2 ENERGIA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL
2.2 Desenvolvimento Sustentável e Sustentabilidade
No entendimento de Bärwald(2002, p. 46) o conceito de sustentabilidade muitas vezes é utilizado de modo indiscriminado o que resulta numa ambigüidade na sua definição. No entanto, diante desta indagação feita aos alunos faz-se necessário estabelecer um parâmetro visando dar condições para que todos tenham pelo menos o mesmo referencial, de modo a possibilitar a interpretação de suas posições frente aos problemas que afligem o planeta. Sendo assim, buscou-se esta referência segundo o entendimento de Jacobi quando estabelece que “A noção de sustentabilidade implica uma necessária inter-relação entre justiça social, qualidade de vida, equilíbrio ambiental e a necessidade de desenvolvimento com capacidade de suporte” (Jacobi, 1994).
O atual momento de crise de energia elétrica pelo qual o país está passando, vem ao encontro de um dos temas principais que é abordado pela Educação Ambiental, que se refere ao Desenvolvimento Sustentável. Guillén (1996) cita em seu artigo a definição de desenvolvimento sustentável, que, de acordo com a comissão de Brundtland (1987), “o desenvolvimento sustentável é aquele que satisfaz a necessidade da geração presente sem comprometer a capacidade das gerações futuras para satisfazer suas próprias necessidades”.
controle demográfico. Uma segunda está relacionada com a crítica ambientalista ao modo de vida contemporâneo, e que se difundiu a partir da Conferência de Estocolmo em 1972 e tem como pressuposto a existência de sustentabilidade social, sustentabilidade econômica, sustentabilidade ecológica.
Seguindo-se a Conferência de Estocolmo em 1972 e como decorrência da grande preocupação com o meio ambiente, realizaram-se outros fóruns mundiais, a começar pela Conferência de Tbilisi/Georgia/CEI/1977, Eco/92 entre outras, diferentes concepções de desenvolvimento surgiram, como por exemplo, o termo ecodesenvolvimento que pretende definir um estilo de desenvolvimento adaptado às regiões rurais do 3º mundo.
Jacobi (2003) comenta que a partir da Conferencia Intergovernamental sobre Educação Ambiental realizada em Tbilisi em 1977 se iniciou um amplo processo em nível global orientado para criar as condições para formar uma nova consciência sobre o valor da natureza e para reorientar a produção de conhecimento baseada nos métodos da interdisciplinaridade e os princípios da complexidade. Este evento possibilitou a realização de experiências concretas de educação ambiental de forma criativa e inovadora junto a diversos segmentos da população e em diversos níveis de formação. Em Tessalonika (Grécia) na Conferência Internacional sobre Meio Ambiente e Sociedade: Educação e Consciência Pública para a Sustentabilidade, o documento chama a atenção para a necessidade de se articularem ações de EA baseadas nos conceitos de ética e sustentabilidade, identidade cultural e diversidade, mobilização e participação e práticas interdisciplinares.
No entendimento de Bueno (1998), grande parte da população já apresenta indícios de que acredita que na medida em que se reduz a capacidade de renovação dos recursos naturais, em que se contamina a água dos rios, polui a atmosfera, em que se destrói as florestas e toda a biodiversidade, caminha-se no sentido da exaustão das condições que dão suporte à vida no planeta. Este pensamento fica mais claro nas palavras do autor:
Se os cidadãos, individualmente, forem confrontados com a necessidade da manutenção da biodiversidade para a manutenção da qualidade de vida de seus descendentes, sem pensar exclusivamente em seus benefícios pessoais imediatos, os benefícios de longo prazo começarão a ser visualizadas, percebidos enfim, pelos humanos, e a conservação deixará de ser uma luta real de uma minoria e retórica da maioria para ser integrada às atividades sociais de todos como um fato normal e necessário à vida (Bueno, 1998).
Nesse contexto em que vivemos, destaca-se cada vez mais a importância de um desenvolvimento sustentável, onde a educação ambiental possui papel importantíssimo como uma maneira de transformar a sociedade na qual está inserida. Assim, estamos diante de uma situação ímpar no que se refere a difundirmos os princípios desse tipo de desenvolvimento, nas instituições de ensino formal, que é o foco da disciplina e em particular do nosso trabalho. Além disto, esperamos que iniciativas adotadas a partir do ambiente escolar possam surtir efeitos que extrapolem estas fronteiras possibilitando:
Uma educação onde os indivíduos e a coletividade possam construir valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas à racional conservação do meio ambiente geral, patrimônio universal considerado bem de uso comum e essencial à sadia qualidade e sustentabilidade da vida, como estabelece a Constituição Federal de 1988, artigo 225 e o PNEA no artigo 1° do Capítulo I.
A problemática da sustentabilidade na visão de Jacobi (1997) assume neste novo século um papel central na reflexão em torno das dimensões do desenvolvimento e das alternativas que se configuram. O quadro sócio-ambiental que caracteriza as sociedades contemporâneas revela que a interferência humana sobre o meio ambiente está causando impactos cada vez mais complexos, tanto em termos quantitativos quanto qualitativos.
Estas dimensões relacionadas à sustentabilidade social, sustentabilidade econômica, sustentabilidade ecológica explicitam a necessidade de tornar compatível a melhoria nos níveis e qualidade de vida com a preservação ambiental. Surge para dar uma resposta à necessidade de harmonizar os processos ambientais com os sócio-econômicos, maximizando a produção dos ecossistemas para favorecer as necessidades humanas presentes e futuras. A maior virtude desta abordagem seja de que além da incorporação definitiva dos aspectos ecológicos no plano teórico, enfatiza a necessidade de inverter a tendência autodestrutiva dos processos de desenvolvimento no seu abuso contra a natureza (Jacobi, 1997).
Foi a partir de 1987 com a divulgação do Relatório Brundtlandt também conhecido como Nosso Futuro Comum, resultado de uma comissão da ONU, que uma nova abordagem em torno da complexidade das causas que originam os problemas socioeconômicos e ecológicos da sociedade global se estabeleceu. Nessa nova visão, a idéia do desenvolvimento
importante para a Educação Ambiental e teve como resultado o Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global que coloca os princípios e um plano de ação para educadores ambientais estabelecendo uma relação entre as políticas públicas de Educação Ambiental e a sustentabilidade. Neste documento enfatizam-se os processos participativos na promoção do meio ambiente, voltados para a recuperação, conservação e melhoria do meio ambiente e da qualidade de vida. Desta forma, salienta Dias, pode-se considerar como “Sustentável no século XXI, a complexa relação entre o desenvolvimento e o meio ambiente numa variedade de áreas, destacando a pluralidade, a diversidade, a multiplicidade e a heterogeneidade, além de incentivar iniciativas que promovam a conscientização popular”.
Para Jacobi (2003) “o desenvolvimento sustentável somente pode ser entendido como um processo onde, de um lado, as restrições mais relevantes estão relacionadas com a exploração dos recursos, a orientação do desenvolvimento tecnológico”. E continua seu raciocínio afirmando que “o crescimento deve enfatizar os aspectos qualitativos, notadamente aqueles relacionados com a equidade, ao uso de recursos, em particular da energia, e a geração de resíduos e contaminantes”. Além disso, a ênfase no desenvolvimento deve fixar-se na superação dos déficits sociais, nas necessidades básicas e na alteração de padrões de consumo e isto deve ser mais evidente principalmente nos países desenvolvidos, pois são responsáveis pela demanda de grandes quantidades de recursos. Nesse sentido Jacobi faz a seguinte observação:
É preciso fortalecer a importância de garantir padrões ambientais adequados, e estimular uma crescente consciência ambiental, centrada no exercício da cidadania e na reformulação de valores éticos e morais, individuais e coletivos, numa perspectiva orientada para o desenvolvimento sustentável (Jacobi, 2003).
O modelo de desenvolvimento econômico (MDE) adotado pelo Ocidente e imposto ao resto do planeta, baseado no domínio e exploração da natureza pelos seres humanos, por um
lado, e na dinâmica capitalista de crescente produção e consumo14 no entendimento de Dias (2004) termina gerando uma maior pressão sobre os recursos naturais (consumo de matéria-prima, água, energia elétrica, combustíveis fósseis, desflorestamento, etc.), causando mais degradação ambiental como conseqüência vem produzindo uma acelerada degradação geral dos recursos naturais. Dias ao fazer uma análise crítica reflexiva sobre o MDE predominante, registra o seguinte:
Os modelos de “desenvolvimento” vigentes, impostos pelos sete países mais ricos por meio de diversos processos e instituições, como o sistema Financeiro Internacional, o FMI, o Banco Mundial e outros, e das suas influências nos sistemas políticos, de educação e informação, em quase todo o mundo, legaram-nos uma situação socioambiental insustentável, como foi concluído na Rio-92 (Dias, 2004, p.95).
Orsini (2006) faz uma análise do comportamento das entidades que compõem o Modelo de Desenvolvimento Econômico (MDE) apresentado por Dias (2004) apresentado a seguir na p. 22. Neste estudo Orsini, simula o comportamento das entidades como variáveis no STELLA, e deduz que é possível o homem utilizar-se dos recursos tanto renováveis como não renováveis de forma sustentável, desde que seja respeitada a capacidade natural de recomposição das fontes naturais.
Em nosso trabalho tomamos como referência o esquema do, já citado, Modelo de Desenvolvimento Econômico (MDE) apresentado por Dias (2004. p. 97). Desta forma, apresentamos o diagrama do MDE de Dias na figura 01 logo a seguir na p.22. Na figura que representa o MDE é possível visualizar em parte do diagrama entidades que têm relação direta com o foco desta pesquisa, o qual reside na energia elétrica e suas implicações no ambiente. Podemos visualizar no esquema de Dias apresentado na figura 01, salvo os aspectos puramente econômicos (na cor azul), várias relações, dinâmicas existentes entre as atividades realizadas pelos seres humanos e o ambiente. Essas relações que têm relação direta com a questão da energia elétrica podem ser visualizadas observando as seguintes entidades:
• Produção;
• Extrativismo exacerbado;
• Desrespeito à capacidade natural de recuperação da natureza;
14 O binômio produção-consumo termina gerando uma maior pressão sobre os recursos naturais (consumo de matéria-prima, água, energia elétrica, combustíveis fósseis, desflorestamento, etc.), causando mais degradação
• Qualidade de vida;
Tomamos este modelo de Desenvolvimento Econômico desenvolvido por Dias, como referência para a realização das análises dos dados obtidos nos instrumentos de pesquisa. Desta forma, foi com este modelo, apresentado na figura 01 a seguir, que utilizamos para traçar um parâmetro do entendimento que os alunos apresentavam sobre as questões ambientais (veja capítulo V, seção 5.1, p.131).
Seguindo nesta linha raciocínio, Capra (1996) entende que se deve ter uma visão macro com relação ao planeta, na qual o mesmo deve ser visto como um macrossistema, dinâmico e complexo constituído por sua vez de diferentes subsistemas, cujas partes interagem através de reações e relações nem sempre perceptíveis num primeiro olhar, mas que estão presentes nos meios naturais, rurais e urbanos, fazem parte de quase todas as ações desenvolvidas sejam estas decorrentes de sistemas sociais, econômicos, tecnológicos, etc. Este ponto de vista fica evidenciado nas palavras de Capra quando afirma que:
Nosso modelo de vida atual é insustentável, a globalização surgiu como alternativa de crescimento econômico e “desenvolvimento”, uma ordem que beneficiaria todas as nações, gerando uma expansão econômica que atingiria a todas as classes. Entretanto, cada vez mais se observa que esse modelo está gerando graves conseqüências, todas ligadas entre si – a desintegração social, uma deterioração mais rápida e extensa do meio ambiente, o surgimento e a disseminação de novas doenças, maior pobreza e alienação (Capra, 1996).
Figura 01 - Modelo de Desenvolvimento Econômico adaptado de Dias (2004, p97). Em vista disso, percebe-se que não é possível segundo Capra (1996) proteger o meio ambiente dentro deste contexto que busca o crescimento econômico incessante e, portanto, tende a aumentar os efeitos maléficos das nossas atividades sobre um ambiente já fragilizado.
Na visão de Dias (2004), o desafio político da sustentabilidade, apoiado no potencial transformador das relações sociais que representam o processo da Agenda 21 apresentada na seção 2.1, p.15, encontra-se estreitamente vinculado ao processo de fortalecimento da democracia e da construção da cidadania.
No entendimento de Jacobi (2003), a sustentabilidade traz uma visão de desenvolvimento que busca superar o reducionismo, e estimula um pensar e fazer sobre o