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CAPÍTULO 3. O PROCESSO DE (RE)CONSTRUÇÃO DA COMUNIDADE DE

3.1.1 Deslocamento Compulsório e Reassentamento

O termo deslocamento compulsório é discutido em diferentes vertentes, e acionado principalmente em casos de desterritorialização de grupos étnicos, comunidades tradicionais e camponeses para a construção de barragens hidrelétricas. Para as análises sociológicas, o termo designa “o processo pelo qual determinados grupos sociais, em circunstâncias sobre as quais não dispõem de poder de deliberação, são obrigados a deixar ou a transferir-se de suas casas e/ou de suas terras.” (SANTOS, 2007, p. 14). Com isso, a bibliografia acionada neste trabalho para a analise do processo de reassentamento da comunidade de Paracatu de Baixo se dará através das pesquisas sobre deslocamentos compulsórios provocados por empreendimentos hidrelétricos, pois trata-se de um campo de pesquisa mais aprofundado acerca do assunto.

A decisão da efetivação de um projeto do tipo hidrelétrico é realizada por agentes externos (empreendedores e poder público) e quando as comunidades atingidas tomam conhecimento do empreendimento em seus respectivos territórios é sob esteio de um discurso de melhoria da qualidade de vida e imprescindível para o desenvolvimento regional. Portanto, o processo de licenciamento ambiental se encontra em estágio avançado quando as comunidades obtêm informações acerca da instalação do empreendimento hidrelétrico (REBOUÇAS, 2000; PENIDO, 2007; SCOTT, 2009). O processo já se inicia assimétrico devido à impossibilidade da rejeição do projeto pelos atingidos e permanece dessa forma com a efetiva instalação do empreendimento. Projetos desenvolvimentistas tendem a desencadear conflitos ambientais que podem ser de ordem espacial, territorial ou/e distributivos (ZHOURI & LASCHEFSKI, 2010). Com isso, os problemas desencadeados pelo processo de deslocamento compulsório na vida dos grupos afetados são diversos, provocando um intenso processo de mudança social, dentre elas estão:

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“desestruturação das relações de produção e de trabalho; perdas materiais, afetivas e simbólicas; exposição aos riscos ambientais do empreendimento; interrupção do acesso a determinados bens naturais; prejuízos à condição e qualidade de vida da população realocada; desestruturação das identidades individual e/ou coletiva; desestruturação das redes de sociabilidade e vizinhança e dos saberes tradicionais imbricados na relação homem-natureza; dentre outros (OLIVEIRA, 2005 apud PENIDO, 2007, p. 30).”

O processo que antecede ao deslocamento compulsório, tal como descrito, ocorreu de forma distinta no caso do desastre da Samarco em Mariana. As famílias tiveram que deixar seus lares rapidamente para que pudessem salvar suas próprias vidas. Como abordado na primeira parte do trabalho, os atingidos pela ruptura da barragem de rejeito da Samarco/Vale/BHP Billiton não sabiam ou não tinham a noção da magnitude do risco a que estavam submetidos. Os estudos de impactos ambientais são instrumentos ineficientes/insuficientes para diagnosticar os problemas e efeitos do rompimento das barragens, e como já analisado no primeiro capítulo, há um processo de vulnerabilização dos grupos afetados desde a chegada do empreendimento das mineradoras no município. Em meio ao súbito solapamento de suas vidas, as vítimas tiveram também que “aprender a ser atingido” logo nos primeiros meses que sucederam a tragédia para reivindicar o direito à reparação das perdas e danos. (ZHOURI et al, 2017). Com isso, a ruptura da reprodução social e do modo de vida permanece, e o reassentamento se apresenta como o “play” da “pausa na vida”.

A “pausa na vida” pode ser observada no caso de atingidos por barragens, porém em diferentes contextos e intensidades. Segundo Penido (2007) “as mudanças na vida das pessoas antecedem, em muito, a efetivação de um empreendimento hidrelétrico numa dada região.” (p. 31). Em seu trabalho acerca do deslocamento compulsório da comunidade de Novo Soberbo (Santa Cruz do Escalvado/MG), atingida pela barragem hidrelétrica de Candonga, a autora mostra que as afetações se iniciam desde o anúncio da possibilidade da construção de uma usina. Ou seja, a interrupção da vida cotidiana antecede o deslocamento compulsório. As incertezas e a ansiedade acabam por desorganizar o cotidiano das pessoas, que deixam de plantar, trabalhar na mesma proporção, de construir benfeitorias em suas propriedades, tendo em vista o risco de perderem tudo na inundação da barragem. “A vida dessas pessoas fica estagnada, suspensa, enquanto o processo de licenciamento ambiental estende-se durante anos” (PENIDO, 2007, p. 31).

O deslocamento compulsório das comunidades rurais de Mariana é/será vivenciado em duas fases. A primeira fase é da „vida provisória‟, onde os atingidos estão espalhados no centro

79 urbano de Mariana, em um ambiente que os impossibilita manter os modos de vidas rurais, além da brusca ruptura da reprodução social em seus respectivos territórios e uma nova rotina com ritmo de regulares reuniões de negociações. E a segunda fase será vivenciada no reassentamento, onde essas famílias terão que passar por uma nova fase de adaptação e construção das comunidades, distintas das localidades originais após todas as mudanças socioambientais vivenciadas.

Na década de 1980, a emergência de movimentos sociais de atingidos por barragens no contexto da redemocratização do país, além das mudanças no tratamento das questões ambientais com alterações na organização e conduta das agências ambientais estatais e instituições nacionais e internacionais de financiamento de grandes projetos, acarretaram novas políticas ambientais na construção de hidrelétricas. (REBOUÇAS, 2000; PENIDO, 2007). Tal contexto resultou na exigência da elaboração de projetos de reassentamentos para as populações atingidas, incluindo os “não proprietários” formais, estes que não eram considerados atingidos. (REBOUÇAS, 2000; PENIDO, 2007). “O reassentamento é uma conquista dos movimentos populares em processos sociais de reconhecimento de sujeitos de direitos.” (SCALABRIN, material curso de DHESCA23

, 2017). Porém, o que apontam as análises de diversos autores é que na prática continua prevalecendo a ótica patrimonialista, desconsiderando as mudanças sociais resultantes de todo o processo de planejamento e execução do projeto.

Segundo Vainer (2003), a “concepção hídrica”, a definição que atingido é somente o inundado é uma reformulação da concepção “territorial-patrimonialista”, ou seja, a estratégia é a empresa energética reconhecer como atingido somente aqueles que tiverem sua “propriedade” alagada. “Atingido passa a ser entendido como inundado e, por decorrência, como deslocamento compulsório - ou, como é corrente na linguagem eufemística do Banco Mundial, reassentamento involuntário.” (VAINER, 2003, p. 43). No caso do rompimento da barragem de Fundão, o caráter territorial-patrimonialista do PLCI24 juntamente com estratégias das empresas para fragmentar as comunidades resultaram em conflitos entre os atingidos de Paracatu de Baixo em torno do que considero ser a „concepção da lama‟. Os termos captados do processo de licenciamento ambiental, como “diretamente” e

23 Curso de DHESCA (Direitos Humanos, Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais) oferecido pela ADAI

(Associação de Desenvolvimento Agrícola Interestadual) para os atingidos de Mariana.

80 “indiretamente” atingidos ou “perda total ou parcial do terreno/lote” foram disseminados entre as vítimas do desastre, dentro da perspectiva de que aquele que teve a casa destruída pela onda de lama compunha o grupo dos „diretamente atingidos‟. O fato é que as vítimas que tiveram suas casas destruídas passaram a questionar aqueles cujas casas mantiveram-se „de pé‟ e que, de alguma maneira, mantêm visitas frequentes ao lugar. No entanto, se examinamos da perspectiva da “produção da localidade” (APPADURAI, 1996), consideramos que os espaços se tornam lugares quando coletivamente ocupados e compartilhados. O fato de haver estruturas de casas de pé, e com isso algumas pessoas frequentando mais o ambiente que um dia foi a comunidade de Paracatu não as tornam menos atingidas que as pessoas que tiveram suas casas derrubadas. As relações sociais territorializadas (trabalho, parentesco, vizinhança e apoio) (ZHOURI, et al 2016) foram interrompidas, as pessoas que ainda vivem no território se encontram isoladas, afastadas dos entes queridos e com a maior parte do ambiente destruído pelo rejeito da barragem.

Desde o início do desastre a tática de fragmentação da comunidade pode ser observada nas ações das empresas e Fundação Renova. A votação para a escolha do terreno destinado ao reassentamento da comunidade de Paracatu de Baixo foi realizado no dia 03 de setembro de 2016. As mineradoras mapearam e expuseram três opções de terrenos para que a comunidade pudesse votar. Os terrenos de Toninho, Lucila e Joel ficam próximos à antiga Paracatu e a comunidade acabou por votar no terreno de Lucila para sua reconstrução. Porém, com a chegada da Assessoria Técnica representada pela Cáritas Brasileira em Mariana, foi diagnosticado que a área do terreno proposto pelas empresas e escolhido pelos atingidos não teria área suficiente para reassentar toda a comunidade. A insuficiência da extensão do terreno não pode ser vista como mero erro técnico dos profissionais contratados pelas empresas. Ao contrário, a ventilação do terreno de Lucila como destino possível e apropriado parece refletir as próprias concepções dos agentes responsáveis entre aqueles considerados como atingidos a serem reassentados e outros que receberiam apenas indenizações. Haveria, assim, nos cálculos e expectativas das empresas uma distinção operativa entre atingidos „reassentáveis e indenizáveis‟ e atingidos „exclusivamente indenizáveis‟. Tal distinção se expressaria nas noções de “área residual”, “área remanescente” e “área afetada” apresentadas pelo PLCI e nas projeções dos casos de reconstrução de edificações danificadas e de relocação para áreas remanescentes. Além disso, ao proporem os terrenos para a votação dos atingidos, as empresas estavam considerando apenas os proprietários dos lotes menores em Paracatu de Baixo. Assim, aqueles que tinham um “sítio” maior foram desconsiderados no

81 reassentamento, sendo classificados como “sitiantes”. Cerca de 20 sitiantes que faziam parte da mesma vizinhança foram excluídos pela Fundação Renova, e para que todos os moradores fossem contemplados no projeto de reassentamento, de fato, foi preciso a compra de mais oito terrenos além daquele originalmente escolhido (Jornal A Sirene, abril de 2018).

As mudanças sociais decorrentes do deslocamento compulsório repercutem nas comunidades ao entorno de diversas formas. Desde a ruptura de Fundão as empresas desvincularam as localidades de Paracatu de Baixo e Paracatu de Cima, sendo que “os moradores mantinham relações regulares, cotidianas de trabalho, ajuda mútua, organização de festividades religiosas e celebrações, tecendo redes de troca, relações de vizinhança, parentesco e compadrio.” (GESTA, 2016). Além disso, os moradores de Paracatu de Cima utilizavam os equipamentos públicos existentes em Paracatu de Baixo, e mesmo diante deste cenário Paracatu de Cima foi excluída do debate e deliberações acerca da votação para a escolha do terreno de reassentamento. A fragmentação das duas comunidades realizada pelas empresas acarretou em divergências e conflitos entre os moradores, deixando os sitiantes de Paracatu de Cima alijados das decisões sobre o reassentamento. Além das rupturas das relações entre as “duas” comunidades, Paracatu de Cima também ficou sem acesso aos equipamentos públicos previstos no reassentamento, o que seria uma nova demanda produzida pelos efeitos do desastre. (GESTA, 2016).

As tratativas em relação aos atingidos de Paracatu de Cima foram incluídas na modalidade do “reassentamento familiar”. As famílias localizadas no entorno de Paracatu de Baixo (exemplo também de Campinas, Borba, Ponte do Gama e Pedras) se encontravam isoladas no âmbito das negociações dos reassentamentos, e a opção era a reconstrução ou restauração das casas no mesmo terreno. Os atingidos passaram a reivindicar o direito de não permanecer na área de “dam break”, ou seja, nos locais de risco, considerando a possibilidade da ameaça de nova ruptura das barragens da Samarco ainda existentes. E esta modalidade de reassentamento foi uma batalha da luta dos atingidos dessas comunidades que tiveram casas, terrenos destruídos pela onda de lama ou ficaram isolados dos vizinhos. A morosidade no processo também dessa modalidade perpassam nas estratégias da Fundação Renova para que as etapas do processo não cheguem ao fim. “Fico vivendo em um tempo que não tem fim”. (Marino, atingido de Paracatu de Cima, seminário três anos, novembro de 2018). Após a escolha do terreno feita pelo atingido a Fundação ainda submete a analise do terreno em sete etapas que envolvem a analise técnica do respectivo terreno. “Quando vence a etapa, a Renova cria

82 outra.” (Marino, atingido de Paracatu de Cima, seminário três anos, novembro de 2018). E a conclusão disso é que nenhum atingido também dessa modalidade de reassentamento teve seu direito materializado.

A autoconstrução é bastante debatida e reivindicada, pois ocorreram casos em que as empresas reconstruíram/restauraram edificações sem que os atingidos tivessem acesso às deliberações relativas ao processo de construção das suas próprias casas. Outro fato são projetos de casas planejadas por engenheiros da Fundação Renova que não consideravam o estilo de habitação, além de erros expressivos: “Primeiro, vieram com um projeto todo errado. Briguei demais. Mandamos voltar, eu e meus filhos. Era porta abrindo em cima de janela.” (fala de Maria Auxiliadora, atingida de Paracatu de Cima, jornal A Sirene, agosto de 2017). Com isso, autoconstruir se tornou uma significativa reinvindicação destes atingidos, no sentido que cada morador tenha a autonomia de gerenciar os processos de reconstrução das suas respectivas moradias.

“Dos subdistritos atingidos da zona rural de Mariana, Ponte do Gama, Borba, Pedras, Paracatu de Cima e Campinas, 26 famílias constam no Plano de Reparação da empresa. Para quem vive na região, esse número não condiz com a quantidade de famílias atingidas, inclusive as que foram removidas pela Defesa Civil. Dentre as 26, somente 10 concordam com os projetos de reconstrução ou reformas apresentadas. As outras 16 ainda não foram atendidas, pois os casos envolvem compras de outros terrenos.” (Jornal A Sirene, ed. 17, agosto de 2017).

O brusco deslocamento compulsório vivenciado pelos moradores de Paracatu de Baixo, Bento Rodrigues e dos outros distritos rurais gerou duas modalidades de reassentamento, o coletivo (das duas comunidades destruídas) e o familiar (famílias das demais localidades que tiveram terrenos destruídos pela lama, ou que estejam isoladas). Além dessas modalidades a restituição também se dará na forma de reconstrução, desde que a família esteja esclarecida sobre os riscos da permanência nas áreas atingidas. (Cáritas, informativo: Diretrizes de Reparação ao direito à moradia, 2018).

Sob o esteio do que Scott (2009) conceitua como “descaso planejado” o processo de reassentamento das comunidades caminha de acordo com o tempo institucional, o que difere do tempo da necessidade dos atingidos, de retomada da vida. A designação proposta pelo o autor revela que há ambiguidades múltiplas que criam um padrão de prejuízos maiores para os que são mais fracos, mesmo que estejam mais bem organizados. Além disso, “as relações entre uma miríade de agentes sociais que se mobilizam para negociar em torno de objetivos

83 estruturalmente conflitantes, cada lado procurando convencer aos outros que seu argumento é mais consistente e seus interesses mais nobres.” (SCOTT, 2009, p. 9)