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DESLIZE DE SENTIDOS

No documento Análise do discurso radiofônico (páginas 68-71)

3 TEXTUALIDADE ÀS ESCURAS

3.1 DESLIZE DE SENTIDOS

O enunciado apagão evoca

Ausência de luz noturna, geralmente, ocasionada por uma interrupção no fornecimento de energia em determinado local (bairro, cidade, região etc); blecaute. P.ext. Diminuição brusca da eficácia de um serviço ou atividade que, ocasionada por uma falha, provoca outras falhas, em determinado sistema de fornecimento, compartilhamento e/ou controle: apagão televisivo. pl. apagões. (Etm. do espanhol: apagón) (SETEGRAUS, 2014).

Ou ainda, de acordo com o dicionário Houaiss (2001), “[...] interrupção no funcionamento da eletricidade ou falta de energia elétrica frequentes, como “blecautes”. A origem latina apagón apresentada por Setegraus remonta, de acordo com Martins (2001), ao termo ainda mais antigo, também de origem latina, ad pacare. Por sua vez, pacare, em latim, designa extinguir o fogo ou a luz. Ou ainda, “[...] À luz da

morfologia, observo que o verbo apagar, por derivação regressiva, produziu a forma apago (em desuso no Brasil) e a partir dessa construção produziu, por derivação sufixal, a atual palavra apagão” (IDEM).

Dito de outra forma, apagão originou-se na arcaica apago, que por sua vez teve origem em apagar e este, por último, do latim ad pacare. O artigo de Martins é uma discussão on line de um período em que o termo apagão estava em voga na imprensa brasileira, quando teve início a crise energética na Região Sudeste do Brasil, na última metade do governo de Fernando Henrique Cardoso, nos idos de 2001 e 2002, época em que o termo apagão teve o deslizamento de sentidos à crise energética, de acordo com Sargentini (2008).

Por sua vez, Martins (2001) alerta que “[...] a palavra apagão, portanto, não é tão original como nos parece à primeira vista” por se tratar de uma derivação regressiva do verbo apagar, sendo considerada então uma palavra deverbal ou pós- verbal pela “[…] redução da palavra apagar, que perdeu a vogal temática –a e a desinência verbal –r” (IDEM). Além disso, o sufixo ão, linguisticamente, costuma ser criador de palavras de negação e de rejeição no Brasil:

[…] assim como apagão, boa parte das palavras terminadas em –ão evidenciam desolação, desilusão, devastação, destruição, solidão e o atual sentimento de consternação social do povo brasileiro. É o caso de apagão que não é apenas o apago geral, mas um apago também de ordem econômica, política, moral e ética frente a uma política de descaso e iniquidade do governo central. A história de criação do neologismo apagão mostra o valor expressivo do sufixo -ão na estilística da Língua Portuguesa. Como se sabe, o sufixo –ão, por excelência, é o formador dos aumentativos em português. Pode juntar-se o sufixo –ão diretamente a radicais de substantivos, como no caso da palavra paredão, de adjetivos, como em valentão e de verbos, como no caso de apagão. Finalmente, o que nos chama a atenção do –ão do apagão, do ponto de vista linguístico, é que este sufixo caracteriza-se por ser formador de palavras altamente negativas para os falantes brasileiros (IDEM).

À época do acontecimento em Florianópolis, em 2003, o enunciado apagão remetia à crise energética do governo FHC e coincidia também com a crise energética nos EUA e Canadá. Entre os dias 14 e 16 de agosto daquele mesmo ano, a Região Nordeste estadunidente e a Região Leste canadense ficou no breu total, afetando em torno de cinquenta e cinco milhões de pessoas, com prejuízos estimados em mais de seis bilhões de dólares (IG SÃO PAULO, 2009).

Por diversas vezes o acontecimento na américa do norte veio à tona nas emissoras analisadas. O apagão de lá atingiu uma das regiões mais densamente

povoadas nos EUA, repercutindo a crise no trânsito, nos sistemas de comunicação, nos aeroportos e hospitais. Em Florianópolis, dois meses depois dos Estados Unidos, o apagão daqui não gerou problemas no Aeroporto Internacional Hercílio Luz, que possui geradores próprios, mas, com as devidas proporções, o transtorno foi semelhante. Florianópolis sediava dois eventos internacionais de grande vulto, o WCT e o Futurecom, além de que aqui o breu durou um dia a mais e, na prática, quase uma semana toda fora do comum, pois a energia elétrica voltou às condições normais somente às 9h do domingo de Finados e a ponte Colombo Salles ainda estava com duas pistas interditadas na segunda-feira, três de novembro de 2003. De acordo com a Câmara de Dirigentes Lojistas local, os prejuízos foram orçados em cerca de trinta milhões de reais.

Discursivamente, Sargentini (2008) evidencia o sentido de falência, de descaso do enunciado apagão. A pesquisa da autora remete ao desdobramento da palavra apagão nos anos subsequentes a 2001 e 2002, exaustivamente divulgados pelos meios de comunicação como o apagão aéreo, o apagão educacional, o apagão político etc. O apagão ilhéu foi anterior aos demais apagões nacionais, no entanto, a análise de Sargentini encaixa-se perfeitamente aqui, porque ela estabelece a relação entre o discurso de mídia e o tecido de memória, em que o uso do termo apagão é resultante de uma repetição intensa pelos meios de comunicação. A conclusão da autora (IDEM, p. 141) é a de que há dois aspectos importantes resultantes da análise, como ela mesma aponta:

[...] (i) a memória, de fato, determina a ordem do enunciável, mas não só, ela também atualiza e antecipa novos enunciados; (ii) a mídia, a quem genericamente atribui-se a circulação dos discursos, expõe os discursos que sustentam as identidades de uma nação, no caso a repetição da expressão ‘apagão X’ reforça a imagem de um país do desgoverno, da falência, da ausência de planejamento e medidas.

A partir do estudo de Sargentini (2008) foi possível acompanhar esse deslocamento do termo apagão, seu consequente caráter político-discursivo, a fim de entender os sentidos gerados por esse enunciado, que também circulou de forma semelhante nas coberturas jornalísticas analisadas, a serem apresentadas ainda neste capítulo.

No documento Análise do discurso radiofônico (páginas 68-71)

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