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4.2. Grupo Arte por toda parte

4.2.3 Desigualdades: Eles vão querer se igualar a nós?

Como falamos anteriormente a metáfora de foco foi introduzida pelo grupo e não pelo questionamento da pesquisadora. O que pode ser percebido quando ao final do próximo trecho Lelê faz a seguinte consideração “um assunto atrás do outro, estávamos em discriminação”. Esta frase demonstra como eles avançam do foco da pesquisa para temáticas que, na interação estabelecida entre eles, parecem ser tão ou mais importantes que aquelas levantadas pela entrevistadora.

Paulo compara o Brasil aos Estados Unidos e teoriza que o Brasil poderia ser o melhor país do mundo, pois tem recursos naturais e não tem grandes problemas com catástrofes envolvendo terremoto e maremoto, por exemplo. Mas para isso seria necessário haver um maior investimento no país (ls.949-983):

Pm: eu acho assim que (.) o Brasil se, era pra ser o melhor país do mundo, se fosse investido como, como tem que ser, como é investido até em outros países às vezes, é:, os Estados Unidos que hoje é a maior potência seria um (.), não se compararia ao Brasil, o Brasil seria muito melhor, por quê? Os Estados Unidos (.) é: tem lá (.), sei lá um tanto porcentagem de mar, tem território que tem furacão direto, outro tem terremoto

Af: gelo

Pm: outro tem gelo, é:, ou seja, no Brasil não tem nada disso, no Brasil tem (.), o quê? É um país bom, não tem terremoto, não tem (.) furacão, não tem nada disso

Vm: tinha tudo pra ser o melhor país, recursos naturais

Pm: além de (.), além de tudo que quiser fazer na indústria tem matéria- prima, tem, tem

?f: mão-de-obra Pm: metal, tem tudo Vm: água, água potável Pm: água

Vm: floresta maravilhosa, tem tudo para ser o melhor país, mas só que (.) tá aqui (.) emergente

Cf: roubando dinheiro

Af: as condições climáticas, mas não dá (.) o valor necessário pra:: ir pra frente

Pm: só que (.) vem outra questão até que eu também tava falando com o professor de Filosofia, né, que:: quem tá no poder, são os ricos ou são os pobres?

Nf: é os ricos

Pm: são os ricos. Eles vão querer se igualar a nós? Até (.), pode até ser que caia um pouco o nível deles, mas iguala todo mundo, ou cê acha que eles vão querer ganhar nós é, ou! Ganhar nós?@, ganhar mais (.) e:: vai tá nem aí pros outros? (1) ai vem outra questão que vocês falou que é

Vm: eles querem o bem-estar pró- (.), bem-estar próprio deles, eles não tão interessados no nosso

Nf: eles querem só pra eles Vm: eles querem Kf: a ambição

Vm: o bem-estar deles, o dos outros pouco importa.

Há uma compreensão sobre o mau uso do dinheiro público, questão que tem sido diariamente divulgada e discutida nos meios midiáticos e nas conversas informais. Cristiane se refere à corrupção quando ao completar a fala de Vip deixa sair “roubando dinheiro”.

O jovem se remete às aulas de Filosofia e demonstra como o que tem sido discutido nas aulas repercute nas elaborações e percepções que eles têm sobre o mundo. Paulo lança o questionamento para os colegas “quem tá no poder, são os ricos ou são os pobres?”, associa claramente poder e dinheiro, demonstrando que eles estão à margem dos processos. Na percepção dos jovens há uma concentração de riqueza nas mãos de poucos, o que geraria a desigualdade social, com a qual eles se identificam.

Há a identificação de que o rico é também o político, que no período eleitoral defende um discurso junto aos pobres e quando eleitos assumem um posicionamento individualista e pouco afeito às causas coletivas e públicas. O discurso ressaltando características negativas dos políticos demonstra uma possível falta de credibilidade nesses agentes públicos que poderiam contribuir para a proposição de mudanças sociais. Essa é uma orientação coletiva do grupo Arte por toda parte (ls.984-1046):

Pm: na campanha eleitoral eles sabem “-não, vou fazer isso, vou fazer aquilo, vou lutar pelo pobre”, mas aí na hora que chega lá, eles, quem é pobre? Não quer nem saber mais

Vm: quer aprovar os projetos que interessam a eles, aumentar o salário deles, décimo terceiro, quarto, quinto salário

Af: ou talvez assim Vm: é isso que eles querem

Af: assim seja uma só pessoa que pense a favor dos pobres e todo o resto a favor dos ricos

Nf: já pensou se cada rico ajudasse um pobre, ia melhorar muito

Pm: não, não era nem isso, era mais (.) era elevar o nível da, assim, que você vai comparar o que é feito lá até mesmo escola pública lá, até:, o Centro de Ensino B aqui é, é uma das melhores escolas, né, mas você compara outras escolas aqui da Ceilândia com até mesmo pública lá, lá com certeza vai ter mais estrutura, não vai ter igual às vezes tem::, o teto aqui é só no telhado, é porque agora acho foi (.), faz pouco tempo que eles colocaram isso aqui, mas tinha sala que era buraco no teto, era lâmpada quebrada, os negócios tudo (.) e outra coisa assim também é:: a estrutura que é, que é dada aqui, o governo fala “-não, você professor não tem direito de tá reclamando, você tem giz e tem o:::

Vm: o apagador

Pm: e tem o canetão e o apagador”, aqui na escola nós temos o quê? Temos vídeo, temos:: retropojetor

Cf: retropojetor

Pm: mas não foi o governo, não foi (.) o Arruda, nem o Roriz que veio aqui e falou “- toma um retroprojetor para você”

Nf: foi a gente

Pm: foi o quê? A escola, os alunos que conseguiram isso (1), às vez:: os professores reclamam, né, que::: não sei o quê, quem tá de fora assim até fala “- não, mas eles (.) os outros estados aí, eles tão lutando pra ganhar R$800,00, aqui eles ganham dois mil e pouco e tão reclamando”, mas você pega o giz que é oferecido pelo governo (.) afe Maria! (.) O canetão então, o canetão cê escreve duas palavras

Vm: cê escreve uma vez só

Pm: em pé a tinta desce, você não escreve mais nada Nf: ou falha, ou falha a tinta

Vm: os professores que têm que pagar (.), tirar do bolso deles pra comprar (.)

Pm: o giz e os canetão Vm: canetão e tudo mais ( )

Pm: o Arruda fala “- não, eu dou a estrutura”, ma-, estrutura mas (.) o material não tem qualidade, é igual eu falei. Quer vê ó, aquilo ali ((mostra o quadro no qual está escrita uma poesia do Gonçalves Dias, no qual percebe-se nitidamente que a tinta da caneta vai acabando a medida que a poesia foi sendo escrita)), aquilo ali ainda é do bom, mas a lá no Gonçalves Dias, no começo ele começou pretinho ó

Vm: já tá branco no final

Pm: é. Se fosse o::, o dado pelo governo era na segunda frase ali já tava daquele jeito, aí começa a falhar e não escreve mais

Kf: aí como é que pode dar Pm: é

Vm: as condições tão tristes, é só olhar a cadeira que a gente usa Nf: nossa! A gente sai daqui assim, ó

Vm: super

Af: coluna doendo Nf: coluna doendo

Vm: às vezes cê tá (.), cê sente tanta dor de tá sentado num negócio tão desconfortável, que você nem presta atenção na aula (.), salas muito quentes, não tem ventilador, não tem ar-condicionado, não tem nada (.)

Lf: as janelas nem

Nf: janelas algumas quebradas, né? Às vezes o sol vem no nosso rosto, não pode fazer nada

(4)

Lf: um assunto atrás do outro, estávamos em discriminação.

Entretanto, está nítido no discurso de Paulo, por exemplo, que ele não pensa que a solução seria o assistencialismo como propõe Nicolly “já pensou se cada rico ajudasse um pobre, ia melhorar muito” (l.992), mas percebe a necessidade de que haja uma melhor distribuição e utilização do dinheiro público.

Paulo destaca que seria preciso haver maior investimento na escola pública, de modo a prover esse espaço de uma melhor estrutura. Ressaltam as condições de trabalho do professor, que tem que escrever com uma caneta que na segunda linha acaba a tinta e também ressaltam os problemas enfrentados pelos/as alunos/as como a falta de cadeiras mais confortáveis. Falam sobre a condição da estrutura física da escola, demonstrando que ainda que seja uma das melhores escolas da Ceilândia a escola tem janelas quebradas e não há ventiladores para os dias de calor.

Os/as jovens utilizam a sua escola como exemplo de como e onde o recurso público poderia ser mais bem aplicado. Apresentam demandas e mesmo reconhecendo que o Centro de Ensino B é uma das melhores escolas de Ceilândia, eles listam deficiências na estrutura física da escola, que poderiam ser sanadas com mais investimento do governo.

Paulo apoiado por Vip e demais colegas sustentam o discurso de um Brasil ideal, que tem condições naturais propícias para a realização de projetos bem sucedidos e que poderiam fazer torná-lo um país internacionalmente competitivo e promissor. Entretanto, percebem que essas potencialidades são pouco aproveitadas, há concentração de renda e poder nas mãos de poucos e que os políticos não representam o interesse coletivo da população.

Ao ressaltarem a má utilização do dinheiro público, lembram das carências da escola em relação à estrutura física e à má qualidade e como esses recursos poderiam servir à escola pública. Paulo reforça a necessidade de que haja investimento na educação, dando melhores condições de trabalho aos professores e uma melhor estrutura para os alunos.