4.1 O cortador de grama
4.1.1 Design mortal: serial killers
Na ficção criminal, geralmente é o vilão o personagem responsável por disparar os acontecimentos da trama. Quase sempre há um criminoso a ser descoberto e/ou capturado, pois ele desestruturou um mundo até então mais ou menos estável. Como dissemos, a função de detetive se relaciona diretamente com o surgimento da democracia e da concepção de que qualquer sujeito tem direito a um julgamento justo no século XIX (HAYCRAFT, 1941a). Por outro lado, paralelamente os direitos, há também os deveres, regras que precisam existir para o bom funcionamento da sociedade. Sandra Lúcia Reimão (1983) lembra que, até a Idade Média (com exceção da época do Direito Romano), o crime era visto como um delito localizado, que poderia ser resolvido entre os próprios indivíduos envolvidos. Porém,
[...] depois do surgimento do Poder Judiciário, e da figura do procurador, aos poucos vão-se criando, solidificando e divulgando a ideia de crime como uma infração às leis do Estado e a ideia de criminosos como um inimigo público, que pode prejudicar não só os indivíduos diretamente lesados por ele, mas também a sociedade como um todo. (REIMÃO, 1983, p. 14-15).
O crime, enquanto problema público, exige os cuidados de uma instituição responsável: a polícia. O detetive, assim, é um especialista para lidar com esse tipo de infração.
Em True Detective, Rust é capaz de fazer várias conjecturas enquanto analisa o corpo de Dora, e uma delas é de que aquela não seria a primeira vez do assassino – era o trabalho de um serial killer. Ao longo dos episódios, descobrimos que o personagem tem certa obsessão pela psique de criminosos, estudando-a por meio dos livros empilhados em sua casa, tais como Serial killers: the insatiable passion, de David Lester, e Without conscience: the disturbing world of the psychopaths among us, de Robert D. Hare.
Imagem 15 - Livros de Rust
Fonte: Captura de tela de True Detective (HBO, 2014, Episódio 1).
Segundo Malmgren (2001), personagens psicopatas geralmente não cabem na narrativa criminal formal. Como esta se organiza em mundos centrados, nos quais as motivações se mostram claras e, de certa forma, racionalmente justificáveis, e nos quais criminosos e vítimas se conhecem, os assassinos matam por vingança, dinheiro, paixão. Ao final, o detetive pode evidenciar o “sentido” por trás da brutalidade do ato de tirar a vida alheia. Todavia, “[…] como as vítimas de serial killers são escolhidas de uma maneira aparentemente aleatória e, geralmente, não conhecem o assassino, ideias convencionais de motivação (que predominam na ficção de mistério) não mais se aplicam” (MALMGREN, 2001, p. 179, tradução nossa).32 No caso de serial killers, muitas vezes a motivação não pode ser exatamente compreendida. Esses personagens introduzem uma questão psicológica mais complexa, na qual a motivação do assassino pode fazer sentido apenas em sua própria mente, que combina estímulos caóticos e métodos sistemáticos.
A expressão serial killer foi cunhada por um agente especial do FBI, Robert Ressler, em meados dos anos 70, para agrupar casos de assassinatos que envolviam insatisfação pessoal e repetição mecânica (MALMGREN, 2001). Pouco tempo depois, Thomas Harris publicaria Dragão vermelho (Red dragon, 1981), “[...] que introduziria, de uma só vez, as convenções básicas desse tipo de ficção e inauguraria um período de imensa popularidade para o subgênero” (MALMGREN,
32 […] since the victims of serial killers are chosen in an apparently random way and are usually unknown to the murderer, conventional ideas of motivation (those that obtain in mystery fiction) no longer apply.
2001, p. 176, tradução nossa).33 O fenômeno cresceria com o lançamento dos filmes baseados em sua obra, Caçador de assassinos (Manhunter, Michael Mann, 1986) e O silêncio dos inocentes (The silence of the lambs, Jonathan Demme, 1991), e com a publicação de O psicopata americano (American pshyco, 1991), de Bret Easton Ellis – que também viraria filme em 2000, sob a direção de Mary Harron (MALMGREN, 2001). Os criminosos se tornam protagonistas, ganhando o status de personagens fascinantes, dotados de grande charme e inteligência, como o já citado Dr. Hannibal, de Harris, e o arrivista Tom Ripley de Patricia Highsmith, definido pela própria autora como um “herói criminal” (GLOVER, 2003, p. 150).
Na época, várias características foram relacionadas ao thriller criminal e, mais especificamente, às histórias de serial killers: a mistificação do assassino, o fato de ser um produto da ideologia tecnicista e consumista estadunidense, a presença dos mass media e a misoginia, expressa nos recorrentes casos de feminicídio das tramas (MALMGREN, 2001). Autores como Robert Conrath (1994) e Steffen Hantke (1996) relacionam a ficção de serial killer à pós-modernidade (MALMGREN, 2001). O primeiro argumenta que o assassino caça sua vítima como se procurasse carne no supermercado, atentando-se para aquela que é especial e que se destaca sobre as demais (CONRATH, 1994). Na mesma linha de pensamento, Hantke explora como há uma alegoria sobre o consumismo nas histórias de homicidas os quais, afinal, colecionam vítimas e têm um desejo de publicização do evento (HANTKE, 1996, p. 101). Similarmente, Malmgren (2001) afirma que é importante destacar o aspecto da reprodução cultural, da repetição e da cópia, fatores diretamente relacionados à cultura pós-moderna.
Carla Freccero (1997) destaca que muitas histórias de serial killers contrapõem o mundo racional, científico e equilibrado do detetive à desordem e ao caos do universo do psicopata. Por um lado, diríamos que True Detective se constrói sob um alicerce que é todo instável, no qual não só o assassino é perturbado, mas também os investigadores. Entretanto, não deixa de ser visível como a caracterização de Errol se destaca em sua qualidade desviante, pelo ambiente em que vive e pela relação que mantém com seus parentes – além do fato de cometer brutais assassinatos.
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[...] that at once introduced the basic conventions of such fiction and inaugurated a period of immense popularity for the subgenre.
A oposição de que fala Freccero (1997) muitas vezes é problematizada nas histórias de serial killer. De forma recorrente, o policial precisa apelar mais para a empatia e a intuição do que para a lógica a fim de capturar o criminoso. Na visão de Malmgren,
[…] empatia e intuição criam um canal entre os dois mundos, fazendo a fronteira permeável; a psicopatologia do criminoso pode vazar e afetar membros da polícia. Alguns autores de ficção de serial killer suspeitam que as linhas entre os dois mundos não são tão nítidas, que esses mundos, algumas vezes, se sobrepõem e se interpenetram, e que essas duas diferentes perseguições tornam-se, ocasionalmente, confusas. (MALMGREN, 2001, p. 179, tradução nossa).34
Podemos conferir essa confusão em Hannibal, série derivada dos livros de Thomas Harris. Como já dito, Will consegue enxergar os assassinatos pelos olhos do criminoso, incorporando seu ponto de vista no ato. O problema é que ele começa a se identificar com os homicidas, tornando-se instável, o que é motivo de preocupação para ele mesmo e para seus superiores. Esse quadro serve também de munição para a imprensa desmoralizar o trabalho do FBI – como poderia, afinal, um sujeito que se identifica com criminosos fazer o trabalho dos heróis? Ao entrar em transe para refazer os passos do assassino, Will sempre repete um mantra: “Este é o meu design”. A ideia de que é preciso incorporar o serial killer para entendê-lo reforça a noção de que a mente do psicopata é impenetrável, e mesmo de que é impossível estudá-la de maneira racional e indiferente, de modo que o caminho para resolver os casos seria uma total (e perigosa) empatia.
Já em Criminal minds, ao se depararem com um mistério, os investigadores se baseiam menos nas evidências da cena do crime e mais na análise comportamental do serial killer, aspecto que se revela fundamental para a antecipação de seus movimentos. A equipe de investigação trata os assassinos de maneira mais distante e fria, determinando seu modus operandi a partir de um rigoroso método científico.
Em Hannibal, ou mesmo em Luther, geralmente acompanhamos um ou dois casos de mistério por vez. Invariavelmente, eles resultam na descoberta de um personagem doentio, marcado por traumas do passado ou excêntricas obsessões.
34 […] empathy and intuition create a channel between the two worlds, making the boundary permeable; the psychopathology of the criminal can leak out and affect members of the police. Some authors of serial killer fiction suspect that the lines between the two worlds are not so neat, that these worlds sometimes overlap and interpenetrate, and that the two separate quests sometimes gets confused.
Não há maiores problematizações para discutir os porquês de tais condutas desviantes, problematizações essas que permitiriam entender um quadro mais geral e social e menos pessoal do crime. Segundo Freccero:
Por meio do serial killer, então, nós reconhecemos e, simultaneamente, recusamos a característica de uma cultura saturada de violência ao situarmos sua fonte num indivíduo com uma disfunção psicossexual. Somos, assim, autorizados a localizar a violência em seu transtorno e não em nós mesmos ou na ordem social... A solução para o problema da violência torna-se, então, relativamente simples: mate o serial killer e seu problema desaparece. (1997, p. 48, tradução nossa).35
De fato, mais do que mostrar uma sociedade doente, muitos thrillers do tipo apontam um único personagem problemático, em sua singularidade. É como a metáfora da árvore: cortando-a, podemos destruí-la, algo que não acontece com a grama.
Fazemos aqui uma aproximação com a narrativa criminal formal, em que a captura do culpado significa a justiça poética, uma vez que a resolução do detetive corrige as injustiças e os desequilíbrios da narrativa (MALMGREN, 2001). Para Jonathan Nichols-Pethick (2012), parte do apelo das tramas criminais, nas diferentes mídias, se deve à relação que o indivíduo estabelece com a narrativa, na qual ele busca sanar certas preocupações sociais, tais como a segurança, o senso de comunidade, os direitos e a justiça. Tal faceta catártica, sintetizada na ideia de que capturar o assassino resolve o problema, não se verifica, todavia, em True Detective.