Conforme exposto acima, a questão da mudança climática impôs ao mundo novos desafios e a busca de soluções para a questão climática estabelece um forte diálogo com o discurso de desenvolvimento sustentável. A mudança climática tem relação com os três eixos em torno da ideia de desenvolvimento sustentável: a) o socialmente justo, b) o ecologicamente equilibrado e c) o economicamente viável (BURSZTYN, M.; BURSZTYN, M. A., 2006; VEIGA, 2008).
Em relação ao socialmente justo (a), há a questão já discutida da “justiça climática. A mudança climática abrange o debate sobre justiça social, uma vez que trazem danos prioritariamente àqueles menos responsáveis pela atuação antrópica no fenômeno e que apresentam menor capacidade de adaptação aos problemas (IPCC et al., 2007). Ademais, os impactos negativos advindos do problema tendem a aumentar ainda mais as desigualdades entre países e populações.
No bojo da sustentabilidade ecológica (b), a mudança climática traz desequilíbrios ecossistêmicos imprevisíveis. É esperado que, em determinada escala e rapidez, as alterações climáticas excedam a resiliência de sistemas ecológicos, gerando situações de irreversibilidade. São previstas inestimáveis perdas na biodiversidade, com a extinção de espécies que não se adaptarão ao ritmo acelerado das mudanças, como corais e alguns ecossistemas específicos como o polar (IPCC et al., 2007).
Em relação à esfera econômica (c), o fenômeno também representa desafios. Os sistemas produtivos atuais são altamente dependentes de um sistema baseado no consumo de combustíveis fósseis. Ademais, a mudança climática prejudica os setores produtivos e exigem maciços investimentos tanto na mitigação quanto na adaptação aos problemas decorrentes do fenômeno (IPCC et al., 2007; STERN, 2006).
Dentre as soluções e alternativas aventadas para lidar com a questão climática estão medidas que trazem consigo a busca por novos padrões de comportamento, de políticas e de desenvolvimento. Tanto em relação ao desenvolvimento sustentável quanto em relação à mudança climática, se faz necessário repensar a relação das sociedades humanas com a natureza de forma mais estratégica e de longo prazo.
No que tange às medidas de mitigação, o IPCC aponta para as sinergias entre objetivos de desenvolvimento sustentável e a busca por redução de emissões de GEE:
Há evidências crescentes de que as decisões sobre política macro- econômica, política agrícola, os empréstimos multilaterais de banco de desenvolvimento, as práticas de seguro, a reforma do mercado de energia elétrica, a segurança energética e a conservação florestal, por exemplo, que são frequentemente tratados à parte da política do clima, podem reduzir significativamente as emissões (IPCC et al., 2007, p. 61).21
Em torno das políticas de mitigação e dos elementos citados acima há a busca por novos padrões de consumo e produção que sejam menos poluentes; novas formas de relação com a natureza, valorizando a manutenção de ecossistemas; e mesmo a criação de mecanismos como a transferência tecnológica, que permitem diminuir as diferenças entre países e estabelece uma relação solidária na busca de um objetivo comum.
Especialmente em relação às medidas de adaptação, existe uma forte sinergia com os objetivos do desenvolvimento sustentável. Mais do que isso, por vezes, um se apresenta
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21 There is growing evidence that decisions about macro-economic policy, agricultural policy, multilateral
development bank lending, insurance practices, electricity market reform, energy security and forest conservation, for example, which are often treated as being apart from climate policy, can significantly reduce emissions (IPCC
como pré-requisito para implementação do outro. Portanto, políticas no âmbito da mudança climática podem conduzir a desenvolvimentos mais sustentáveis e vice-e-versa (YOHE, 2007, p. 818).
Medidas aparentemente não relacionadas com a questão climática, como nível de escolaridade, influenciam diretamente na vulnerabilidade de uma população. Maior capacidade institucional/financeira, acesso a recursos, saúde e tecnologia, são todos fatores importantes tanto para garantir o desenvolvimento sustentável, quanto para uma menor vulnerabilidade socioeconômica de países e populações. Portanto, o desenvolvimento sustentável tanto compartilha objetivos com as políticas de adaptação, quanto tende a ser um garantidor do sucesso destas políticas.
Outro elemento que aproxima a mudança climática e desenvolvimento sustentável é o papel central do raciocínio a longo prazo e adoção de medidas preventivas. Tais medidas tendem a ser mais eficientes quando antecipam acontecimentos e devem ser implementadas em estágios iniciais, tendo em vista ser mais vantajoso cuidar da questão climática o quanto antes. O Relatório Stern tem como uma de suas grandes contribuições demonstrar comparativamente os enormes prejuízos econômicos da inação frente ao problema (STERN, 2006). Entretanto, esses custos são calculados em relação ao PIB mundial e o investimento tem que partir de países específicos. A grande questão é: quem paga a conta atual e para quem, de fato, ficará mais caro se nada for feito de imediato?
Os desafios ambientais e climáticos estão inseridos em uma lógica mais imediatista e de difícil definição de quem serão os custos e benefícios de preservação de um bem comum. A maioria das pessoas não está suficientemente inclinada a adotar ações preventivas e aceitar os custos inerentes dessas ações (SCHNEIDER et al., 2007, p. 798). Quanto mais aparentemente distante o problema, menor a predisposição a solucioná-lo. Isso se aplica tanto às questões de sustentabilidade, em geral, quanto em relação especificamente à questão climática.
Por fim, pode-se dizer que há uma “drama” compartilhado entre o desenvolvimento sustentável e a mudança climática: a dificuldade de se implementar políticas a respeito de bens comuns e que sejam orientadas por uma visão estratégica (e solidária) de médio-longo prazo.