3. APRECIAÇÃO NA ESPECIALIDADE
3.8 Desfasamento nas datas de entrada no mercado
a) Sentido provável de decisão de 24.10.2007
Refira-se, a este propósito, que o desfasamento temporal existente entre as datas de entrada em actividade comercial da oferta GSM da OPTIMUS face à TMN e à VODAFONE é de 6 anos, período esse superior ao desfasamento verificado noutros países da União Europeia, alguns dos quais mantêm neste momento preços assimétricos. Por outro lado, e ao contrário do que aconteceu na generalidade dos países europeus, a OPTIMUS não beneficiou de assimetria nos preços da terminação móvel-móvel no início da sua actividade.
b) Respostas recebidas e comentários do ICP-ANACOM • RADIOMÓVEL
A RADIOMÓVEL considera que após 10 anos de actividade, e depois ter passado por um regime de regulação assimétrica, não se justifica conceder, de novo, este regime à OPTIMUS.
• Comentário do ICP-ANACOM
Tal como referido em comentário anterior, o regime de regulação assimétrica só se verificou para o tráfego fixo-móvel (correspondente a 25% do tráfego total de terminação), e só existiu após a decisão de Fevereiro de 2005.
De qualquer forma, o ICP-ANACOM reconhece alguma validade ao argumento de que a OPTIMUS já está em actividade há 10 anos, não podendo por isso ser considerado um “novo entrante”. Neste sentido, a decisão final é alterada relativamente ao SPD no que diz respeito à importância atribuída ao desfasamento na data de entrada na argumentação relativa à assimetria.
• SONAECOM
A SONAECOM refere que a OPTIMUS iniciou a sua actividade comercial 6 anos depois dos seus concorrentes, com desvantagens diversas nomeadamente na captação dos early adopters (que geram mais receitas, e daí o menor ARPU da empresa) e na disponibilidade de melhores locais para construção da rede. De acordo com a SONAECOM, por ter entrado mais tarde no mercado, e também pela (in)acção do regulador, não beneficiou de algumas medidas regulatórias que os outros operadores móveis usufruíram, o que contribuiu para agravar ainda mais a desigualdade das condições de concorrência no mercado. A SONAECOM dá como exemplo destas medidas a inversão do princípio da propriedade do tráfego, usufruída pela OPTIMUS apenas durante 2 anos. Neste contexto refere que não foi proporcionada à OPTIMUS qualquer prerrogativa
Relatório da Consulta Pública especial, tendo em vista atenuar as desvantagens do desfasamento da entrada no mercado, tendo o regulador optado sempre por impor medidas simétricas absolutamente ao arrepio daquela que era, já então, a prática europeia, com excepção de uma situação transitória de assimetria no tráfego fixo – móvel.
• Comentário do ICP-ANACOM
Especificamente sobre o regime de propriedade do tráfego importa salientar que a sua alteração no ano 2000 era inevitável face à liberalização do serviço telefónico fixo, à luz da qual a situação então vigente nesta matéria era insustentável.
Adicionalmente, não se pode deixar de referir que desde a sua entrada no mercado, a OPTIMUS esteve sujeita a um modelo de taxação do espectro que a beneficiou ao longo de vários anos, precisamente em função da sua menor dimensão.
• TMN
A TMN afirma não compreender nem aceitar a posição do regulador quanto a considerar a data de entrada no mercado como um critério para a introdução da assimetria e invoca afirmações do ICP-ANACOM, proferidas no âmbito da decisão de 2005, em que a manutenção da assimetria fixo-móvel até ao final de 2006 já era justificada pela entrada tardia da OPTIMUS no mercado, tendo o regulador considerado que após essa data estaria terminado o prazo de transição. A TMN considera que, para além do benefício obtido com os preços de terminação fixo-móvel assimétricos, a OPTIMUS também tem beneficiado do modelo de tarifação do espectro, e beneficiou da entrada num mercado mais maduro e com mais know-how acumulado, com condições mais favoráveis ao investimento (risco significativamente reduzido), comparativamente com os dois outros operadores.
Adicionalmente, a TMN refere que se trata de uma posição diferente da anteriormente assumida pelo ICP-ANACOM quando, citando o Professor Littlechild referiu que as únicas excepções à regulação simétrica seriam o caso dos novos entrantes, tendo concluído que a OPTIMUS não se encontrava nessa situação.
• Comentário do ICP-ANACOM
Sobre qualquer um destes 3 pontos, o ICP-ANACOM remete para comentários anteriores já efectuados em resposta a afirmações semelhantes da TMN. De qualquer forma, o ICP-ANACOM reitera que o argumento relativo ao desfasamento na data de entrada não influenciou significativamente a presente decisão, tendo o SPD sido alterado em conformidade reflectindo na presente decisão este entendimento.
Relatório da Consulta Pública A VODAFONE considera o argumento do desfasamento de datas de entrada descabido e deslocado no tempo, dado que já em 2005, aquando da anterior decisão e numa altura em que a OPTIMUS estava há menos tempo no mercado, o ICP-ANACOM impôs preços de terminação simétricos. Ao contrário do referido, a entrada tardia no mercado beneficiou os novos entrantes que beneficiaram de melhores condições do mercado financeiro e de acesso a equipamentos de rede, já testados e disponíveis a preços inferiores. Em todo o caso, a entrada tardia apenas serviria de justificação para a assimetria nos preços de terminação se o novo entrante tivesse uma tecnologia específica que implicasse maiores custos de rede.
O argumento utilizado pela ARCEP, de que a assimetria para um operador que tenha entrado posteriormente no mercado pode ser concedida desde que por razões exógenas tenha sido impossibilitado de adquirir uma quota de mercado superior à dos seus concorrentes, também não se verifica segundo a VODAFONE em Portugal, onde a OPTIMUS rapidamente adquiriu uma quota de mercado de 21%, tendo entrado numa altura em que a taxa de penetração no mercado era de 30%, sendo que no ano seguinte à sua entrada o mercado assistiu a um crescimento de 104%. Assim, a VODAFONE considera que não houve nesta sede qualquer alteração relativamente às circunstâncias que caracterizam a decisão de 2005, não se justificando por isso a imposição de qualquer assimetria.
• Comentário do ICP-ANACOM
O ICP-ANACOM nota que, mais uma vez, a VODAFONE cita a decisão do regulador francês. Salienta-se no entanto que os argumentos que a ARCEP usa para invocar que a Bouygues foi impossibilitada de adquirir uma quota de mercado superior à dos seus concorrentes, também se verificam em Portugal (com excepção das diferenças do tipo de espectro atribuído). De facto, e como atrás referido, a ARCEP refere a existência de fortes efeitos de rede e práticas comerciais dos operadores de maior dimensão geradoras de desbalanceamento, como a principal razão para decidir, e mesmo aumentar, o nível de assimetria de que beneficia o terceiro operador.
Sendo certo que a quota da OPTIMUS já foi mais elevada, a realidade é que esta tem vindo a descer até ao nível actual de [IIC] [FIC], e que será a primeira vez que uma diferenciação tarifária será aplicável ao tráfego móvel- móvel.
Sobre o argumento do desfasamento na data de entrada ser “descabido e
deslocado no tempo”, o ICP-ANACOM remete para o comentário anterior à
resposta da TMN neste capítulo.
c) Entendimento do ICP-ANACOM
O ICP-ANACOM considera que o desfasamento na data de entrada no mercado constitui apenas uma justificação complementar para a fixação transitória de
Relatório da Consulta Pública preços de terminação assimétricos, em particular atendendo a que até ao momento não foi concedida à OPTIMUS a possibilidade de praticar preços de terminação diferenciados na relação com os outros operadores móveis, o que conjugado com os problemas de escala e de aproveitamento dos efeitos de rede por parte dos operadores de maior dimensão, tem prejudicado a sua capacidade para adoptar práticas comerciais agressivas e poder conquistar e reter clientes em igualdade de circunstâncias com os seus concorrentes.
A este propósito refira-se que a AdC, no parecer remetido ao ICP-ANACOM sobre o SPD, “considera que a imposição de preços de terminação assimétricos
aproximadamente dez anos após a entrada comercial da Optimus no mercado nacional de comunicações móveis poderá não ter um impacto concorrencial de dimensão equivalente àquele resultante da sua imposição em 1998”.
Note-se que a fixação de preços de terminação assimétricos com base nas diferentes datas de entrada dos operadores tem sido prática comum dos reguladores de diversos países europeus. Aliás a “Posição Comum ERG” refere que “the consequences of differences in entry date, which are in most cases
outside the control of the operators, is more objective than the market share and, under certain circumstances, may justify asymmetries on a transitory basis”, sendo esta uma das três excepções aceites para a determinação de preços
assimétricos.
Adicionalmente, a Comissão tem aceite este factor como justificação para a assimetria. A afirmação que seguidamente se transcreve consta da carta de comentários da Comissão à notificação da Bélgica ao Mercado 16, constitui um exemplo dessa aceitação.
“The Commission considers that termination rates should normally be
symmetric and that asymmetry, acceptable in number of cases, requires an adequate justification. It recognizes that, in certain exceptional cases, an asymmetry might be justified by objective cost differences which are outside the control of the operators concerned. Possible justifications could be represented by the cost differences between the operation of a GSM900 network and a DCS1800 one or by substantial differences in the date of market entry”.
Esta afirmação foi repetida no âmbito de outros processos de notificação41. Em todo o caso, o ICP-ANACOM considera que o desbalanceamento no tráfego gerado pelas estratégias de aproveitamento dos efeitos de rede, por parte dos operadores de maior dimensão, é por si só suficiente para se permitir, transitoriamente, a fixação de preços diferenciados. Assim, o argumento do
41
Vide casos BE/2006/0433 (Comentários da Comissão à Bélgica) 04.08.2006, LV/2006/0464
(Comentários da Comissão à Letónia) 25.08.2006, FR/2006/0461 (Comentários da Comissão à França) 04.09.2006, LV/2007/0574 (Comentários da Comissão à Letónia) 26.01.2007, FR/2007/0596 (Comentários da Comissão à França) 15.03.2007, ES/2007/0654 (Comentários da Comissão à Espanha) 20.07.2007 e IT/2007/0659 (Comentários da Comissão à Itália) 02.08.2007.
Relatório da Consulta Pública desfasamento na data de entrada no mercado, tal como os argumentos relativos às economias de escala e custos médios unitários superiores, não são por si só suficientes, pelas razões apontadas ao longo do presente relatório, para justificar a decisão, pelo que o ICP-ANACOM procedeu à alteração do SPD em conformidade, reflectindo este entendimento na decisão agora aprovada.
Relatório da Consulta Pública