3 CRISE AMBIENTAL E RESÍDUOS SÓLIDOS
3.2 Desenvolvimento, saberes e riscos ambientais
O período após a Segunda Guerra Mundial foi marcado pelo avanço no processo produtivo, viabilizado pela consecução de tecnologias, ao qual o entendimento de riqueza é atrelado ao de progresso material. Esse processo promoveu o “aumento da produção industrial, o que implicaria na maior utilização de recursos materiais, de um lado, e na geração de volumes crescentes de resíduos para o meio ambiente, de outro” (KUWAHANA, 2014, p. 60).
Nesse período as teorias econômicas de “desenvolvimento” e “crescimento” se alastram com a mesma velocidade da expansão industrial, que praticamente dobrou em relação à primeira metade do século XX. Teixeira (2009, p. 72) aponta que em decorrência desse crescimento intenso, todos os aspectos da vida social, foram impactados, alterando a estrutura do emprego, a distribuição da força de trabalho, os investimentos, o comércio, as tecnologias e organização industrial, reverberando na chamada “mudança estrutural”. As questões postas pelo autor revelam a preocupação recorrente em torno do “desenvolvimento equilibrando”, enquanto receituário genérico aplicado às diversas realidades.
O Produto Interno Bruto – PIB passa a ser a medida para aferir o desempenho econômico, sem considerar outros aspectos importantes à qualidade de vidas das pessoas, limitando, conforme Kuwahana (2014) a perspectiva de análise.
Nessa métrica, os recursos naturais são apenas inputs do sistema econômico, contabilizados na riqueza apenas quanto extraídos. Os rejeitos e resíduos, meras saídas de um sistema, não possuem ‘valor’ algum, apesar de implicarem em clara depreciação do capital natural e, por vezes, do capital humano (p. 61).
Ainda conforme a autora (p. 71, 2014) “(...) a produção de bens exerce pressão sobre o meio ambiente”, um indicativo de que a destruição ambiental se eleva à medida que a sociedade humana evolui, pois há o aumento do número de habitantes e a ampliação de suas necessidades materiais. Além disso, as características do espaço natural e do padrão de desenvolvimento influenciam o aumento da degradação, que intrinsecamente ligada ao crescimento da produção material, seria limitado apenas pela disponibilidade de recursos naturais e pela capacidade do meio ambiente na retenção de resíduos e dejetos no circuito produtivo.
Apesar dos esforços, Costa (2018), afirma a impossibilidade de desenvolvimento entre os diversos países de forma igualitária, posto que o desenvolvimento de países considerados industrializados de hoje foi realizado às custas da exploração de recursos naturais globais, enquanto os outros precisam enfrentar seus desafios históricos, restringindo a capacidade de desenvolvimento dos países considerados de terceiro mundo.
Foi estabelecida, dessa forma, uma racionalidade imposta pelo mundo europeu, por meio de seus valores e aspirações de desenvolvimento, que promoveu assimetrias de poder sobre aqueles considerados não desenvolvidos (Idem). Assim, ressalvadas as devidas proporções, tanto para países desenvolvidos quanto para em desenvolvimento, que apresentavam dimensões diferenciadas nos processos produtivos e de industrialização1, a concepção e sinergia em torno de desenvolvimento eram a mesma: produção e consumo em larga escala, sem um questionamento efetivo da viabilidade disso para o meio ambiente.
1 Disseminada pelos países de economia central, a perspectiva de desenvolvimento impõe uma divisão internacional do trabalho, que atribui um certo monopólio na produção de bens industrializados. Em contrapartida, caberia aos países de economia periférica a produção e oferta de produtos primários, configurando um circuito de equilíbrio econômico, defendido pelo de pensamento hegemônico. Enquanto voz dissonante, a Comissão Econômica para a América Latina – CEPAL, forneceu crítica contumaz, de viés heterodoxo, que identificou os limites da de crescimento limitado à atividade primária. (SANTIAGO, 2016).
A modernidade com seu grande avanço tecnológico não possibilitou a universalização da qualidade de vida prometidos, mas divido-o de forma desigual, beneficiando uma minoria, excluindo grande parte daquilo que lhes é essencial, assim como da própria ciência e de seus progressos.
A constituição de saberes ambientais
À semelhança de outras dimensões da vida em sociedade, como a cultura e a economia, a questão ambiental é constituída por vários saberes. Estes, por sua vez, foram marcados pelas mesmas perspectivas que referenciam as ciências na modernidade, a fragmentação e a especialização, que despontam como alternativa de aprofundamento no saber.
Sabe-se que a modernidade, projetada para os universos da cultura e dos saberes, anseia pela distinção e pelo fracionamento na expectativa de que, com isso, possa resolver questões essenciais referentes ao próprio caráter do conhecimento. No âmbito da ciência, a expectativa sempre foi a de que os estudos verticalizados, decorrentes do desenvolvimento dos territórios disciplinares, permitissem o aprofundamento das abordagens e evitassem o tratamento superficial das temáticas de estudo. (HISSA, 2018, p. 51).
À margem do que indica como monocultura do saber, referindo-se ao conceito atribuído por Boaventura de Sousa, Hissa (idem) aponta os campos fronteiriços em que se encontram os saberes ambientais. Segundo a autora, foi sob o impacto de movimentos iniciados em 1960, sobretudo nas transformações da cultura moderna, experienciados após o fim da Segunda Grande Guerra, que se inicia, a partir dos anos de 1970, uma revalorização da questão ambiental, decorrente de uma nova concepção e fruto de um paradigma emergente.
A emergência do paradigma ambiental, resultante da própria crise ambiental, da inquietação ética gerada no interior da cultura moderna, é parte integrante da transição contemporânea, através da qual é interrogada a natureza do conhecimento e, particularmente, a disciplina (HISSA, 2018, p. 55).
Apropriada de uma perspectiva mais ampla, questões tipicamente postas como no campo das ciências sociais passam, conforme a autora, a compor a temática ambiental, como a questão urbana, a pobreza, a violência e até mesmo as de caráter internacional,
representando um contrassenso à compartimentalização das ciências modernas. Portanto, ganham dimensões complexas, exigindo leituras transdisciplinares, constituindo, dessa forma,
“um território de convergência de saberes”, que, por si só, não possibilita a integração conceitual e operacional nas disciplinas em torno de uma epistemologia ambiental, já que isso requer um movimento de transcendência da ciência em direção as suas fronteiras (HISSA, 2018).
O início da preocupação em torno da questão ambiental está ancorado ao desenvolvimento capitalista e suas dimensões – produção, reprodução e consumo –, que promulga uma concepção de bem-estar ao homem moderno. É nessa perspectiva, que segundo Costa (2018), surge o pensamento ambiental, ou seja, do próprio questionamento do “projeto de modernidade” e de seu modelo de organização territorial expresso na urbanização contemporânea.
Enquanto resposta aos questionamentos do indiscutível impacto ambiental ocasionado pelo processo produtivo, é proposto o desenvolvimento sustentável, que ganha destaque na Conferência de Estocolmo, em 1972, mas sua menção inicial foi realizada na década anterior. Enquanto mudança de enfoque nas perspectivas preservacionistas dos anos de 1960 e 1970, a concepção em pauta, segundo Costa (2018, p. 82), enfatizou por um lado a necessidade de estabelecimento de “mecanismos de proteção ambiental” no sentido de promover correções ao desenvolvimento econômico e, por outro lado, “reverter a intensidade do crescimento demográfico com vistas a se atingir uma população estável”. Dessa forma, a perspectiva de desenvolvimento sustentável adotada foi marcada, conforme o autor, por alguns pontos:
1. A separação entre o debate sobre meio ambiente e desenvolvimento, embora houvesse a sinalização do compromisso simultâneo entre preservação do meio ambiente e racionalização dos recursos;
2. A diversidade de posições na Conferência de Estocolmo despontou aos extremos, de um lado houve o incentivo ao capital, de outro, o registro de iminência de uma catástrofe ambiental.
3. Responsabilização do crescimento demográfico quanto à distribuição dos resultados do crescimento quanto pelo desgaste ambiental produzido, marcadas pelo cunho neomalthusiano como justificativa de controle populacional.
Em 1987, o Relatório Brundtland – “Nosso Futuro Comum”, da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, legitima o conceito de Desenvolvimento Sustentável, definindo-o como “[...] o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprirem suas próprias necessidades”, reforçando-o politicamente.
A nova concepção, no entanto, é marcada pelo de caráter conservador, ao qual segundo Kuwaha (2014, p. 69), “emergiu em um contexto de controvérsias entre crescimento econômico e meio ambiente, influenciado por instabilidades institucionais e mudanças geopolíticas”, possibilitando assim um conceito conciliador normativo que não se operacionalizou em políticas públicas inequívocas para o desenvolvimento. Essa abordagem, no entanto, parte da demanda de continuidade do sistema, que encontrou na concepção de desenvolvimento sustentável, uma alternativa de unir crescimento econômico e meio ambiente, sem, contudo, questionar os fundamentos do sistema capitalista (FREITAS;
NÉLSIS; NUNES, 2012).
A partir da compreensão de sustentabilidade atrelada ao progresso, enquanto expressão do desenvolvimento, outras análises mais amplas e complexas sobre a questão são realizadas, possibilitando uma reflexão mais ampla rica ao debate. A exemplo disso, Costa (2018) discute as diversas perspectivas construídas a partir das concepções de sustentabilidade, ao qual apresentamos neste quadro resumido:
Tabela 1 - Síntese de Análises Conceituais
Autor Conceito Características
Barbier -Perspectiva analítica resultado da integração dos sistemas biológico, econômico e social. Ressalta que não há sustentabilidade possível com a permanência da pobreza.
-Ecologia política
Perspectiva política
Sachs -Articula desenvolvimento e meio ambiente, que podem ocorrer com a priorização ou não do segundo. Propõe cinco dimensões de
sustentabilidade:
a) Social (redução das desigualdades);
Perspectiva multidimensional
b) Econômica (eficiência econômica e de recursos);
c) Ecológica (redução do consumo, do volume de resíduos e de poluição);
d) Espacial (configuração urbana-rural mais equilibrado) e) Cultural (soluções específicas aos ecossistemas locais).
-Ressalta a importância de ações de caráter global, para além de fronteiras estatais.
Liola e Leis
- Discutem a questão da participação e a tensão entre sociedade civil e Estado, discorrendo sobre a concepção de desenvolvimento sustentável nas seguintes versões:
a) Estatista (primazia do estado, embora associados a organizações);
b) Comunitária (as organizações devem promover a transição para o desenvolvimento sustentável);
c) Mercadológica (desenvolvimento sustentável conduzido pela lógica de mercado, por meio, por exemplo, da expansão do “consumidor verde”. Fundamenta-se, ainda, na eficiência de alocação de recursos regulados pelo Estado).
Participação social
Colby -Discute a chamada “evolução de paradigmas de gestão ambiental”, ao indicar novas formas de gestão entre homem e natureza, por meio de um processo que acredita ser de aproximação entre economia e ecologia.
-Aponta cinco paradigmas com diferentes estratégias, tecnologias e papéis aos envolvidos:
a) Economia de fronteira (baseado na noção de progresso, crescimento e utilização infinita de recursos);
b) Proteção ambiental (de caráter eminentemente remediador, introduz mecanismos de controles, como de atividades poluentes).
c) Gerenciamento de recursos (certo grau de interdependência entre ecologia e economia, estabelecendo princípios como o poluidor-pagador, avaliação de impactos ambientais, como estratégias de gerenciamento ambiental);
d) Ecodesenvolvimento (busca redefinir papeis entre e esfera pública e privada, de foco preventivo, que considera ainda mudanças globais e inserção tecnológicas entre social, econômica e ecológica);
e) Ecologia radical (caráter marcadamente biocêntrico, com restrição do crescimento demográfico e urbano, em um processo de retorno à natureza).
Paradigma ecológico-econômico
Norgaard -Questiona o modelo de modernidade, promessa não cumprida, uma vez que não houve progresso de forma universal, alimentando, portanto, sentimento de “traição”, que se manifesta da seguinte forma:
a) Crise ambiental gerada pelo insustentável modelo de modernidade;
b) Crise das organizações sociais, pela ineficácia de combatividade das mesmas, frete ao problema;
c) Movimento de ressurgência cultural, diversidade de perspectivas negadas pelo modernismo.
-Propõe um novo “paradigma ecoevolutivo”, no sentido de estruturar um processo de mudança, construção de uma nova imagem do futuro. Nessa perspectiva, são valorizados os princípios éticos, para tanto, é preciso um projeto, uma cultura e uma regulação institucional, únicos.
Paradigma eco-evolutivo
Escobar -Crítica ao modelo de desenvolvimento e as desigualdades que este produz. Constrói suas análises a partir dos discursos produzidos, refletindo principalmente sobre o conceito de desenvolvimento e as articulações em torno das relações entre natureza e capital.
-Introduz a ideia de capitalismo pós-moderno e da capitalização da natureza e da vida humana, que compreende desde a posse de elementos da natureza até as dimensões de trabalho.
Perspectiva crítica
-Realiza uma análise pós-estrutural da ecologia política.
Peet e Watts
-Articulam desenvolvimento, meio ambiente e movimentos sociais, ressaltando a importância da ecologia política. Propõem as “ecologias da libertação”, fundamentadas no discurso marxista sobre a natureza e pós-estruturalismo, como foco na transformação social e política.
-Adotam visões locais e regionais, vinculando as características do ambiente com processos sociais.
Ecologia da libertação
Fonte: Costa (2018).
A constituição de saberes ambientais requer, como aponta Leff (2012), pensar uma epistemologia ambiental, fundamentada em uma racionalidade que ultrapassa, por meio da crítica, a retórica positivista e do desenvolvimento sustentável, propondo enquanto alternativa o pensar diverso, os saberes conjugados, uma nova racionalidade social e produtiva. Não obstante suas contradições, a proposição em torno do desenvolvimento sustentável, que se alinha ao pensamento hegemônico de uso de recursos sem refletir de forma mais profunda sobre a racionalidade capitalista, se mantém desde a década de 1970 enquanto
“alternativa” de garantir certo “equilíbrio” entre desenvolvimento e preservação ambiental.
A noção de desenvolvimento sustentável constitui um dos mais atuais e representativos “paradigmas” de referência na definição de ações nas políticas públicas, com o qual, técnicos da área, se deparam rotineiramente no processo de elaboração e avaliação de ações públicas. No entanto, passadas quase cinco décadas, a ideia de desenvolvimento sustentável ainda não alcançou patamares de efetiva mudança sobre o impacto ambiental promovido pelo capital em sua versão globalizada, evidenciado o caráter superficial e abstrato de sua proposição.
Riscos Ambientais
A disposição inadequada de resíduos sólidos traz à tona a discussão de riscos cujas múltiplas dimensões reiteram a magnitude e urgência do problema. Entre os vários enfoques e impactos gerados pelo “lixo”, destacamos os danos causados ao ambiente natural, o prejuízo à saúde dos homens e animais, e as reverberações de caráter social, uma vez que impacta, sobremaneira, na vida das populações mais pobres do país.
De acordo com o relatório do Fundo Mundial pela Natureza (2019), há um cenário crescente de geração de resíduos sólidos no mundo. Projeções revelam o aumento de 41% na geração de resíduos plásticos, serão 104 milhões de toneladas de plásticos vazados na
natureza, além do aumento de 50% nas emissões de CO2 na cadeia de produção de plásticos até 2030. O plástico é um dos materiais que mais impacta no ambiente terrestre e marítimo, causando danos como: enredamento (lesão leve ou crônica em animais), ingestão de plástico pelos animais e humanos (micro e nanoplásticos), degradação do habitat, impactos sociais, contaminação do solo e da água, bem como na economia, ao afetar a pesca, o comércio marítimo e o turismo.
A emissão de gases poluentes no meio ambiente também é uma questão que tem suscitado diversos debates em escala mundial, postos os efeitos que causam, sobretudo no aquecimento do planeta. Segundo Relatório de Emissões de 2019, da ONU, entre os anos de 2008 e 2017 houve o crescimento anual médio de 1,6% na emissão de gases do efeito estufa, o que pode representar, conforme a organismo internacional, um aumento de temperatura de 3,5 ºC neste século.
No Brasil, segundo relatório do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações - MCTIC, referente a emissões provenientes do tratamento de resíduos pela disposição, incineração e tratamento de efluentes, são identificadas variações, de um lado em função do aumento da geração de “lixo” e a consequente ampliação dessas emissões, de outro lado, um decréscimo de gases lançados em função da adoção de Mecanismos de Desenvolvimento Limpo – MDL2. O setor, conforme o referido relatório, apresentou um aumento na emissão de gases entre o período de 2010 a 2015, principalmente, em função da disposição de resíduos e tratamento de efluentes industriais.
Com efeito, são vários os danos ambientais ocasionados pela geração e descarte inadequado de resíduos, mas a própria percepção de qualidade de vida vinculada a questão ambiental é recente. Segundo Ferreira (2011), os complexos processos de comprometimento da qualidade de vida, nas dimensões sociais, ambientais e culturais, repercutem na conformação de uma “sociedade de risco”, resultado de uma modernidade que agrupa complexas fronteiras como a biotecnologia e informática, mas também energia nuclear, aquecimento global, degradação social e ambiental etc.
2 De acordo com o MCTI, “o MDL consiste no desenvolvimento de projetos que reduzam a emissão de gases de efeito estufa. Os projetos no âmbito do MDL são implementados em países menos desenvolvidos e em desenvolvimento, os quais podem vender as reduções de emissão de GEE, denominadas Reduções Certificadas de Emissão (RCEs) para os países desenvolvidos, auxiliando-os assim a cumprir as suas metas e compromissos de redução de GEE assumidos junto ao Protocolo de Quioto” (MCTI, 2017).
4 CONCEPÇÕES E FUNDAMENTOS DA POLÍTICA DE RESÍDUOS SÓLIDOS NO