CAPÍTULO 5. ANÁLISE DOS DADOS
5.7 PARTE 4 – REFLEXÕES DO GRUPO
5.7.1 Desenvolvimento profissional
Ao longo dos encontros percebemos uma grande evolução do Grupo no que se refere à aprendizagem individual e coletiva acerca do uso de software no ensino e na aprendizagem da Matemática. Em alguns participantes essa evolução foi marcante, como foi o caso de Guilherme, o qual no início dos encontros mal sabia manusear um computador. Contudo, ao final do sétimo encontro Guilherme já apresentava maior segurança e desenvoltura na realização das atividades e na participação nas discussões coletivas, assim como desenvolveu importantes habilidades no manuseio dos software. O sétimo encontro foi finalizado com a notícia de que Guilherme havia comprado um notebook dias antes à realização desse encontro. Quando foi questionado sobre que reflexão faria do trabalho que estávamos desenvolvendo, Guilherme respondeu:
Guilherme: Para mim foi ótimo! [...] Foi super inovador. Eu não conhecia esses
software... E ainda não conheço todos, mas vou conhecer.
(Transcrição do Encontro 7, 12/06/2010)
Guilherme demonstrou muito entusiasmo em relatar como os trabalhos desenvolvidos no Grupo foram importantes nesse início de carreira profissional que vivenciava e o quanto havia aprendido com o mesmo:
Guilherme: Nossa! Eu aprendi bastante, um monte coisa. Porque assim... É como eu falei antes: antes era mais difícil o acesso ao computador aqui na Escola (enquanto aluno)... E hoje, eu aprendi a trabalhar com o computador já como professor, já dando aula.
(Entrevista II, Dezembro de 2010)
Os demais participantes relataram que, anterior à participação no Grupo de Estudos, conheciam pouquíssimos software utilizados no ensino e aprendizagem da Matemática, mas a partir do trabalho realizado no Grupo esse conhecimento se expandiu. Consequentemente, a partir das manipulações com os aplicativos e das discussões realizadas no Grupo, foi possível
aos professores pensar em atividades diferenciadas e abordagens diversas para alguns conteúdos matemáticos. Sobre isso os participantes comentaram:
Amanda: Antes eu só conhecia o GeoGebra...
Jailson: Eu conhecia o GeoGebra e um pouco do Régua e Compasso.
(Transcrição do Encontro 7, 12/06/2010).
Fernando: Durante o curso da licenciatura eu só havia pago uma disciplina (relacionada ao uso de tecnologia) e enfim, a própria disciplina foi meio que enrolada... Então eu só conhecia um software, se não me engano, só o GeoGebra, acho que conhecia. E mesmo assim eu conhecia, mas não sabia utilizá-lo. Então assim... No Grupo, além de saber utilizar, de perceber as ferramentas, de ver o que um tinha em comum em relação ao outro... Porque se você analisar, eles têm diversos pontos em comum... Foi muito positivo, eu gostei, não conhecia essas tecnologias, não sabia trabalhar, conhecia a existência, mas não sabia trabalhar. E outra coisa muito positiva também é o fato de você começar a pensar em sala de aula como você pode utilizar essas tecnologias. Porque à medida que você conhece as ferramentas, você pode pensar em como utilizá-las.
(Entrevista II, Dezembro de 2010).
Dessa forma, acreditamos que o contato com diferentes software, a manipulação e exploração dos recursos disponíveis e em cada um deles e o contato com a metodologia de trabalho do outro foram aspectos que contribuíram para o desenvolvimento profissional dos professores envolvidos com a proposta, conforme discutido por Ferreira (2008) e Imbernón (2010). Observamos que esse desenvolvimento ocorreu tanto no plano individual quanto no aspecto coletivo. Nesse sentido, conforme o discutido por Imbernón (2010), acreditamos que as diversas situações vivenciadas no Grupo aprimoraram a prática, o conhecimento profissional, as habilidades e as atitudes dos profissionais envolvidos.
A realização da aula no Laboratório de Informática possibilitou ainda ao Grupo refletir sobre questões importantes e fatores de ordem estrutural que devem ser considerados quando se propõe a implementação de estratégias de ensino e aprendizagem mediadas pelo uso de tecnologias informáticas na aula de Matemática (SANCHO, 2006). Os participantes analisaram a aula por eles ministrada e apontaram reflexões diversas, como podemos perceber através dos relatos:
Daniel: Quando apliquei a atividade com o software no 3º ano percebi que a percepção, o olhar dos alunos em relação à Matemática e para com o assunto em si, foi outra. Logo, o interesse e o entendimento foram imediatos. Eles conseguiram enxergar o que estava sendo explicado.
Guilherme: Assim, de cara, foi meio complicado para os alunos porque eles não conheciam o programa, tinha alguns que não sabiam mexer em computador ai ficou um pouco difícil pra eles entenderem... Mas espero que a Escola dê continuidade a esse trabalho, porque daí em outras vezes, esses alunos já vão saber mexer no computador, já tem uma boa base do que é o computador, já tem outro modo de
pensar sobre aquele assunto, outro modo de trabalhar aquele assunto. Fica bem legal.
Amanda: A aula é um pouco diferente das aulas tradicionais que a gente tem. Um pouco não, ela é totalmente diferente! Mas o que eu mais fiquei preocupada na aula em si, era como planejar toda a aula. Porque o fato deles estarem no computador assim... Tira muito a atenção do que a gente está falando. Então, eu tentei fazer com que eles estivessem o tempo todo lendo o que eu ia falar com aquelas perguntas que foram colocadas (na apostila), como um roteiro para a aula. Então eu analiso o seguinte: a aula no laboratório é muito importante, mas é importante também o planejamento da aula, o que você vai falar pra eles não se dispersarem, e também a questão da quantidade de computadores pela quantidade de alunos é muito importante também. Mas eu analiso que a minha aula foi boa.
Jailson: Para mim foi bom porque eu não esperava a desenvoltura deles (alunos) quanto ao programa, porque até então eles não tinham mexido ainda nele. E como você viu, eles conseguiram fazer as atividades... Então pra mim foi excelente, porque eu vi que os alunos têm a capacidade de desenvolver muito utilizando esse
software... Apesar de ter sido pouco tempo de aula.
(Entrevista II, Dezembro de 2010).
Dessa forma, percebemos que fatores como o tempo de duração da aula, o espaço físico destinado ao laboratório, a quantidade de computadores disponíveis para cada aluno, o fato daquele ter sido o primeiro contato dos alunos com o software, assim como ter sido um dos primeiros contatos dos alunos com o próprio computador, de alguma forma influenciaram no andamento da aula, conforme discutido por Sancho (2006).
Em contrapartida, e de acordo com os próprios professores, a aula foi um momento importante em que os alunos foram capazes de compreender de modo mais eficaz o conteúdo que estava sendo estudado e também desenvolver habilidades no que se refere às manipulações feitas com o software GeoGebra. Situações de exploração e investigação surgidas a cada nova construção realizada no software permitiram aos alunos um envolvimento maior na aula e até o desenvolvimento de atitudes mais positivas em relação à própria Matemática, possibilitando aos mesmos uma visão mais completa sobre a natureza dessa disciplina, como assegura Ponte, Oliveira e Varandas (2008).
Os professores, de um modo geral, consideraram o trabalho desenvolvido pelo Grupo como uma experiência rica no que se refere à partilha de saberes e a aprendizagem conjunta, a qual possibilitou um crescimento individual e coletivo.
Amanda: Eu acho que foi muito proveitoso como Jailson falou. Todos nós crescemos muito, a gente está sempre aprendendo.
[...]
Jailson: Eu vejo assim: no lugar da gente estar fazendo esses encontros de planejamento que duram o dia inteiro, é muito mais proveitoso fazer esses nossos encontros de matemática. Porque neles a gente está aprendendo e com certeza a gente vai implantar em sala de aula. Eu acho que a Escola ganha mais com isso, do
que esses outros encontros (pedagógicos) porque eu não vejo aproveitamento nesses encontros, mas nesse nosso eu vejo!
(Transcrição do Encontro 7, 12/06/2010)
De acordo com a fala de Jailson percebemos que os encontros realizados pelo Grupo de Estudos se constituíram em momentos mais proveitosos, em termos de crescimento e desenvolvimento profissional para os professores, do que as reuniões pedagógicas oferecidas pela própria Escola e Secretaria de Educação, ocorridas ao longo do ano letivo. Os professores concordaram que essas reuniões são muito burocráticas, as decisões tomadas seguem um padrão de „cima para baixo‟ e nesse caso, os professores apenas implementam medidas tomadas por seus superiores, sem que haja uma participação direta do docente na elaboração das mesmas.
A reflexão feita por cada participante sobre o que havia aprendido acerca da utilização dos software estudados ao longo dos encontros permitiu ainda uma constatação de que é preciso fazer mais enquanto indivíduo e enquanto Grupo. Dedicar-se mais, interagir mais e buscar novas formas de trabalhar a própria Matemática são algumas das reflexões apontadas pelos sujeitos:
Jailson: O Régua e Compasso também é muito bom nessa parte de geometria. É porque, na realidade, com esse meu curso eu não tive tempo para estudar mais... Eu vou me organizar e comprar um notebook para mim. É necessário e eu estou precisando muito.
[...]
Amanda: E outra coisa, a gente vê assim as outras áreas, e assim... Por mais que eles não se planejem, geralmente em feiras de ciência e outros eventos o pessoal das outras áreas sempre tem algo para apresentar, e o pessoal de Matemática não. A gente nunca tem nada, não estou dizendo que isso sirva para uma feira de ciências, mas esses nossos encontros fazem a gente refletir sobre outras coisas...
(Transcrição do Encontro 7, 12/06/2010)
A fala de Amanda reflete certo desapontamento com a forma com que os trabalhos desenvolvidos pela equipe de professores de Matemática vinham ocorrendo, isto é, com a falta de atitude da equipe no que diz respeito a organização e realização de projetos coletivos durante os eventos científicos e culturais ocorridos na Escola.
Acreditamos que o ambiente do Grupo de Estudos favoreceu o desenvolvimento profissional dos professores envolvidos, já que possibilitou a interação entre eles, o desenvolvimento de parcerias de trabalho, a troca de experiências e o apoio mútuo, seja no apontamento de críticas construtivas, ou mesmo na sugestão de idéias que visem um aprimoramento da prática (PONTE, 1997). Nesse sentido, a observação do outro nos permite
ter uma clareza maior sobre onde precisamos melhorar e permite ainda a compreensão de que é possível aprender com os nossos próprios erros. Amanda traduz bem esse aspecto quando afirma:
Amanda: Eu acredito que a gente aprende muito em contato com o outro. Quando você trabalha sozinho você vive naquele mundo fechado e o que você faz você considera como certo e às vezes a gente não percebe os nossos próprios erros... E trabalhar com o outro permite a você pode perceber os erros, você percebe os seus erros, você compartilha eles e tenta melhorar, e você também vê o erro do outro e aprende com o erro do outro. Eu acredito que o nosso trabalho assim... Favoreceu muito de eu ver os meus próprios erros também.
(Entrevista II, Dezembro de 2010).
Dessa forma, acreditamos que o cultivo e estabelecimento de relações de trabalho marcadas pela colaboração entre os professores participantes do Grupo contribuíram para o seu desenvolvimento profissional desses professores na aquisição e desenvolvimento de habilidades de manipulação com os software estudados. Esse ambiente também favoreceu a uma maior interação entre os professores, o resgate de conteúdos matemáticos estudados anteriormente, a ocorrência de discussões acerca de conceitos e definições presentes na Matemática e na observação de metodologias e abordagens de ensino diferenciadas. Tudo isso possibilitou aos professores um novo olhar sobre o seu trabalho e a consciência de que é preciso avançar mais.