2 FUNDAMENTOS TEÓRICOS E ALINHAMENTO DE CONCEITOS
2.2 DESIGUALDADE SOCIAL E DESEMPREGO NO BRASIL: DESAFIOS,
PERSPECTIVAS E A ESPERANÇA QUE A ECONOMIA SOLIDÁRIA TRAZ PARA OS/AS TRABALHADORES/AS
Não posso aceitar calado e bem-comportado que um milhão de desempregados com que o século se encerra sejam considerados uma pura fatalidade deste momento. Nenhuma realidade social, histórica, econômica é assim porque está escrito que assim seja. (FREIRE, 2000, p 115-6)
Iniciamos com a epígrafe de Freire (2000), do livro “Pedagogia da Indignação”, no qual denunciava o problema do desemprego no Brasil no final do Século XX.
Porém, ao adentrar no Século XXI, o Brasil vivenciava uma perspectiva de crescimento, com políticas sociais de distribuição de renda e de inclusão. Essas políticas resultaram em dados positivos, pois em 2004 o coeficiente de Gini11 caiu para o menor índice de desigualdade social no país desde 1960 (BARROS; FOGUEL; ULYSSEA, 2007).
11 Foi criado em 1912 pelo estatístico italiano Corrado Gini para medir o grau de desigualdade social. Para chegar ao resultado, os países são distribuídos ao longo de escala que varia de zero (onde todos detêm a mesma renda per capita) a um (onde um indivíduo, ou uma pequena parcela da população, detém toda a renda e os demais nada tem).
Em 1960 o índice era de 0,536. Todavia, nas décadas de 1960 e 1990, devido às políticas de concentração de riquezas e à crise do endividamento, houve um aumento na desigualdade social, chegando, em 1989, a 0,630. No ano de 2012, era de 0,508.
No entanto, após uma década de avanços nas políticas sociais, bem como sua implementação durante o período compreendido entre 2000 e 2015, enfrentamos, agora, retrocessos. Alguns fatores, como a crise econômico-financeira mundial em 2008, bem como mudanças na política externa e interna do país, configuraram a volta crescente das desigualdades sociais no Brasil, conforme apontam os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) da Agência de Notícias do IBGE:
O Índice de Gini do rendimento médio mensal real domiciliar per capita, que varia de zero (igualdade) até um (desigualdade máxima), foi estimado em 0,545 em 2018. Entre 2012 e 2015 houve uma tendência de redução (de 0,540 para 0,524), que foi revertida a partir de 2016, quando o índice aumentou para 0,537, chegando a 0,545 em 2018. (PNAD, 2019)
Neste mesmo levantamento da PNAD (2019, s/p), os dados revelavam que, em 2018, “o rendimento médio mensal real do 1% da população com maiores rendimentos era de R$27.744,00 (vinte e sete mil, setecentos e quarenta e quatro Reais), o que corresponde a 33,8 vezes o rendimento dos 50% da população com os menores rendimentos (R$820,00 – oitocentos e vinte Reais)”.
Em outras palavras, isso significa que o Brasil, a partir de 2016, voltou a ter maior desigualdade social, os ricos ficando mais ricos, e os pobres, mais pobres.
Desigualdade que, já em 1990, Freire (1996, p. 70) denunciava, pois o grande número de desempregados tinha como consequência a miséria para milhares de pessoas: “[...] é imoral afirmar que a fome e a miséria a que se acham expostos milhões de brasileiras e de brasileiros são uma fatalidade [...]”.
Como supracitado, o Brasil há décadas sofre com a desigualdade social e econômica. Porém, com o avanço do progresso tecnológico, os dados do IBGE (c2019) demonstram a redução de 407 mil empregos no setor privado e de 358 mil no setor público, causando, além de desaceleração no mercado, sentimento de insegurança aos/às trabalhadores/as.
Essa situação leva à uma angústia generalizada, à incerteza, ao individualismo e à competitividade, que fazem com que as pessoas sintam medo e insegurança a respeito do futuro.
Corroboramos com Beatriz (2012, p. 41), quando afirma que as incertezas vividas, tanto em nível de mercado quanto de estado, geram instabilidade e insegurança para os /as trabalhadores/as quanto “[...] à possibilidade de emprego, ocupação, renda e condições futuras de inserção na sociedade, tanto de jovens quanto das pessoas em idade economicamente ativa, excluídos por falta de oportunidades ou qualificação”.
Contudo, não é apenas quem está fora do mercado de trabalho que sofre toda esta tensão causada pela instabilidade econômica e pela pressão que o capitalismo exerce. Da mesma forma que aquele/a que está fora, o/a trabalhador/a que está no mercado de trabalho se sente pressionado por produzir cada vez mais, gerando situações de estresse constante e competição entre os/as colegas.
Segundo Singer (2001), ocorre uma mistura de solidariedade e competitividade, pois ora se exige que os colegas exerçam trabalhos colaborativos, ora é incentivada a competitividade, sempre dependendo dos interesses da empresa que segue a cartilha capitalista: “[...] obrigados a cada momento a desempenhar papéis diferentes, cada um exigindo atitudes solidárias ou competitivas, conforme as circunstâncias, se repete na vida dos empregados das empresas”.
O clima de instabilidade, muitas vezes, tem desencorajado as pessoas que buscam um emprego, produzindo o que é denominado de desalentado. Segundo o IBGE (c2019), desencorajadas ou desalentadas são as pessoas que não procuraram trabalho no período de referência de 30 dias, achando que não iriam consegui-lo por razões de mercado, mas estiveram procurando ativamente por um período de seis meses, e estavam disponíveis para assumir uma atividade caso encontrassem a oportunidade.
As definições utilizadas pelo IBGE (c2019) para classificar quem está ocupado/a, desocupado/a, desalentado/a, e ou subutilizado/a, são as seguintes:
Ocupados/as: compreende as pessoas que tinham trabalho na semana anterior à da entrevista, ou seja, os indivíduos que tinham um vínculo empregatício, os que exploravam seu próprio negócio e os que trabalhavam sem remuneração em ajuda a membros da família.
Desocupados/as: compreende as pessoas que não tinham trabalho e estavam efetivamente procurando trabalho, em um determinado período de referência, e incorpora o conceito de disponibilidade para assumir o trabalho imediatamente.
Desalentados/as: são os que estão fora da força de trabalho por uma das seguintes razões: não conseguia trabalho, ou não tinha experiência, ou era muito jovem ou idoso, ou não encontrou trabalho na localidade. Se tivesse conseguido trabalho, estaria disponível para assumir a vaga. Os desalentados fazem parte da força de trabalho potencial.
Subutilizado/a: segundo o IBGE, trata-se da pessoa desempregada, que trabalha menos do que poderia, pois pode ter procurado emprego e não encontrado vaga ou ter encontrado a vaga, porém não estava disponível para ocupá-la.
O medo de perder o emprego é real e assustador para muitos trabalhadores/as, e isso se explicita quando analisamos o contexto em que “a taxa de desocupação voltou a crescer, no trimestre de dezembro de 2017 a fevereiro de 2018, atingindo 12,6%” (IBGE, c2019).
O desemprego ficou estável e atingiu 13 milhões de pessoas no trimestre encerrado em maio de 2018, mas o contingente de subutilizados foi o maior desde 2012, chegando a 28,5 milhões de pessoas, segundo Saraiva (2018), que aponta os dados do IBGE.
De acordo com o IBGE (c2019), trata-se do maior contingente desde o ano de 2012. A taxa de desalento da força de trabalho acentuou-se na região Nordeste do país, chegando a 15,9%.
O Gráfico 1 demonstra a pior taxa de desocupados dos últimos tempos.
Gráfico 1 – Taxa de desocupação no Brasil entre 2014 e 2018.
Segundo dados da PNAD, faltou trabalho para 27,929 milhões de pessoas no país em 2018. As informações do IBGE (2019) ainda apontam que “o Brasil tinha 4,855 milhões de pessoas em situação de desalento no trimestre encerrado em fevereiro de 2019. O contingente manteve o nível recorde da série histórica do IBGE iniciada em 2012”.
Em relação ao tempo de procura de um emprego, segundo dados do IBGE no 3º trimestre de 2019,
46,9% dos desocupados estavam de um mês a menos de um ano em busca de trabalho. Entre 2012 e 2015, houve redução da proporção de desocupados que buscavam trabalho há 2 anos ou mais. Contudo, a partir de 2016, esse contingente apresentou crescimentos sucessivos, atingindo o maior percentual (25,6%) no 3º trimestre de 2018 e decrescendo para 25,2% no 3° trimestre de 2019. (IBGE, c2019)
Com base na estatística do IBGE, 1,8 milhão de desocupados buscavam trabalho há menos de um mês, enquanto 3,2 milhões procuravam uma ocupação há 2 anos ou mais (Tabela 1).
Tabela 1 – Tabela tempo de procura de trabalho.
Fonte: IBGE, 2019.
No entanto, a questão da situação do trabalho no Brasil não passa apenas pelos problemas do desemprego, mas também da exploração do/a trabalhador/a e da sua remuneração. Sobre esse tema, Marini (1976) apontava sobre a lógica capitalista a perspectiva de que quanto maior o exército reserva de trabalhadores/as, menos será necessário investir em remuneração e em condições dignas de trabalho.
Em seu livro “O privilégio da servidão”, Antunes (2018) desnuda a realidade da precarização do trabalho e a falácia do discurso sobre empreendedorismo que serve para camuflar a retirada dos direitos e garantias dos/as trabalhadores/as, tornando-
os/as autônomos/as ou, nas palavras de Antunes (2018), “burguês-de-si-próprio e proletário-de-si-mesmo”.
Essa lógica capitalista de terceirização, precarização, põe em jogo a força dos direitos trabalhistas, e aqueles trabalhadores/as que ainda detém uma vaga de trabalho assalariado lutam para se manterem empregados, mesmo que seus salários venham, gradativamente, perdendo poder de compra.
Sobre essa racionalidade, Libâneo, Oliveira e Toschi (2003, p. 75) já alertava a intencionalidade do projeto neoliberal e os planos para os países pobres: “os países terceiro-mundistas devem, portanto, promover uma completa desregulamentação ou desmonte dos mecanismos de proteção e de segurança da economia nacional, em conformação com o receituário neoliberal”.
A precarização do/a trabalhador/a se consolida após anos de pauperização crescente dos/as trabalhadores. Como descrito no início da seção, após uma década de crescimento econômico no Brasil e melhora do índice Gini, 2000 a 2012, vem ocorrendo, após esse período, o declínio das ações sociais e, junto a isso, o valor do salário dos trabalhadores/as tem também sofrido perdas.
Segundo a Nota Técnica número 205, do DIEESE,
A estagnação do valor do salário mínimo e o aumento do desemprego e das ocupações precárias no período recente certamente colaboraram para a lenta recuperação e o baixo dinamismo da economia brasileira. Em certo sentido, o Brasil está na situação inversa à do ciclo virtuoso anterior: elevação do desemprego, salários contidos, crédito caro, baixo poder de consumo, baixo nível de atividade, elevado nível de ociosidade das empresas (DIEESE, 2019, p. 5)
Corrobora com o sentimento de perda e desvalorização dos/as trabalhadores/as a afirmação de Antunes (2018, p 30) de que “[...] há uma redução imensa dos empregos; aqueles que se mantêm empregados presenciam a corrosão de seus direitos sociais e a erosão de suas conquistas históricas [...]”.
Na contramão desse contexto, a Economia Solidária faz parte de um projeto social onde um outro modo de produzir, de comercializar e de consumir proporciona um jeito mais solidário e sustentável de viver. Como afirmava Singer (2002, p 10), “se toda economia fosse solidária, a sociedade seria muito menos desigual”.
Nascimento (2008), utilizando-se do conceito etimológico da palavra solidariedade como sendo “o que se torna sólido como o solo”, faz analogia deste significado com a solidez da luta dos/as trabalhadores/as, ou seja, “a Economia
Popular e Solidária é um exemplo desta persistência dos trabalhadores que, em busca de sua auto-emancipação, estão reinventando formas novas para a expressão de suas lutas pela autogestão” (NASCIMENTO, 2008, p 107).
Assim como Nascimento (2008), Gadotti (2005) também afirma que os/as trabalhadores/as buscavam nos movimentos sociais a esperança e resistência para sobreviver às formas excludentes criadas pelas crises socioeconômicas. Nas palavras de Gadotti (2005, p 52), “construíram um novo imaginário social. [...] Eles mobilizam o desejo de mudar, a crença na capacidade do ser humano de mudar. Eles mostraram que «outro mundo é possível» [...]”.
A crença na capacidade de construir um projeto societário em que a participação, dentro do contexto da autogestão, é um dos princípios da ES, pode conduzir trabalhadores/as ao processo emancipatório. A participação e os esforços daqueles/as que acreditam na solidariedade e na justiça social já produziram dentro da ES alguns frutos, que é o que veremos na próxima seção.