Organograma 3 – Etapas da educação obrigatória no México
1.2 O ideal da igualdade: acepção material, dimensão geográfica e perspectiva
1.2.1 Desigualdades no Brasil: algumas considerações
A desigualdade não é estranha à sociedade brasileira. Neste ponto, concentraremos o nosso argumento em uma perspectiva baseada na distribuição de renda. Embora venha experimentando importantes mudanças que têm levado à redução da pobreza e das desigualdades sociais,53 e tenha, em 2012, alcançado o mais baixo índice de desigualdade desde 1960, o Brasil ainda é um país fortemente marcado por disparidades sociais e regionais e está entre os doze países mais desiguais do mundo, de acordo com o índice de Gini (CIA, 2013). Em 2003, o número de pobres54 no Brasil era 49 milhões de pessoas. Milhões delas saíram da linha da pobreza desde então, mas, em 2010, a população de pobres no Brasil ainda apresentava o expressivo número de 28,8 milhões de pessoas (NERI, 2012, p. 11; 2011, p. 26). Nesse aspecto, é importante situar a realidade brasileira na perspectiva da América Latina, apontada como a região mais desigual do mundo (RIMISP, 2012, p. 34).55
A pobreza distribui-se de maneira diferente, entre as regiões do país,56 observando-se nos Estados-membros das Regiões Norte e Nordeste percentuais de pobreza superiores aos do resto do Brasil (IPEA, 2010b, p. 7, Gráfico 3). Há de se ressaltar, ainda, que foi registrada uma diminuição da pobreza em todas as regiões do
53 Coutinho (2010, p. 21) indica o Programa Bolsa Família, programa de transferência direta de renda
de grande escala, como um dos principais mecanismos de redução da desigualdade, nas áreas mais pobres do Brasil, mas ressalta a importância de esforços no sentido de corrigir as distorções relacionadas aos sistemas tributário e previdenciário. O Programa Bolsa Família representou uma unificação de diversos programas sociais brasileiros (MORLEY; COADY, 2003).
54 Embora o combate à pobreza seja um tema recorrente no Brasil, o país não conta com uma linha
oficial de pobreza. Parte da literatura adota critério baseado em um percentual do salário mínimo, segundo o qual um indivíduo é considerado pobre se possuir renda domiciliar per capita igual ou inferior a meio salário mínimo. O Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (CPS/FGV) discorda desse método, em razão da mudança sistemática do poder de compra do salário mínimo, ao longo do tempo. No momento da publicação do estudo em comento, o valor da linha de pobreza adotado pelo CPS/FGV era de R$ 140,00 (NERI, 2010, p. 27-28).
55 Dados do índice Gini sustentam a informação (CIA, 2013). Ainda que a lista comparativa que
consultamos tenha usado dados coletados para anos diferentes, em relação a distintos países, estando longe, portanto, de fornecer uma informação precisa, acreditamos que nos sirva de apoio nesse argumento. Dos trinta países mais desiguais do mundo, em termos de índice Gini, treze estão na América Latina. Se considerarmos os vinte países mais desiguais do mundo com base nesse mesmo critério, nove são latino-ameicanos. Levando-se em conta que a América Latina engloba, no total, vinte países, resta visível o grande grau de desigualdade existente na região.
56 O Estado brasileiro é dividido em cinco grandes regiões: Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-
Oeste. A primeira divisão oficial do Brasil em regiões ocorreu em 1942, com o propósito de publicar as estatísticas brasileiras por parte do IBGE (IBGE, [s.d.]).
Brasil, entre 1995 e 2008, exceto na Região Norte (IPEA, 2010b). No campo da educação, a realidade não é diferente,57 o que pode ser tomado como causa perpetuadora de desigualdades, já que a educação é um dos pilares do processo de desenvolvimento, tanto econômico quanto social (DAHL, 2001, p. 72; SEN, 2000, 2005).
O Brasil é, também, a economia mais concentrada da área da Organização para
a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE),58 de acordo com seu índice de
concentração geográfica, ultrapassando a média da organização em quase o dobro (OCDE, 2011b, p. 234).
Além da grande diferença entre pessoas ricas e pobres, portanto, a discussão acerca da desigualdade apresenta muitas outras facetas como, por exemplo, as desigualdades entre regiões (IPEA, 2010b, p. 7, Gráfico 3) e inter-regiões (inclusive no interior de um Estado-Membro ou região metropolitana), entre áreas rurais e urbanas e também problemas relacionados a gênero, orientação sexual, minorias étnicas, como populações indígenas e “quilombolas”,59 e pessoas com necessidades especiais.
É importante ressaltar que essas facetas não estão isoladas uma das outras, sendo possível identificar muitas conexões entre elas, em termos de desigualdades jurídicas, sociais, políticas e econômicas. Os dados que seguem funcionam como uma boa ilustração dessas conexões: nos municípios brasileiros com uma incidência mais alta de analfabetismo, 71% da população se autodefine como descendentes de africanos60 ou pertencentes a comunidades indígenas. Já nos municípios com os índices mais baixos de analfabetismo, aqueles que se autodefinem como descendentes de
57 A título exemplificativo, consultar a nota de rodapé nº 2, neste capítulo.
58 Embora não seja membro da OCDE, o Brasil é considerado um parceiro-chave da organização (key
partner).
59 O Decreto n. 4.887, de 20 de novembro de 2003, que regulamenta o procedimento para identificação,
reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação das terras ocupadas por remanescentes das comunidades dos quilombos, fixa que se consideram remanescentes das comunidades dos quilombos, para os fins do decreto, “[...] os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto-atribuirão, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida”.
60 Gradín (2009, p. 1426) buscou identificar os fatores que levam os níveis de pobreza da população
negra no Brasil a serem maiores do que os da população branca, tendo chegado à conclusão de que “[...] the characteristics effect explains a large part of the discrepancy in poverty levels: education
and labour variables explain one-half of the gap, and geographic and sociodemographic variables another two-fifths” (grifos nossos).
africanos ou pertencentes a comunidades indígenas constituem 26% da população (RIMISP, 2012, p. 62, tabela 1.9).
Essa não é uma circunstância nova, no contexto brasileiro. As desigualdades atuais, conforme antecipado, têm raízes históricas e, de acordo com Coutinho (2010, p. 5), “[...] podem ser parcialmente explicadas como o resultado de normas e arranjos legais que privilegiam os ricos à custa dos pobres”. No campo específico da educação, Cury (2008, p. 1189-1195) apresenta o histórico das legislações que produziram as desigualdades ainda percebidas no cenário nacional. Ultrapassar as desigualdades existentes é um grande desafio que o Brasil vem enfrentando, especialmente a partir da Constituição Federal de 1988 (OCDE, 2011b, p. 234).
1.2.2 O objetivo da igualdade entre entes federativos na CFB/1988 e a sua relação