1.1 DESIGN
1.1.7 Design de Sistemas para a Sustentabilidade
Resgatando as discussões feitas no capítulo 1.1.3, acerca do Ecodesign, é possível perceber algumas referências feitas, por alguns autores, à abordagem de sistema produto-serviço, conhecida também por PSS (Product-Service System). Kazazian (2005), conforme foi exposto, e a respeito desta abordagem, argumenta que o produto é um sistema que abrange diversas partes integradas, cada qual com seu próprio impacto no meio ambiente. Sob essa perspectiva, o profissional de design deve atuar de forma sistêmica, considerando o todo, visando à minimização dos impactos ambientais em todas as etapas e de forma integrada. Para Vezzoli (2010, p.37), a mudança rumo à sustentabilidade se dará a partir da inovação em sistemas, ou seja, soluções de PSS, que deslocam o foco do produto físico para a satisfação da demanda de bem-estar. O autor (2010, p. 40) define o dHVLJQGHVLVWHPDVSDUDDVXVWHQWDELOLGDGHFRPR³GHVLJQGH sistemas de produtos e serviços ecoeficientes, socialmente coesos e equânimes, que sejam capazes de satisfazer a uma demanda específica (de clientes/usuários), bem como o design da interação dos atRUHV HQYROYLGRV QR VLVWHPD GH SURGXomR GH YDORU´ e importante ressaltar a questão da interação entre os atores envolvidos no sistema, uma vez que as inovações nas parcerias entre os membros é um aspecto que diferencia esta abordagem do Ecodesign.
Além de satisfazer certas necessidades ou desejos (de bem-estar), através de um mix de produtos e serviços, o design de sistemas aborda a interação dos atores envolvidos socioeconomicamente, convergindo seus interesses (Vezzoli, 2010, p. 41). O
profissional de design, ao projetar pensando em sistemas, deve analisar quem são os atores envolvidos, quais as melhores conexões, entre outras questões relacionadas à integração de todos, visando a otimização do consumo de recursos e o aumento da ecoeficiência. O design de sistemas produto-serviço atende a uma demanda de satisfação, através das interações entre atores, conectados, direta ou indiretamente, ao sistema de satisfação.
Vezzoli (2010, p.51) argumenta que o design orientado para sustentabilidade ampliou seu escopo de ações de prevenção, evoluindo da abordagem de Ecodesign para Design de Sistemas para Ecoeficiência. O autor (2010, p.54) sugere que o pensamento de ciclo de vida de produto, e os impactos de cada fase, surgiram na segunda metade dos anos 1990. Esta abordagem propõe que se faça análise dos impactos ambientais em cada fase do ciclo de vida do produto, desde a concepção até ao descarte, visando sua redução. Porém, o design, em um novo cenário, deve agir de forma integrada, mantendo o pensamento de ciclo de vida, mas considerando as relações existentes entre atores diversos que participam das diferentes etapas desse ciclo. Uma vez que se propõe a desenvolver produtos e serviços sustentáveis, o designer deve promover novas interações entre os diferentes atores, a fim de buscar soluções inovadoras.
Percebe-se uma relação de semelhança entre as duas abordagens no que diz respeito ao pensamento do ciclo de vida. Tanto o Ecodesign como o Design de Sistemas para Ecoeficiência atuam desde a concepção até ao descarte dos produtos, em seus modelos de atuação. Porém, o design de sistemas evoluiu ao considerar a integração entre os atores envolvidos no sistema, bem como ao considerar a convergência de seus interesses econômicos. É uma abordagem de visão sistêmica e integrada, que também incorpora o ciclo de vida, mas promove conexões entre membros envolvidos de modo a otimizar a redução de recursos e aumentar a ecoeficiência. A diferença reside nessa visão mais sistêmica e integrada do design de sistemas, que envolve todos os atores de todas as fases do ciclo de vida. Vezzoli (2010, p.73) utiliza-se de um exemplo de uma publicação da UNEP (2002) para se referir a uma inovação de sistemas, que é a satisfação da demanda por roupas limpas. Para tal, é necessário, além da máquina de lavar, o sabão em pó, água, eletricidade, serviços de manutenção da máquina, entre outros. O design de sistemas visa minimizar recursos através das interações dos membros envolvidos socioeconomicamente (2002, apud Vezzoli 2010, p.74). O PSS pode ser definido GDVHJXLQWHPDQHLUD³XPVLVWHPDGHSURGXWRVVHUYLoRVUHGHGHDWRUHV e infraestrutura que busca, continuamente, ser competitivo, satisfazer as necessidades
dos clientes, tendo um impacto ambiental menor que os dos modelos tradicionais de negóciRV´
Vezzoli (2010, p.75) faz um comparativo entre a eficiência das duas abordagens, Ecodesign e Design de Sistemas para Ecoeficiência, utilizando-se do exemplo anterior, da necessidade de lavar roupa. O autor argumenta que, sob a perspectiva do Ecodesign, os produtores da máquina de lavar somente se preocuparão em reduzir o consumo de recursos na fase de produção, que lhes diz respeito. A eles não interessa economicamente reduzir o consumo de recursos durante o uso, descarte ou reciclagem. O interesse na redução de impactos e no consumo de recursos é relacionado ao ator envolvido em uma fase específica de transformação. Ou seja, no ecodesign, existe pouca interação entre os atores envolvidos no ciclo de vida, o que leva a uma menor ecoeficiência. Em contrapartida, o Design de Sistemas para Ecoeficiência propõe a integração entre os atores/parceiros, de forma a promover a convergência de seus interesses econômicos na redução do consumo de recursos, buscando o aumento da ecoeficiência. Vezzoli (2010, p.77) sugere que essa integração pode ser vertical, quando um único ator é responsável por todas as etapas do ciclo de vida (o fabricante é também aquele que recicla); ou horizontal, quando um ator é responsável por diferentes serviços e produtos de um sistema de satisfação (o fabricante da máquina de lavar roupa também vende o sabão em pó). Nestas duas alternativas, o autor chama atenção para o risco do monopólio, devido a ausência de concorrência.
É importante ressaltar que nem todas as inovações em sistemas são ecoeficientes. Vezzoli (2010, p.85) sugere que um sistema produto-serviço de empréstimo e devolução (de roupas, por exemplo) acarreta o custo de transporte, combustível e seus impactos ambientais. Um PSS deve ser bem projetado para ser ecoeficiente.
Os principais obstáculos para a adoção do PSS, de acordo com Vezzoli (2010, p.87) são:
A mudança cultural do usuário (mudança de apropriação para consumo de utilização);
Falta de conhecimento e experiência em métodos de design de serviços; ferramentas para implementar o PSS; especialistas para desenvolver o fornecimento de serviços, métodos de custeio de ciclo de vida;
Falta de infraestrutura e tecnologia para coletar os produtos e reutilizá-los, ou reciclá-los.
Vezzoli (2010, p.88) argumenta a necessidade de novos profissionais de design e de outras áreas que possam operacionalizar a inovação e a pesquisa em sistemas, já que o PSS é um modelo promissor.