´a feita a seguir:
Tulha Maior ACZ estudada em Ribeir˜ao Preto; localizada na parte mais baixa do Campus da USP-RP, tem um formato alongado que se extende ao longo de um vale n˜ao profundo, flanqueado ao sul por eucaliptos e ao norte por bambu, pinus e eucalipto;
em sua parte central ao longo do c´orrego Monte Alegre encontra-se uma vegeta¸c˜ao arbustiva densa. Por fim, um grande bambuzal parece fechar esta ACZ em seu flanco leste (figura 11).
Umuarama Segunda maior ACZ encontrada, esta localizada a sudoeste do Campus. Esta
´area ´e amplamente aberta, cercada por um grande canavial a oeste e por pastagens a leste. Possui poucas barreiras vegetais ao redor de um vale n˜ao profundo. Algumas
´arvores grandes est˜ao distribu´ıdas ao longo de todo este vale, mas n˜ao parece apre-sentar barreiras durante os vˆoos de acasalamento. Desta maneira, esta ACZ pode ter tido sua ´area subestimada e podendo ser muito maior, se extendendo da crista de um morro a outra (figura 11, ´Area A e ´Area B).
Horta Esta ACZ ´e separada da Tulha pelo grande bambuzal leste; todo seu per´ımetro
Vari´aveis ambientais observadas durante os estu-dos de caracteriza¸c˜ao das ACZ-Tulha
Mˆes N. max. Temperatura Umidade Pluviometria
machos Co % mm
Mai 15 29.30 61.00 116.60
Jun 01 22.45 40.50 0.80
Jul 15 29.85 47.00 3.00
Ago 95 31.85 34.70 33.10
Set 50 33.03 34.13 51.70
Out 24 30.10 53.88 140.50
Nov 00 32.45 56.50 270.80
Dez 10 35.15 48.50 228.30
Jan 30 30.78 63.75 279.10
Fev 23 32.35 56.50 411.60
Mar 29 32.10 58.00 140.90
Tabela 6: As vari´aveis ambientais observadas de mai/2001–mar/2002 na ACZ-Tulha. Estes fatores ambientais devem exercer influˆencia direta e indireta nos vˆoo de acasalamento.
est´a cercado na sua maioria por eucaliptos e ao centro est˜ao v´arias hortas cortadas pelo c´orrego Monte Alegre (figura 11).
Milanesa A ACZ se encontra a montante do lago do Campus da USP-RP. Flaqueada tanto ao Norte como ao Sul, principalmente por grande eucaliptos. Possivelmente, esta ACZ se extende ao longo do lago (figura 11, ´Area C).
Cometa Esta ACZ se resume a um terreno baldio, tendo ao norte um condom´ınio de pr´edios e constru¸c˜oes n˜ao muito altas ao seu redor. Uma ACZ fraca, mas interessante por estar localizado em uma ´area urbanizada (figura 11).
Tambo (T) Sem d´uvida, esta foi a maior ACZ estudada. Esta ACZ possui grandes di-mens˜oes, ocupa uma ´area de pastagem e deve se extender al´em da ´area marcada por n´os(figura 14, grid vermelho, foto A e B). Foi percorrido um per´ımetro de aproxi-madamente 10 km para possibitar o c´alculo de ´area com base em barreiras visuais (partes mais altas do terreno e grandes planta¸c˜oes de eucalipto).
Eldorado Baixo (EB) Esta ACZ tem a oeste um morro onde se encontra a sede da EEA-UFRGS com alguns eucaliptos, ao norte uma mata densa seguindo o Arroio da
9.3 Localiza¸c˜ao e caracteriza¸c˜ao das ´Areas de Congrega¸c˜ao de Zang˜ao - ACZ 59
M˜ae Anna e a leste o munic´ıpio de Eldorado do Sul - RS (figura 14).
Eldorado Alto (EA) Pode ser considerada como continua¸c˜ao da Eldorado Baixo, pois n˜ao h´a nenhuma barreira vegetal entre estas duas ACZ, mas ocorre uma eleva¸c˜ao do terreno. Estas ACZ foram consideradas separadas com o intuito de discriminar facilmente poss´ıveis diferen¸cas dos indiv´ıduos coletados ao longo deste vale. A grande diferen¸ca desta ACZ ´e a fileira de ´arvores paralelas `a BR-290, ao sul desta (figura 14).
Casa do Mel (CM2) Seus flancos leste e sul possuem grande planta¸c˜oes de eucaliptos e a oeste a pastagem que cobre esta ´area se extende morro acima (figura 14, foto D e E).
Hans Cremer 1 (HC1) Esta e a pr´oxima ACZ est˜ao localizadas a, aproximadamente, 4 km do munic´ıpio de Lajeado - RS. Consiste de uma ´area plana circundada por eucaliptos (figura 15, foto D).
Hans Cremer 2 (HC2) Esta foi a menor ACZ observada, localizada em um vale mais profundo que desce em dire¸c˜ao ao vale do Rio Forqueta. Possivelmente, existem v´arias outras pequenas ACZ nesta regi˜ao (figura 15, foto A).
Segundo a literatura, parece haver uma maior preferˆencia por determinadas ´areas do que por outras. As ´areas que atra´ıram os zang˜oes n˜ao eram totalmente abertas (com, pelo menos, 1 hectare), mas protegidas de ventos fortes, sem grandes constru¸c˜oes ou ´arvores muito altas nas suas proximidades (RUTTNER; RUTTNER, 1972; ZMARLICKI; MORSE, 1963). Em nossas observa¸c˜oes, encontramos ACZ com constru¸c˜oes ao seus redores e muitas destas ACZ eram totalmente abertas e amplas (figura 11: Umuarama; figura 14: Tambo e CM2). Parece que estas ´areas de acasalamento no Brasil se formam, preferencialmente, em locais pr´oximos de vales ou depress˜oes do terreno. No entanto, n˜ao est˜ao restritas a estes locais e podem ser encontradas em regi˜oes mais altas do terreno, como observado recentemente nas proximidades da ACZ-Umuarama e -Milanesa (figura 11, ´Area A, D e E).
A distribui¸c˜ao vertical destas ACZ foram estudadas e em todas as ´areas de acasala-mento verificou-se uma maior eficiˆencia de atra¸c˜ao entre 10–15 metros de altura. Uma vez
que os zang˜oes eram atra´ıdos pela rainha, pode-se observar uma efetiva persegui¸c˜ao que variou dos 2–60 m, aproximadamente.