CAPÍTULO 1 A VIDA QUE TRANSCORRE NAS RUAS
1.2 Desigualdade e exclusão social
Sem duvida que o fenômeno das pessoas em situação de rua é uma das manifestações mais evidentes das desigualdades sociais no Brasil, desigualdades que caminham de mãos dadas do processo de construção do Estado nacional. É possível que a libertação dos escravos e a expropriação de terras de camponeses tenha ativado o processo de pauperização dessas camadas sociais, fato que incentivou a migração de pessoas pobres para as cidades, ocasionando um novo desafio para os sucessivos governos. Nos registros da história brasileira ganha destaque o esforço dos diversos governos que, sensibilizados pela situação de penúria das camadas sociais menos favorecidas, se empenharam em criar políticas públicas orientadas a sanar essas feridas sociais. No final do século XIX, o Estado tinha obrigação de intervir na sociedade, onde os legisladores e cientistas se mobilizavam para proteger as crianças e adolescentes em defesa de ajudar os pais no cuidado de seus filhos para evitar maus-tratos e o abandono das crianças na infância. A partir do século XX, quase todos os governos têm procurado inserir as camadas populares nos meios produtivos e criar condições para que as
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mesmas tenham acesso a bens de consumo5. Contudo, esses esforços estatais não conseguem atingir as demandas de todas as pessoas carentes. Atualmente, as pessoas em situação de rua, sem restrição de idade, raça e gênero podem ser consideradas como um fiel indicador da limitação das políticas públicas de assistência social.
As tentativas de implementação de Políticas Públicas de assistência social podem ser observadas nas diversas esferas da gestão governamental. No caso das pessoas em situação de rua, na esfera municipal, pode-se observar o esforço dos gestores por desenvolver medidas administrativas orientadas a implementar casas de acolhimento, cuja finalidade é assegurar alimentação, moradia e higienização às pessoas em situação de rua. Outras ações procuram reinserir as pessoas em situação de rua no convívio familiar. Segundo Singly (s/d, p.67) “as sociedades onde existe o Estado- Providência, é motivada para contribuir ou compensar os riscos e as desigualdades decorrentes, em parte, das intervenções de alter ego, no Estado de direito”. Assim, tem- se a perspectiva de instrumentalização da reforma do Estado através das políticas públicas na discussão acadêmica. De acordo com a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (SDN, 1984, p.20):
No grupo de políticas destinadas à racionalização de estruturas e melhoria de produtividade, as intenções governamentais revelavam-se vagas na medida em que não enumerava as políticas e referia-se ao grupo anterior como tendo também importância para alcançar estes objetivos. Há referências à necessidade de corrigir a distribuição regional dos investimentos industriais e a estrutura de tamanhos. Nas palavras do plano, o mecanismo se daria, basicamente, a partir das alterações de estrutura-descentralização de atividades, o que levaria à reforma tributária.
A modalidade de atendimento funciona través de atribuições profissionais que é acompanhada por avaliação de programa e projeto do RUARTES que supre as necessidades da política de alta complexidade de assistência social das pessoas sem teto. Segundo Bursztyn (2003, p.08) “o sistema global produz pessoas descartáveis, que passam a viver do descarte do consumo. Como se os seus humanos fossem lixo, vivendo na rua, e da rua, dos ricos. O descarte social e o descarte do consumo se unindo, um vivendo do outro”; e assim se verifica a desigualdade social nos brasileiros.
Com o crescimento de João Pessoa modificou-se a infraestrutura, a urbanização de bairros, a expansão da cidade e zona urbana de habitacionais. Segundo Cunha (2010,
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p.17) “a realização do censo permite a identificação das especificidades regionais ou municipais de maneira que possam ser traduzidas em estratégias políticas de intervenção com maior aderência ao perfil dos membros dos agrupamentos sociais de cada área, possibilitando, também, a comparação inter-regional de segmentos desse setor da população brasileira”. Com isso podemos verificar as desigualdades sociais na capital paraibana.
A concentração populacional nas grandes cidades, a reestruturação do setor industrial e o pouco crescimento econômico estão criando um novo elenco de carência e problemas, relacionados ao desemprego, à desorganização, a violência urbana e á insegurança pessoal que culminam em situações comuns de exclusão. Afirma que a pobreza em sua maioria é urbana, localizada na periferia das grandes cidades e constituída por pessoas em grandes parte originárias do campo, cuja integração ao mercado de consumo não obteve a respectiva correspondência com o mercado de trabalho e assim disse Arrà (2009, p.03).
A população identificada na idade economicamente ativa destaca-se através da distribuição de raça e cor, por exemplo, os pardos entrevistados são de 39,1%, uma proporção da população brasileira que é de 38,4%, a população branca é de 29,5%; os negros são de 53,7% e a população dos negros é de 27,9%, a população geral é de apenas 6,2%. As pessoas em situação de rua que foram entrevistadas em sua grande maioria são negras, a soma entre negros e pardos se classificam em 67% se comparados aos níveis das pessoas encontradas pela proposta do IBGE.
Nos diversos encontros com pessoas em situação de rua, constatou-se que os caminhos percorridos por cada uma delas foi diferente. Uso compulsivo de drogas, desagregação familiar, pobreza extrema e outras tantas causas sinalizaram a rua como o espaço de vida para essas pessoas. Sem dúvida, a rua para essas pessoas restou, provavelmente, como “única” opção de continuar sua existência.
Existe um elo entre as pessoas em situação de rua: a experiência de constantes rupturas. Escutando as trajetórias de vida dessas pessoas pode constatar-se a experiência de sucessivas perdas. Nesse sentido, como aponta Bauman (2005), a condição de uma pessoa desprovida do mais elementar para sua sobrevivência, como é a carência de teto, de moradia, se constitui no indicador essencial de perdas profundas que deterioram os valores e a auto-estima que caracterizam essas pessoas. Para o referido autor, essas pessoas se tornam sujeitos passivos, destinatários do lixo das elites privilegiadas e das
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esmolas fornecidas pelo Estado na forma de assistência social. Em outras palavras, o que resta dos outros se torna patrimônio para as pessoas em condição de rua.