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As formas de estabelecer vínculos, efetivar diálogos, agir em detrimento de

uma situação, ou de solicitações, compreendem um olhar diferenciado sobre o

sujeito que busca a efetividade que é exigida no cargo público e de modo mais

específico na profissão docente. Por outro lado, essa reflexão incide

significativamente no modo de ser desses mesmos sujeitos professores, com

implicações que podem ser identificadas na profissão dos profissionais diretores e

pedagogos.

Em relação ao trabalho docente, Tardif e Lessard (2014) propõem a reflexão

sobre por quê estudar a docência como um trabalho? Estaria essa questão

superada? Poderíamos passar a um outro nível de discussão para além desse

entendimento? De fato, ao retomar essa discussão, pretende-se transcender ao

conceito inicial de que professores, após o concurso público, por exemplo, chegam

às escolas imbuídos de um instrumental teórico consistente e, portanto, estariam

prontos para os desafios postos na produção das práticas do dia a dia de forma a

desenvolver sua função social na escola.

Essa compreensão é o primeiro passo para refletir e tomar como necessária a

rediscussão da formação do profissional professor, que começou aqui a ser

contemplada a partir da ótica da cultura e da cultura escolar. Propõe-se

principalmente, a reflexão de que essa tomada sobre as concepções e ações

docentes, incorpore também o período inicial do exercício no magistério, na forma

que toma historicamente o Estágio Probatório no âmbito da escola.

Deste modo, a discussão subjacente, é sobre quem (indivíduo ou instituição),

se desenvolver profissionalmente, buscando refletir sobre a necessária retomada do

termo formação docente, de um ponto de vista de que o professor construa em sua

carreira docente, uma função intelectual própria. Giroux (1997) contribui neste

sentido, enfatizando o professor como personagem principal do processo de

democratização e transformação do ensino.

Nos escritos de Giroux (1997) é possível perceber que há um esforço teórico

para defender os professores como indivíduos capazes de produzir e de sustentar

as bases educacionais, a partir de sua intelectualidade. Mas é necessário retomar

essa característica com os próprios professores, pois estes consideram-se

incapazes de tornar as mudanças possíveis na escola, considerando a atual

sociedade. Para boa parte dos professores, suas atividades e experiências não

significam produção de saberes sobre os processos de ensino e, demonstram

preocupações e dificuldades ao estabelecer relações entre os conhecimentos que

desenvolvem com seus alunos, e os processos sociais e culturais presentes nessa

sociedade.

Neste sentido tomar o professor e sua formação como objeto de pesquisa,

não se configura discuti-lo com um fim em si mesmo, por assim dizer, mas trata-se

de uma construção científica permanente, nas confluências das reflexões que

planejam um ensino de qualidade. O presente objeto de pesquisa investe nos

processos de aquisição da profissão; trata-se da desconstrução científica

permanente que almeja a ascendência sobre os processos de um ensino de

qualidade. Nesta perspectiva,

[...] encarando os professores como intelectuais, nós poderemos começar a repensar e reformar as tradições que têm impedido que os professores assumam todo o seu potencial como estudiosos e profissionais ativos e reflexivos (GIROUX, 1997, p. 162).

Uma vez estimulados a refletir sobre suas próprias capacidades intelectuais,

pode-se considerar que a tendência dos professores é a de também estimular em

seus alunos uma valorização da intelectualidade e da capacidade crítica quanto ao

aprendizado que lhes é apresentado. Os professores são capazes de problematizar

o que está posto na sociedade em função da reprodução de uma cultura dominante,

verdades absolutas que permeiam as práticas educativas, conformando aqueles que

dificilmente se colocam em posição de refletir o cotidiano e suas próprias ações, o

que significa, muitas vezes, ressignificá-las.

De acordo com Giroux (1997), os professores são intelectuais

transformadores, pois a eles cabe o questionamento das condições e posições

políticas, econômicas e pedagógicas de seu trabalho. Logo, isto não se dá sem

reflexividade, criticidade e criatividade. O professor neste caso é entendido como

principal responsável pelo processo de democratização e transformação do ensino

escolar. Trata-se de considerá-lo com a possibilidade de transformar gerações,

gestando uma futura sociedade mais crítica e atuante.

Essa discussão ganha força no contexto dos professores que iniciam suas

atividades na profissão docente. Os professores que ingressam em escolas da rede

municipal de ensino, recebem propostas prontas e mergulham num habitus, no qual

suas ações tendem a reproduzir práticas de seus pares, e nem sempre

dimensionam o modo e os por quês da composição avaliativa da qual são alvo, e

não detectam como serão avaliados ao iniciar sua profissão. Em alguns casos esses

profissionais só se dão conta, ou analisam os itens ou termos de tal avaliação, no

momento em que este processo se efetiva, ou seja, na primeira avaliação do Estágio

Probatório. Cabe assim, retomar alguns conceitos e questões que tornam relevante

uma mudança de atitude diante da formação inicial dos professores e mesmo das

formas de sua avaliação.

Segundo Tardif (2000) os saberes profissionais dos professores são saberes

utilizados no trabalho cotidiano, que lhes servem para desempenhar suas funções e

atingir seus objetivos. O que leva a depreender que esses saberes são

reelaborados, e tendem a ser incorporados no processo da ação docente,

configurando-se como parte da aprendizagem, em ação pedagógica.

Saberes provenientes de fontes diversificadas, constituídos no decurso de

uma carreira docente e de uma vida em sociedade, são subsidiados por uma cultura

que toma corpo e relevância nas ações docentes. Essa discussão ganha força no

contexto dos professores que iniciam suas atividades profissionais.

De acordo com Medeiros (2007, p. 1487) “o professor traz para a prática

pedagógica seu habitus e seu capital cultural e esses interferem em sua forma de

professorar.” Interferências são observadas na sua trajetória profissional, nas ações

de cunho pedagógico, que se consolidam nas experiências práticas do trabalho

docente na escola. Segundo Medeiros,

Identificando suas percepções, apreciações, ações geradoras de práticas e representações, em sua vida familiar, escolar e profissional, e tendo o entendimento que sua prática pedagógica não é uma construção puramente intelectual e sim fruto da incorporação de disposições é que se pode constatar a inexistência de um modelo didático único e buscar compreender os diferentes modelos em suas variações, bem como salientar suas contribuições diversas (MEDEIROS, 2007, p. 1488).

A ação pedagógica, e neste caso especialmente a Pedagogia escolar,

reafirma sua capacidade de influenciar a personalidade cultural dos indivíduos. De

acordo com Moreira e Silva (1994) a educação escolar está consubstanciada no

trabalho curricular que o professor desenvolve. É preciso considerar que estes,

não atuam apenas como correias de transmissão de uma cultura produzida em um outro local, mas são partes ativas e integrantes de um processo de produção e criação de sentidos, de significações, de sujeitos. A cultura e o cultural não estão tanto naquilo que se transmite, mas naquilo que se faz com o que se transmite, compreendendo um processo de reprodução cultural e social das divisões de classe da sociedade (Idem, p. 26-27).

Para aprofundar essa reflexão, os professores encontram-se como afirma

Passeron (1992) em posição de determinar, direta ou indiretamente, os fins e os

meios da ação pedagógica, e detém um poder multiforme sobre os indivíduos que

sofrem essa mesma ação. Ainda que essa relação exija necessariamente uma

atuação de autoridade, sua influência está associada à legitimidade que os

emissores e as mensagens detêm.

Diante do exposto, a apreensão da docência nos anos iniciais da profissão

docente, confere ao professor a oportunidade de construir para além de práticas

assertivas junto aos alunos, também uma ampliação de sua possibilidade de refletir,

dialogar e antever as possibilidades de subverter um arbitrário cultural constituído no

interior da escola, também para auto avaliar-se.

2.4 AS RELAÇÕES ENTRE OS PROCESSOS DE AQUISIÇÃO DA DOCÊNCIA: AS